Enquanto muitos jovens deixam o campo em busca de oportunidades nas cidades, Rodrigo de Oliveira Aquino decidiu seguir o caminho contrário. Aos 29 anos, trocou a vida na capital sergipana por um sonho cultivado desde a infância: produzir leite no Sertão.
Foi assim que começou uma nova etapa da história da Fazenda Santa Izabel, localizada em Porto da Folha, no Alto Sertão de Sergipe. Uma propriedade construída por seus avós, fortalecida ao longo dos anos pelo tio José Sabino e que hoje segue sendo conduzida por Rodrigo, ao lado do tio José Edízio e de uma equipe que se tornou parte fundamental dessa trajetória. “Eu fiz o caminho inverso que as pessoas fazem. Vim da capital, Aracaju, para Porto da Folha para viver um sonho que eu sempre tive, que era viver do gado de leite”, conta.
Quando decidiu assumir o desafio, Rodrigo encontrou uma atividade cheia de potencial, mas também cercada por obstáculos. O início não foi simples. Ele precisou aprender praticamente tudo do zero, incluindo algo tão básico para a rotina da fazenda quanto tirar leite. “Eu não sabia tirar leite de vaca. Aprendi quando cheguei da capital e entrei para a sala de ordenha.”
Ao longo dos anos, a persistência deu lugar aos resultados. Hoje, a Fazenda Santa Izabel trabalha com 29 vacas em lactação, predominantemente de cruzamentos girolando, com animais próximos a meio sangue, 5/8 e 7/8. O rebanho produz, em média, 21 litros por vaca por dia — um salto expressivo em comparação aos 13 litros registrados antes da adoção de novas práticas de manejo e nutrição. “Conseguimos alcançar esse patamar através de melhoria de manejo, nutrição e, principalmente, acompanhamento técnico.”
O poder da assistência técnica
Se existe um divisor de águas na história recente da propriedade, Rodrigo não tem dúvidas sobre qual foi. “Uma das melhores coisas que aconteceu na nossa fazenda foi a chegada da assistência técnica e gerencial do Senar.”
Na época, a propriedade ainda era conduzida pelo tio José Sabino quando passou a receber acompanhamento da zootecnista Mikaele Alexandre. Segundo Rodrigo, foi ela quem iniciou uma transformação profunda na forma de enxergar a alimentação do rebanho.
A partir da realidade da região e dos ingredientes disponíveis localmente — como farelo de soja, xerém de milho, trigo, torta de algodão e caroço de algodão — foram formuladas dietas mais equilibradas e adequadas às necessidades dos animais.
Pequenas mudanças geraram grandes impactos
“Tem aquela resistência à mudança. Mas, quando a gente aplicou e viu o resultado, entendemos a diferença.” Além da nutrição, a fazenda passou a investir cada vez mais em planejamento alimentar, produção de silagem e cultivo de palma forrageira para enfrentar os períodos de estiagem, uma realidade constante no Semiárido nordestino.
“Existem anos em que conseguimos uma excelente produção de silagem por hectare e outros em que a produtividade é bem menor. Por isso, a gente sempre trabalha para manter uma reserva estratégica e não deixar faltar alimento. Até hoje Mikaele continua acompanhando a gente, revisando a alimentação das vacas, das bezerras e acompanhando toda a evolução do rebanho.”
Quando dois litros e meio fazem toda a diferença
No Sertão sergipano, produzir leite exige conviver diariamente com um adversário silencioso: o calor. Por isso, o conforto térmico tornou-se uma prioridade na Fazenda Santa Izabel.
Durante o período chuvoso, os animais têm acesso a pastagens e áreas de vegetação nativa. Já na seca, passam mais tempo confinados, recebendo alimentação baseada em silagem e suplementação.
A estrutura ainda é simples, com ordenha realizada no sistema balde ao pé, mas Rodrigo aprendeu que algumas intervenções relativamente acessíveis podem gerar retornos impressionantes. Um dos exemplos foi a instalação de sombrite nas áreas de permanência das vacas. “Eu pesei o leite antes de colocar o sombrite e depois de colocar o sombrite. Tivemos um ganho médio de dois litros e meio por vaca apenas com essa mudança.”
O resultado reforçou uma convicção
“O estresse térmico é uma das coisas que mais quebra nossa produção. Reduz a ingestão de alimento e afeta tudo.” Além do sombrite, árvores nativas ajudam a amenizar as temperaturas e a propriedade desenvolveu um sistema simples de aspersão para refrescar os animais antes da ordenha. “É uma coisa bem simples, mas as vacas gostaram. A gente percebe claramente a resposta positiva dos animais.”
Genética, reprodução e evolução contínua
A escolha pelos animais girolando não foi por acaso. “É uma raça fundamental para o nosso sistema. É muito adaptada ao clima quente da nossa região e responde muito bem tanto em rusticidade quanto em produção de leite.” Nos últimos anos, a genética também passou por uma transformação importante.
