Como uma cidade cearense passou de 3 milhões para 35 milhões de litros de leite produzidos por ano?

Segundo o analista sênior da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec), Josias Lima, o salto de Milhã na última década decorre de "investimentos pesados em alta genética, com o uso de touros registrados e inseminação artificial constante".

Publicado por: MilkPoint

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O cenário da pecuária leiteira no Ceará registrou transformações profundas na última década, com municípios apresentando saltos produtivos exponenciais. O maior destaque da série histórica entre 2015 e 2024 é o município de Milhã, que consolidou um crescimento de 1.020,71% no período. 

Os dados são da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A Cidade, que produzia 3,18 milhões de litros de leite em 2015, encerrou o ano de 2024 com uma marca de 35,66 milhões de litros, garantindo uma fatia de 2,95% de toda a produção estadual.

O desempenho de Milhã reflete uma tendência de interiorização e tecnificação do setor no Estado. Somente no último ano da análise (2023/2024), a cidade manteve o ritmo de ascensão com uma alta de 5,61%, consolidando-se entre os principais players do mercado cearense.

Figura 1

Investimento em genética e manejo alimentar impulsionam a produtividade

Segundo o analista sênior da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec), Josias Lima, o salto de Milhã na última década decorre de "investimentos pesados em alta genética, com o uso de touros registrados e inseminação artificial constante".

Ele também explica que os produtores têm sido "altamente eficientes no manejo alimentar, utilizando palma forrageira e capim Capiaçu para compensar as fragilidades de um solo considerado fraco".  "Essa estratégia permite que os animais mantenham a produtividade mesmo diante da irregularidade climática e da escassez de chuvas que afeta a região do semiárido", comenta.

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Embora Milhã represente menos de 3% da produção total do Ceará, Josias Lima define a cidade como uma "ilha produtiva" com a maior produção per capita do Estado. Ele explica que o nível de especialização dos produtores é tão elevado que eles tomam a iniciativa de importar embriões congelados e tourinhos do Paraná para aprimorar o rebanho. "Essa articulação entre os criadores locais transformou o pequeno município em uma referência técnica, onde a genética aliada ao estudo garante resultados acima da média estadual", reforça.

Figura 2

Logística também colaborou 

Outro ponto que ele destaca é a preocupação da região em investir na melhoria das estradas vicinais, criando a chamada "rota do leite" para garantir que o acesso aos tanques seja viável durante todo o ano. "Essa infraestrutura facilita o trabalho de grandes indústrias que conseguem captar grandes volumes de leite em poucas paradas".  Para o analista da Faec, a logística otimizada é um diferencial competitivo, pois a indústria prioriza locais onde a produção está concentrada e é de fácil escoamento.

O impacto do leite na economia do interior

Segundo Thiago Holanda, a pecuária leiteira é um motor vital para o interior cearense, pois, ao contrário de culturas sazonais, garante um fluxo contínuo de receita. "Esse dinheiro circula rapidamente, aquecendo o comércio local e beneficiando uma rede que vai de médicos veterinários a transportadores e laticínios", avalia.

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Ao analisar o crescimento de mais de 1.000% de Milhã, Holanda pontua que o índice extraordinário resulta da união entre uma vocação histórica do município e a modernização da produção. Ele ressalta que, embora a base de comparação em 2015 fosse pequena, o salto reflete uma ampliação real do rebanho e melhoria genética.

Mombaça e Jucás lideram lista de maiores altas percentuais

Além do recorde estabelecido por Milhã, outros quatro municípios se destacaram por crescimentos superiores a 700% nos últimos nove anos, alterando o mapa da produção regional. O segundo melhor resultado foi o de Mombaça, com alta de 909,30%, saltando de 2,7 milhões para 27,25 milhões de litros. Já Jucás apresentou um crescimento de 785,14%, saindo de uma base de 2,26 milhões em 2015 para os atuais 20,07 milhões de litros.

Morada Nova e Quixeramobim seguem no topo do ranking de produção

Embora os crescimentos percentuais mais agressivos venham de cidades emergentes, o ranking por volume total de leite produzido em 2024 reafirma a hegemonia de polos tradicionais, liderados com folga por Morada Nova. A líder Morada Nova triplicou sua produção desde 2015, quando registrava 26,33 milhões de litros, mantendo uma trajetória de crescimento constante que culminou no atual patamar de liderança absoluta no Ceará.

Figura 3

Fortalecimento do campo e combate ao êxodo rural

Para o economista Holanda, a expansão do setor oferece uma fonte estável de renda que ajuda a fixar as famílias no campo, reduzindo o êxodo rural e estimulando investimentos locais em infraestrutura produtiva.

Porém, apesar dos números positivos, ele alerta para gargalos críticos: a irregularidade das chuvas e o alto custo de insumos como milho e energia elétrica.

Para o especialista, o futuro do setor depende de superar desafios logísticos e ampliar a industrialização para agregar valor aos derivados lácteos no estado.

As informações são do Diário do Nordeste

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