Segundo David Fiss, diretor sênior de Novos Negócios da Worldpanel by Numerator, o momento pede uma análise rigorosa das diferentes ocasiões de consumo e das realidades socioeconômicas e geracionais. Ele ressalta que "a verdadeira virada de chave está em compreender quanto da estratégia está baseada em indicadores de consumo (demand spaces) e não apenas em indicadores de varejo tradicionais". Nesse contexto analítico, a escolha por produtos com maior valor agregado, com destaque para a categoria de proteicos e lácteos, passa a se relacionar intimamente com o cuidado com dietas e saúde digestiva.
Diante dessa nova dinâmica mercadológica, consolida-se o conceito de economia do apetite. Rafael Couto, diretor de Insights Comerciais e do Consumidor e Head de Análises Avançadas da Worldpanel by Numerator, explica que a mudança central reside no fato de o indivíduo passar a ter menos apetite disponível e, consequentemente, tornar-se muito mais seletivo. Levantamentos nacionais de março de 2026 apontam que 2,4% dos lares brasileiros já possuem usuários de medicamentos do tipo GLP-1, enquanto o nível de conhecimento sobre essas soluções atinge 76% da população, um salto consistente em relação aos 70% registrados em 2025. Recortes focados nas classes de maior poder aquisitivo evidenciam uma adoção em ritmo ainda mais expressivo.
Pesquisas realizadas entre julho e agosto de 2026 com consumidores das classes A e B revelam que 12,9% declararam ter alguém no domicílio em uso atual de GLP-1, além de 6,9% de ex-usuários e 9,5% que consideram iniciar o tratamento em breve. Para esse extrato social, o reconhecimento das chamadas canetas emagrecedoras chega ao patamar de 96,7%.
Tais indicadores, conforme avalia Couto, extrapolam a mera tendência médica e sinalizam uma alteração cultural na relação com a alimentação. O executivo pontua que "o GLP-1 pode ser um catalisador de uma transformação que já estava em curso", acelerando demandas por saudabilidade, proteínas e conveniência que antecedem a popularização massiva dos fármacos.
Reflexos diretos na composição do carrinho de compras já podem ser mensurados pelas análises recentes da companhia. Cerca de 55% dos pacientes relatam diminuição na ingestão geral de alimentos e bebidas. Segmentos específicos sofrem retração aguda, com os adeptos do tratamento gastando 15% a menos com massas, 15% a menos com farinha de trigo e 10% a menos com biscoitos recheados. Contudo, essa reorganização do estômago não decreta o fim do consumo voltado à indulgência e ao prazer. Metade desse público afirma que pretende manter ou até elevar a ingestão de chocolates, categoria na qual o desembolso dos usuários supera em 60% a média da população geral.
Para a indústria alimentícia, em especial o setor de lácteos, o cenário de redistribuição de volume e valor configura uma janela oportuna de margem. Leites, iogurtes, queijos e novas soluções proteicas ganham vantagem competitiva por agregarem densidade nutricional, praticidade e sabor em porções otimizadas. Historicamente, os dados evidenciam que a penetração de bebidas proteicas nos lares brasileiros já havia saltado de 5% em 2023 para 13% em 2025, simultaneamente ao desejo declarado de 46% dos consumidores de reduzir a ingestão de açúcar. Couto orienta os líderes corporativos a ajustarem o foco, destacando que a pergunta estratégica correta é "o que acontece com o mercado quando uma parcela relevante dos consumidores passa a comer menos e a escolher de maneira diferente?".
Dinâmicas internacionais validam as projeções do mercado interno e fornecem parâmetros concretos sobre a necessidade de readequação de formatos. No Reino Unido, a presença do GLP-1 nos domicílios avançou de 2,3% em 2024 para 6,3% em 2026, resultando em 40% de usuários manifestando o desejo de encontrar porções menores em restaurantes e supermercados. O comportamento rotineiro do brasileiro também reflete um fracionamento das compras, evidenciado pelo aumento de 12,8% nas visitas aos pontos de venda ao longo de 2026, acompanhado pela queda significativa de 10,4% no volume de itens adquiridos a cada viagem. Setores ligados ao autocuidado e desempenho físico registram ganhos notáveis nesse ínterim, exemplificados pelo gasto 68% maior com bebidas esportivas entre as pessoas medicadas.
Estratégias puramente baseadas na criação de um portfólio restrito de mercadorias exclusivas para os usuários de GLP-1 devem ser contornadas, abrindo espaço para inovações focadas em densidade nutricional e premiumização que contemplem todos os perfis. Alterações nos hábitos alimentares de um único integrante frequentemente reconfiguram a cesta básica de toda a família.
Dessa forma, as indústrias precisam antever quais desses novos comportamentos se fixarão de modo permanente na sociedade, mesmo entre aqueles que jamais utilizarão qualquer injeção. Organizações focadas exclusivamente em projetar volumes imediatos de vendas poderão reagir tarde demais, enquanto aquelas atentas à entrega de valor e funcionalidade em cada ocasião de consumo transformarão o apetite restrito na sua principal alavanca de diferenciação.
David Fiss e Rafael Couto serão palestrantes no Dairy Vision e discutirão as próximas tendências de mercado que irão definir o futuro dos lácteos. Você já garantiu o seu ingresso?
De 27 a 28 de outubro no Bourbon Resort em Atibaia/SP, o Dairy Vision contará com a presença de mais de 500 executivos do setor e palestras sobre inovação, tendências e o Fórum MilkPoint Mercado.