Rodrigo lembra que, no passado, as inseminações eram feitas sem planejamento. “Tinha uma vaca no cio. A gente chegava no botijão, pegava qualquer dose que tivesse lá e utilizava.” Hoje, o processo é diferente. Com apoio dos médicos veterinários Davi e Edson, a fazenda passou a selecionar os touros de forma estratégica, buscando animais mais adaptados ao sistema produtivo e maior padronização do rebanho.
A propriedade trabalha com inseminação artificial, utiliza sêmen sexado em parte dos acasalamentos e já sonha com passos ainda mais ambiciosos. “Pensando mais à frente, temos vontade de evoluir cada vez mais na genética, quem sabe trabalhar no futuro com FIV.”
A força do cooperativismo
Outro capítulo importante dessa história começou com a criação da cooperativa Master Leite. Rodrigo foi um dos primeiros produtores a acreditar no projeto. “Tenho muito orgulho de dizer que sou um dos cooperados que está lá desde o início.”
Ele participou da fundação da cooperativa ao lado de outros 19 produtores, atendendo ao convite de Valdinho, atual presidente da organização. Hoje, a cooperativa reúne 45 produtores e comercializa o leite para a Piracanjuba. Para Rodrigo, os benefícios são evidentes. “A criação da Master Leite trouxe uma mudança muito positiva para nós. Conseguimos um volume maior de leite, o que nos trouxe força de negociação.”
Mesmo reconhecendo que o produtor sempre busca uma remuneração melhor, ele acredita que a cooperativa proporcionou condições mais favoráveis de comercialização e ajudou a proteger os produtores das oscilações mais severas do mercado. “O produtor de leite ainda precisa ser mais valorizado, principalmente pelo nível de investimento, dedicação e responsabilidade que a atividade exige.”
Os desafios que persistem
Apesar dos avanços, produzir leite no Nordeste continua sendo uma atividade desafiadora. A mão de obra é uma das principais preocupações. “Para trabalhar com atividade leiteira, você tem que gostar muito. Não tem feriado, dia santo, não tem nada. Você precisa estar ali todos os dias pelos seus animais.”
Os custos dos insumos, especialmente milho, soja e suplementos, também impactam diretamente o planejamento financeiro das propriedades. Além disso, existem gargalos estruturais que extrapolam os limites da fazenda.
Rodrigo cita as dificuldades das estradas, fundamentais para a coleta do leite, a oscilação no fornecimento de energia elétrica e a falta de abastecimento de água encanada em parte das propriedades da região. “Precisamos que o poder público atue mais para que a gente consiga escoar nossa produção com mais facilidade.”
Sonhos construídos aos poucos
Quando fala sobre o futuro, Rodrigo fala sobre sonhos. O principal deles é modernizar a infraestrutura da fazenda. A construção de uma sala de ordenha com fosso, sala de espera e sistema de aspersão está entre os objetivos. Também estão nos planos uma pista de alimentação mais adequada e a modernização de estruturas que ainda remontam à época de seus avós. “Tenho muito respeito pela história e por tudo que foi construído até aqui. Mas também entendemos que precisamos modernizar algumas áreas para continuar crescendo.”
O foco não está em aumentar o número de vacas. “A gente quer aumentar a produtividade sem precisar aumentar a quantidade de animais. Acredito que, se eu der uma estrutura melhor para as vacas que tenho hoje, elas já vão me entregar uma produção maior.”
Tudo dentro da realidade da propriedade. “Estamos construindo esse sonho aos poucos, sempre buscando fazer algo simples, funcional e eficiente.”
Nenhuma fazenda cresce sozinha
Ao olhar para trás, Rodrigo faz questão de destacar que nenhuma conquista aconteceu de forma individual. Ele fala dos tios José Sabino e José Edízio, da assistência técnica, dos veterinários, da cooperativa e dos colaboradores Manrique e Grego, que chegaram em um momento decisivo da propriedade.
Mas a emoção aparece de forma especial quando menciona a família. “Minha esposa, Tamires, é minha base.” Ao lado dela vieram também novos motivos para seguir em frente: a filha Alícia e o pequeno Otávio, que está a caminho.
Rodrigo também faz questão de agradecer aos pais, José Paixão e Maria Helena, que o apoiaram nos momentos mais difíceis da transição da cidade para o campo. “Meu início aqui foi difícil. Tive muitos problemas com mão de obra e muita coisa para aprender.” Hoje, porém, ele enxerga a atividade com entusiasmo.
Acredita na força da pecuária leiteira sergipana, vê uma nova geração permanecendo no campo e observa produtores investindo cada vez mais em conhecimento, genética, tecnologia e gestão.
No fundo, sua história representa algo maior do que os números de uma fazenda. É a história de alguém que escolheu permanecer. Que trocou a cidade pelo Sertão. Que aprendeu a ordenhar, enfrentou a seca, venceu as dificuldades e segue construindo, dia após dia, o sonho iniciado por seus avós.
Um sonho que continua sendo alimentado pelo leite, pela família e pela certeza de que sempre é possível evoluir mais um pouco.
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O Nordeste é feito de milhares de histórias de dedicação, inovação, superação e amor pela atividade leiteira. O Especial Nordeste do MilkPoint quer dar voz a esses produtores e mostrar a força de uma região que segue transformando desafios em oportunidades.
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