Economia de escala e os desafios para o pequeno produtor de leite

Ao analisar a produção de leite, existe uma tendência global de redução no número de fazendas ao longo do tempo. Esse movimento tem sido expressivo em diversos países.

Publicado por: MilkPoint

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A produção de leite enfrenta uma tendência global de redução no número de fazendas, com queda significativa nos EUA, Argentina e Brasil. Em Minas Gerais, dados mostram que produtores com maior volume de leite têm margens líquidas mais altas e custos fixos diluídos, resultando em maior eficiência econômica. Pequenos produtores enfrentam desafios estruturais, como alta ociosidade e ineficiência, dificultando investimentos. Estratégias de gestão e tecnologia são essenciais para melhorar a competitividade e viabilidade na atividade leiteira.
Ao analisar a produção de leite, existe uma tendência global de redução no número de fazendas ao longo do tempo. Esse movimento tem sido expressivo em diversos países. Nos Estados Unidos, o número de propriedades leiteiras caiu de cerca de 83 mil em 2000 para 24 mil em 2024. Na Argentina, passou de 15 mil em 2002 para 9 mil em 2025

No Brasil, os dados dos Censos Agropecuários confirmam essa mesma trajetória. Em 2006, eram 874,5 mil estabelecimentos comercializando leite, e em 2017, esse número caiu para 634,5 mil. Estimativas do CILeite/Embrapa indicam algo próximo de 513 mil propriedades em 2025.

Mas o que explica essa redução? E por que a volume de produção tem se tornado cada vez mais determinante para a viabilidade da atividade leiteira?

Dados da Labor Rural, provenientes de propriedades em Minas Gerais, ajudam a responder essas questões ao evidenciar as diferenças de desempenho econômico entre diferentes volumes de produção diária de leite

Na tabela 1, observam-se alguns indicadores técnicos e econômicos em cinco estratos de produção média diária. É notório o incremento da margem líquida unitária à medida que o volume de produção aumenta, saindo de R$ 0,14/litro nos produtores de até 500 litros/dia para R$ 0,45/litro acima de 4.000 litros/dia, um aumento superior a 200%. Portanto, produtores maiores conseguem diluir custos fixos (mão de obra, manutenção, energia) em um volume maior de leite. Além disso, o maior poder de negociação na compra de insumos e na venda do leite tende a favorecer as margens nos estratos mais altos, inclusive pela bonificação relativamente mais elevada por volume que ocorre no mercado brasileiro.

Esse resultado reflete um conjunto de melhorias associadas ao aumento do volume de produção, muitas delas relacionadas à gestão da atividade. Indicadores como estoque de capital por litro produzido, estrutura de rebanho e produtividade dos fatores (terra, vaca e mão de obra) evoluem positivamente com o crescimento da produção de leite.

O indicador de estoque de capital é primordial neste contexto, pois mede a eficiência no uso dos ativos (terra, máquinas, benfeitorias e animais) e indica quanto capital está imobilizado para produzir um único litro de leite por dia. Além disso, é também um indicador que gera inferências sobre a ociosidade da propriedade. 

No estrato de menor volume de produção (até 500 litros/dia), são necessários R$ 4.364 em ativos investidos para produzir um litro de leite por dia. No estrato com volume acima de 4.000 litros/dia, esse valor cai para R$ 1.787, representando uma redução de aproximadamente 60% no capital imobilizado por volume produzido. Isso mostra que o produtor obteve economias de escala ao crescer, ou seja, ele conseguiu uma maior utilização dos fatores produtivos envolvidos na atividade.

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Essa diferença evidencia que os produtores de maior volume, utilizam sua estrutura de forma mais intensiva, ou seja, operam próximos dolimite de suas pastagens, ordenha e maquinários, diluindo investimentos e reduzindo ociosidade . Já no produtor de menor volume, o peso do capital é proporcionalmente maior, em função da indivisibilidade de ativos, afinal, não existe “meio trator” eficiente. Portanto, o capital acaba ficando ocioso, com máquinas e outros ativos trabalhando apenas uma fração do que poderia. O mesmo ocorre para o fator “terra”. Muitas vezes, a área destinada à produção de leite no pequeno produtor não está otimizada, com baixa taxa de lotação, necessitando produzir mais leite por hectare.

Tabela 1. Indicadores técnicos e econômicos, por estrato de produção média diária. Fonte: Labor Rural/Embrapa Gado de Leite (2026).

Indicador

Até

500L

501

a 1.000 L

1.001

a 2.000 L

2.001

a 4.000 L

Acima 4.001 L

Margem Líquida Unitária (R$/Litro)

0,14

0,24

0,26

0,39

0,45

Estoque de capital (com terra) por litro de leite (R$/Litro/dia)

4.364

3.290

2.811

2.020

1.787

Vaca em lactação/Total de vacas (%)

76

81

82

84

85

Produtividade por vaca (litros/animal/dia)

15

18

21

25

28

Produtividade da terra (litros/hectare/ano)

6.343

8.169

10.158

14.943

17.556

Produtividade mão de obra (litros/trabalhador/dia)

206

309

422

517

591

Custo alimentar e não alimentar

A Figura 1 complementa essa análise ao mostrar que, embora o Custo Operacional Total (COT) varie pouco entre os estratos (de R$ 2,07 para R$ 2,04/litro), sua composição muda significativamente.

