“Desde 2020, algo relevante acontece todo ano. Não quero dizer que é o novo normal, mas, como organização, temos aprendido a nos tornar mais flexíveis e ágeis para antecipar o que está por vir” , afirma Stephanie Hart, vice-presidente executiva de operações da Nestlé, em entrevista ao portal Valor Econômico.
No cargo desde novembro de 2023, Hart é responsável por uma extensa e complexa cadeia, que envolve mais de 50 mil produtores agrícolas e 335 fábricas em 180 países. No primeiro ano da sua gestão, ela viu a cotação do cacau - uma das principais matérias-primas utilizadas pela empresa -, alcançar preços recordes após pragas e problemas climáticos atingirem os maiores produtores mundiais do fruto, Gana e Costa do Marfim.
Diante da pressão inflacionária, a Nestlé realizou reajustes nos preços para preservar margens. O movimento, no entanto, encontrou um consumidor mais pressionado, que passou a reduzir gastos e migrar para marcas próprias mais baratas. Como resultado, o desempenho recente da companhia tem sido mais sustentado pelo aumento de preços do que pelo crescimento de volumes.
Em 2025, o crescimento orgânico da Nestlé totalizou 3,5%, sendo 2,8% de preços e 0,8% de volume. As vendas somaram 89,5 bilhões de francos suíços (cerca de R$ 602 bilhões), queda de 2% em relação a 2024. A pressão por resultados melhores levou a três trocas no comando da multinacional em menos de um ano.
O atual CEO Philipp Navratil, no cargo desde setembro de 2025, lidera uma reestruturação focada em corte de custos, desinvestimentos e reorganização interna. As metas incluem eliminar 16 mil vagas em dois anos e ampliar as economias para 3 bilhões de francos suíços até 2027.
A empresa também acelera a venda de negócios considerados não estratégicos (como sorvetes, águas, bebidas premium e suplementos de baixo desempenho), ao mesmo tempo em que unificou as divisões de Nutrição e Nestlé Health Science, reorganizando a operação em quatro pilares: café, pet care, nutrição e alimentos.
“Quando olhamos para o novo enquadramento da liderança, o foco é em execução, entrega e desempenho”, afirma Hart. Na sua avaliação, é algo que já existia internamente, mas que está sendo aprimorado. Para 2026, a Nestlé projeta crescimento orgânico entre 3% e 4%, com expectativa de aceleração de volumes frente ao ano passado. Essa perspectiva, porém, deve ser impactada pelo recall de fórmulas infantis realizado em janeiro - o maior da história da companhia.
Após realizar diversos testes, a empresa constatou a presença da toxina cereulide em lotes de fórmula infantil em 60 países, incluindo o Brasil. Produzida pela bactéria Bacillus cereus, a substância pode causar vômitos e diarreia em bebês. Segundo a Nestlé, o problema teria começado com um ingrediente comprado de um fornecedor externo que abastece diversas empresas.
Pouco depois, as francesas Danone e Lactalis - dona de marcas como Itambé, Parmalat e Batavo - também iniciaram o recall de produtos contaminados. O recolhimento começou por países da Europa, mas logo se estendeu para outros mercados.
"Foi algo que não sabíamos que poderia acontecer dessa forma. Toda a indústria ficou surpresa”, diz Stephanie Hart. De toda forma, a executiva se diz orgulhosa da maneira como a companhia conduziu a situação, sendo a primeira a identificar o problema. “Realizamos mais de 1.200 verificações quando fabricamos esses produtos. É reconfortante saber que todos os nossos itens que estão no mercado são seguros para o consumo”, afirma.
Olhando à frente, a executiva não vê o cenário ficando mais fácil, especialmente diante da escalada de conflitos no Oriente Médio. Em meio a tantas incertezas, flexibilidade e eficiência operacionais se consolidam como as principais alavancas da companhia para manter o equilíbrio entre custos e competitividade. Isso inclui diversificar fornecedores ou ajustar receitas e formulações, sem abrir mão da qualidade, para garantir um preço que o consumidor esteja disposto a pagar.
Nesse aspecto, ela cita o Brasil como um “modelo de eficiência industrial” para a multinacional suíça, sendo pioneiro em iniciativas que depois são exportadas para outros mercados. Na última década, por exemplo, a operação brasileira reduziu em mais de 30% o desperdício em suas dependências, destaca Hart.
Com mais de cem anos de atuação e 14 fábricas, o Brasil se consolidou como o terceiro maior mercado da multinacional, atrás de Estados Unidos e China. A executiva esteve no país para acompanhar a implantação do One Operations Model, modelo que integra toda a cadeia operacional da companhia - da origem das matérias-primas ao consumidor final.
Do ponto de vista de expansão, o país segue no centro da estratégia de investimentos, afirma Hart. No início de março, a Nestlé inaugurou uma unidade fabril de Purina em Vargeão (SC) com investimento de R$ 2,5 bilhões. A fábrica, voltada à produção de alimentos úmidos para pets e à exportação, dobra a capacidade produtiva da marca no Brasil. “Vemos uma grande oportunidade nesse segmento”, diz a executiva.
No início desta semana foi anunciada a retomada de uma fábrica de soro de leite em Carazinho (RS), com investimentos de R$ 60 milhões. A iniciativa deve ampliar em 15% a produção do insumo até 2029 - principal ingrediente na fabricação de fórmulas infantis - e reforça a perspectiva positiva da empresa para o segmento, mesmo após o recall.
Em relação a cafés e confeitaria, áreas em que a companhia tem uma presença forte no país, Hart também vê espaço para novos investimentos. “Queremos aumentar nosso escopo e penetração para atrair novos consumidores”, afirma Hart.
As informações são do Valor Econômico, adaptadas pela equipe MilkPoint.
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