Minas Gerais é o principal polo produtor do País e responde por cerca de dois terços da produção brasileira. Em Contagem, o peso econômico do pão de queijo vai além da tradição. O município reúne 32 fabricantes que, segundo levantamento da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, produziram cerca de 101 mil toneladas em 2025 e geram mais de 1.600 empregos diretos.
A atividade também tem impacto direto na arrecadação municipal. Dados da Receita Estadual, fornecidos pela Prefeitura de Contagem, mostram que as dez maiores fabricantes instaladas na cidade geraram mais de R$ 36 milhões em Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) entre 2019 e 2023. Entre as dez maiores empresas do setor instaladas no município estão Forno de Minas, Xodó de Minas, Seu Ninico e Tia Tânia. Os produtos são distribuídos para todo o Brasil e exportados para países como Argentina, Portugal, México e Estados Unidos.
Xodó de Minas amplia produção de pão de queijo em 65%
A expansão do setor se reflete nos investimentos realizados pelas próprias empresas. Instalada em Contagem desde sua fundação, em 2007, a Xodó de Minas está ampliando sua capacidade produtiva e prevê elevar o volume de 75 toneladas por dia para cerca de 125 toneladas diárias a partir de outubro. O investimento na expansão é estimado pela empresa em aproximadamente R$ 30 milhões.
Segundo o diretor comercial da Xodó de Minas, Amarildo Martins, a ampliação ocorre na própria estrutura da companhia, no bairro Cidade Industrial, em Contagem, em um terreno de 9 mil metros quadrados adquirido com a perspectiva de crescimento. “A gente está ampliando a fábrica. Acredito que, em outubro, ela já esteja em operação”, afirma. A nova capacidade representa um avanço de cerca de 65% em relação ao volume produzido atualmente pela empresa.
Para o executivo, o investimento demonstra a dimensão que o segmento vem alcançando no município. “Contagem está sendo conhecida como a capital do pão de queijo, porque tem um número enorme de fábricas de pão de queijo”, afirma. Na avaliação dele, a concentração de empresas cria um efeito de atração dentro da própria cadeia. “Uma vai puxando a outra”, diz.
Atualmente, a Xodó de Minas emprega 235 funcionários diretos e cerca de 80 trabalhadores indiretos, ligados principalmente à logística. A empresa também ampliou o portfólio, embora o pão de queijo tradicional continue como seu principal produto, responsável por cerca de 80% das vendas. A companhia também oferece itens como biscoito de três queijos, palito, ferradura e versões recheadas de requeijão, frango e carne-seca.
A localização de Contagem também foi determinante para a expansão da empresa. Segundo Martins, a Xodó de Minas transferiu sua operação para a Cidade Industrial no fim de 2024, em busca de melhores condições de mobilidade para os trabalhadores. “Todos os ônibus de cidades próximas passam na Praça da Cemig”, explica, ao citar a facilidade de acesso para os funcionários que vivem em municípios da região metropolitana. O diretor comercial também relaciona a formação do polo à tradição mineira na produção de leite e derivados. “Minas Gerais tradicionalmente tem uma cultura de laticínio, de produção de queijo”, afirma.
Forno de Minas e Seu Ninico reforçam Contagem como polo nacional do pão de queijo
O diretor comercial da Seu Ninico, Guilherme Lima, conta que a empresa escolheu Contagem pela força industrial e pela localização estratégica do município. Segundo ele, o negócio começou em 2009, com a produção de pão de queijo em casa, foi formalizado em 2011 e chegou às redes de supermercados em 2017.
Atualmente, a empresa emprega aproximadamente 100 pessoas e atua principalmente nas regiões Sul e Sudeste, além do Distrito Federal e da Bahia. “Contagem é um dos principais polos industriais do Estado. É um lugar muito bem posicionado logisticamente”, afirma. Segundo Lima, a infraestrutura e o acesso às diferentes regiões da Região Metropolitana de Belo Horizonte também pesaram na escolha. “É uma cidade que incentiva e que tem boa infraestrutura para a indústria”, comenta.