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Nos produtores de menor volume, o custo não alimentar representa 43% do total, refletindo a menor eficiência no uso da estrutura produtiva. A ineficiência do capital, como discutimos, reflete em custos não alimentares relativamente maiores, com depreciação de máquinas, manutenção de instalações e mão de obra que, proporcionalmente, pesam mais para quem produz pouco. Além disso, o custo alimentar relativamente menor em um pequeno produtor sugere um sistema de produção menos intensivo (mais baseado em pasto e com menor suplementação). Mas infelizmente, a economia feita na alimentação acaba sendo drenada pela ineficiência da estrutura fixa.

Já em produtores de maior volume, esse percentual cai para 27%, que representa uma redução de R$ 0,34 por litro em relação ao produtor menor, evidenciando a diluição dos custos fixos. Isso indica uma mudança de estratégia: produtores de maior volume investem mais em nutrição para maximizar o potencial produtivo dos animais.

Figura 1. Relação de Custo Operacional Total (COT) em Custos alimentares e não alimentares, por estrato de produção média diária. Fonte: Labor Rural/Embrapa Gado de Leite (2026).

A figura 2 aprofunda essa discussão ao detalhar a composição dos custos não alimentares. Ela evidencia que, nos sistemas de menor volume, o principal desafio não está necessariamente no acesso à tecnologia, mas na forma como os recursos disponíveis são utilizados. Quase metade de todo o custo não alimentar é mão de obra e isso acontece porque o volume de leite é relativamente baixo para pagar o tempo do trabalhador ou do próprio produtor. Muitas vezes essa baixa produtividade está associada ao pouco uso de automação e mecanização, que exigem maiores investimentos que eventualmente são inviáveis dado o menor volume de leite produzido. 

O mesmo raciocínio se aplica à depreciação: no produtor menor, máquinas e equipamentos perdem valor ao longo do tempo sem gerar volume suficiente de produção que justifique o investimento. Já em propriedade maiores, esses ativos são utilizados de forma mais intensiva, reduzindo a depreciação por litro produzido.

Por outro lado, itens como sanidade, reprodução e energia ganham maior participação nas propriedades maiores. Isso reflete um nível mais elevado de controle e intensificação produtiva, no qual o produtor investe mais por animal, buscando maior eficiência biológica e econômica, seja este investimento em protocolos rigorosos de sanidade, estratégias mais efetivas de reprodução ou mecanização e sistemas de resfriamento e ordenha mais robustos.

Figura 2. Detalhamento de Custo Operacional Total (COT) por estrato de produção média diária. Fonte: Labor Rural/Embrapa Gado de Leite (2026).

A pecuária de leite, tanto no Brasil quanto no mundo, caminha para sistemas cada vez mais orientados à eficiência e economias de escala. Nesse contexto, o pequeno produtor enfrenta um desafio estrutural relevante.

Baixo volume e menor economia de escala implica menor diluição de custos e menor eficiência no uso do capital. Ao mesmo tempo, aumentar a produção exige investimentos que nem sempre são viáveis no curto prazo. Forma-se, assim, um ciclo difícil de romper: o sistema é mais caro porque produz pouco, e produz pouco porque não consegue investir para crescer.

Ainda assim, aumento de volume em si não é o único caminho. Estratégias baseadas em gestão eficiente, intensificação produtiva planejada e adoção criteriosa de tecnologias permitem que pequenos produtores alcancem boa rentabilidade e se mantenham competitivos. Com isso, podem não apenas permanecer, mas também crescer na atividade leiteira, contribuindo para reduzir os impactos sociais das transformações em curso na pecuária leiteira do Brasil e do mundo.

Vale a pena destacar que o pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Glauco Carvalho, um dos autores deste trabalho, será palestrante no Milk Pro Summit 2026, que ocorrerá nos dias 28 e 29 de maio em Atibaia/SP, onde apresentará a palestra “Estratégias para a gestão de risco na cadeia do leite: como podemos aprender com outros países”, compartilhando sua ampla experiência em economia do leite, mercados e políticas públicas aplicadas ao setor. Saiba mais sobre o evento aqui. 

Autores do artigo: 

Glauco Carvalho – Pesquisador da Embrapa Gado de Leite
Samuel Oliveira – Pesquisador da Embrapa Gado de Leite
Maria Fernanda de Almeida – graduanda em estatística e bolsista na Embrapa
Giovani da Costa Caetano – Coordenador de Inteligência de Dados da Labor Rural
Andreza de Fátima Martins – Cientista de Dados da Labor Rural
Filipe Mendes Dalboni – Cientista de dados da Labor Rural

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