Hoje, essa produção serve como uma vitrine essencial para a ciência feita no Brasil, conectando a academia ao campo. De acordo com a pesquisadora, o impacto vai além da informação técnica, atingindo o entusiasmo das novas gerações. "Gosto muito quando o trabalho dos meus orientandos, principalmente os da graduação, é publicado no site Milkpoint, eles ficam muito contentes, estimulados e orgulhosos", afirma Ricarda, destacando a importância de valorizar o conhecimento produzido nas universidades brasileiras.
Ao olharmos para o início dos anos 2000, percebemos o quanto a ciência avançou na compreensão da fisiologia animal. Houve uma época em que a alta produtividade era vista como a grande vilã da fertilidade, um dogma que foi derrubado por anos de pesquisas persistentes que olharam para o animal de forma mais sistêmica.
Ricarda relembra que, naqueles anos, a responsabilidade pelo fracasso era depositada exclusivamente no animal. "No início dos anos 2000 a gente culpava a vaca de leite pelo baixo desempenho reprodutivo, praticamente naquela época todos os artigos científicos começavam com a seguinte frase: Vacas de leite de alta produção tem baixa eficiência reprodutiva", recorda a professora. Esse cenário mudou drasticamente à medida que os pesquisadores entenderam que o segredo estava no atendimento das necessidades nutricionais e metabólicas, especialmente no período de transição.
Hoje, o entendimento sobre reprodução é muito mais profundo e começa antes mesmo do nascimento do animal, através de conceitos como programação fetal e epigenética. A evolução dos protocolos de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) desenvolvidos especificamente para a realidade brasileira e o uso de sistemas automáticos de monitoramento transformaram o dia a dia das fazendas. A integração de dados tornou-se a palavra de ordem para rebanhos de alta performance.
Segundo a professora Ricarda, o que era inimaginável há duas décadas tornou-se realidade através da tecnologia. "Ultimamente temos publicado resultados dos estudos que usam os sistemas automáticos de monitoramento de atividade, como aliados para a detecção de estro e monitoramento de saúde, e como essas informações podem ser úteis para o direcionamento do manejo reprodutivo, conceito que há 20 anos atrás era impossível de ser pensado para rebanhos grandes", explica.
A revolução genômica, iniciada por volta de 2009, também desempenhou um papel crucial ao permitir que características de baixa herdabilidade, como a taxa de concepção, fossem inseridas nos índices de seleção. O uso de touros jovens e a redução do intervalo entre gerações aceleraram o ganho genético, cujos frutos são colhidos agora pelos produtores. No entanto, todo esse avanço tecnológico só foi possível devido a uma mudança de mentalidade na gestão. A fazenda deixou de ser um conjunto de setores isolados para ser compreendida como um organismo único e integrado. Eventos como o Interleite, somados ao conteúdo digital, foram os grandes pilares dessa capacitação técnica e da profissionalização do setor.
Olhando para o futuro, o desafio da pecuária leiteira é consolidar sua posição de destaque no agronegócio nacional, superando estigmas e abraçando novas formas de comunicação. Com a rapidez das redes sociais e a proliferação de conteúdos nem sempre embasados, o compromisso com a ciência torna-se ainda mais relevante. A Professora Ricarda acredita que a reinvenção é o caminho para continuar atraindo e educando o público. "A pecuária leiteira no Brasil ainda tem muito desafio pela frente, temos que deixar de ser o 'patinho feio da agropecuária brasileira'. Temos gente e conhecimento para nos tornarmos tão grandes e inovadores quanto os outros setores do nosso agronegócio", conclui a pesquisadora, reforçando que a missão de divulgar o conhecimento correto de forma atrativa é o próximo grande passo desta história de sucesso.
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