Na mesma linha, o diretor-geral da Forno de Minas, Rodrigo Abreu, destaca que Contagem é parte indissociável da trajetória da empresa, que mantém na cidade sua estrutura industrial há mais de 35 anos e emprega cerca de 700 funcionários. “A empresa nasceu em Minas Gerais e construiu sua história na cidade de Contagem”, afirma. Sem revelar números ou detalhes, o diretor informa que a companhia está na primeira fase de um projeto de expansão da fábrica instalada no município.
A empresa também aposta na expansão internacional. Segundo Abreu, a Forno de Minas exporta atualmente para 14 países, iniciou a produção em Portugal no fim do ano passado e prepara o início da produção nos Estados Unidos. A companhia integra a canadense McCain Foods desde 2023. “Temos orgulho de ter ajudado a levar um produto tão mineiro para o Brasil e para outros países, mas também entendemos a responsabilidade de preservar aquilo que torna o pão de queijo especial: sua origem, seus ingredientes e a tradição por trás dele”, afirma.
Para o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Luciano Oliveira, a concentração de grandes fabricantes reforça a transformação do perfil econômico da cidade. “O município de Contagem deixou de ser visto como a cidade industrial do forno que polui o ambiente e hoje também concentra as principais indústrias de pão de queijo do Brasil, detendo a maior parcela dessa produção e atendendo tanto ao mercado interno quanto à exportação”, afirma.
Segundo ele, a localização geográfica é um dos fatores decisivos para a atração das empresas. Contagem é cortada pelas BRs 040 e 381, pelo Anel Rodoviário e pela Via Expressa, formando um entroncamento logístico estratégico para o escoamento de mercadorias. “Contagem é uma cidade privilegiada. A localização geográfica é muito estratégica, sobretudo para a distribuição logística”, diz. “Isso faz de Contagem um ponto estratégico para o escoamento não só do setor de pão de queijo, mas de todas as indústrias instaladas aqui, desde o setor alimentício até as indústrias 4.0.”
A tradição familiar também está na origem de parte do segmento. De acordo com Oliveira, muitas fabricantes menores começaram de maneira artesanal e, aos poucos, transmitiram o conhecimento entre gerações. “Essa cultura do pão de queijo vem de berço, passa de pai para filho, de avô para neto”, afirma. Sem citar números, o secretário destaca ainda que várias indústrias locais passam por expansão. “Muitas empresas estão em ritmo acelerado de crescimento, duplicando ou até triplicando a produção”, declara.
Cadeia do leite sustenta indústria do pão de queijo e movimenta R$ 164,5 bi em Minas
A força do pão de queijo mineiro começa antes de chegar às fábricas. Segundo dados do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados no Estado de Minas Gerais (Silemg), o Estado produziu cerca de 9,78 bilhões de litros de leite em 2025. Do volume inspecionado, 48,5% foi destinado à fabricação de queijos.
Minas Gerais reúne 775 estabelecimentos de laticínios e aproximadamente 134 mil produtores que fornecem leite para a indústria. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Estado respondeu por 23,9% da aquisição nacional de leite cru por estabelecimentos sob inspeção em 2025, mantendo a liderança no País.
A cadeia integra a produção rural, os laticínios, a indústria de alimentos, a distribuição e o varejo. No conjunto, o setor alimentício mineiro movimentou R$ 164,5 bilhões em 2025, enquanto o Estado contabiliza mais de 33 mil empresas de panificação e confeitaria.
Nas padarias, o pão de queijo mantém posição de destaque. O presidente do Sindicato das Indústrias de Panificação de Minas Gerais (SIP), Vinícius Dantas, explica sua importância. “É o segundo produto mais vendido nas padarias, logo depois do pão francês”, destaca. Segundo Dantas, o avanço da indústria acompanhou uma mudança operacional nos estabelecimentos, que passaram a adquirir o produto congelado em vez de manipulá-lo no local. “Hoje, o maior cliente da indústria de pão de queijo é o setor de panificação”, explica. Ele também ressalta a praticidade do produto: “Como vem congelado, basta assar. Não precisa nem descongelar.”
Essa relevância econômica e cultural levou a Prefeitura de Contagem a realizar o 1º Festival do Pão de Queijo, ocorrido no último fim de semana na cidade. A iniciativa buscou valorizar toda a cadeia produtiva e a tradição local, consolidando o município como a capital da produção industrial da iguaria.
As informações são do Diário do Comércio.
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