Uma cultura cooperativa com mais de 140 anos
O cooperativismo não é uma escolha recente da cadeia leiteira dinamarquesa — é parte da sua história. Em 1882, agricultores da região de Ølgod, na Jutlândia (região oeste da Dinamarca), fundaram a Hjedding Cooperative Dairy, a primeira cooperativa leiteira do país. A ideia era simples: reunir esforços para investir em infraestrutura de processamento, melhorar a qualidade do leite e dividir os resultados igualmente entre os produtores.
O modelo provou ser extremamente atrativo. Em menos de uma década, já havia centenas de cooperativas leiteiras espalhadas por todo o país. Essa expansão não foi apenas econômica — foi cultural. O cooperativismo tornou-se parte da sociedade rural dinamarquesa, moldando a forma como os produtores se relacionam com o mercado até hoje.
Ao longo do século XX, as cooperativas foram se fundindo e ganhando escala. Em 2000, a maior cooperativa dinamarquesa, a MD Foods, se fundiu com sua contraparte sueca para dar origem à Arla Foods.
A primeira cooperativa leiteira da Dinamarca, em Hjedding. (Fonte: www.visitdenmark.com)
Como o modelo cooperativo funciona na prática
Na Arla, os produtores são donos do negócio. Cada associado é simultaneamente proprietário e entregador de leite, os resultados da cooperativa são distribuídos proporcionalmente ao volume entregue por cada produtor, e não há acionistas externos.
A governança é democrática: cada produtor tem direito a um voto na escolha dos representantes, que por sua vez compõem o conselho responsável por definir o modelo de precificação do leite e outros temas. Isso significa que o preço pago ao produtor não é uma decisão unilateral da indústria — é resultado de um processo deliberativo em que os próprios produtores participam.
Parte dos lucros anuais é reinvestida na empresa pelos próprios associados, garantindo o desenvolvimento contínuo do negócio e a competitividade de longo prazo da cooperativa — e das fazendas que a compõem.
A Arla hoje: escala e consolidação
Hoje, a Arla Foods é uma das maiores cooperativas leiteiras do mundo, com receita de €15,1 bilhões em 2025 — o maior resultado de sua história. O grupo opera em diversos países europeus, reunindo aproximadamente 8.000 produtores associados.
Na Dinamarca, a Arla detém cerca de 82% do market share do setor, captando e processando a maior parte do leite produzido no país. Cerca de 90% do leite dinamarquês é processado por cooperativas, o que confere ao setor uma coesão difícil de encontrar em outros mercados.
Um dos pilares da estratégia da Arla é a produção de itens de maior valor agregado — queijos, ingredientes lácteos, produtos orgânicos — buscando um portfólio que equilibre escala e rentabilidade. Essa orientação contribui para sustentar preços mais estáveis e margens mais saudáveis ao longo da cadeia.
E o movimento de consolidação não para. Em junho de 2026, a Arla concluiu a fusão com a DMK Group, maior cooperativa leiteira da Alemanha — criando a maior cooperativa leiteira da Europa. A entidade combinada reúne aproximadamente 11.200 produtores em sete países, com receita anual superior a €20 bilhões e um pool de leite de 19,4 bilhões de quilogramas. Mais do que uma operação de escala, a fusão é uma resposta estratégica às pressões crescentes de sustentabilidade, segurança alimentar e volatilidade de mercado que o setor leiteiro europeu enfrenta.
Os números da cadeia
Esse modelo altamente consolidado, aliado à forte orientação exportadora, resulta em maior estabilidade no mercado. Em 2025, o preço médio pago ao produtor na Dinamarca foi de aproximadamente 405 DKK por 100 kg de leite corrigido para sólidos, equivalente a cerca de R$ 3,20 por litro*, valor alinhado à média da Europa Ocidental e cerca de 20% superior à média global no mesmo período. *Câmbio utilizado: 1 DKK = R$ 0,79
Os indicadores econômicos demonstram a solidez do sistema. A margem sobre a ração foi estimada em aproximadamente R$ 2,68 por litro, indicando boa rentabilidade. Quando considerados outros custos relevantes, como energia e fertilizantes, a margem permanece elevada, em torno de R$ 2,30 por litro.
Conhecimento aplicado: o papel do SEGES Innovation
Além da estrutura cooperativa, outro elemento relevante do sistema dinamarquês é a forma como o conhecimento técnico chega às fazendas. O SEGES Innovation atua como um elo entre pesquisa, desenvolvimento e aplicação prática no campo, trabalhando em temas como nutrição, saúde animal, bem-estar, qualidade do leite, gestão e sustentabilidade.
A organização desempenha um papel central na difusão de conhecimento por meio de consultorias, cursos, eventos técnicos e plataformas como o LandbrugsInfo, promovendo atualização contínua dos produtores e padronização de boas práticas em nível nacional.
Esse modelo integrado permite que novas tecnologias, práticas de manejo e estratégias nutricionais sejam rapidamente testadas, validadas e disseminadas. Um aspecto central desse processo é a proximidade com universidades e centros de pesquisa, o que permite ao SEGES atuar como um tradutor entre a ciência e o campo — transformando evidências em recomendações práticas, acessíveis ao produtor do dia a dia.
O resultado é uma redução significativa no tempo entre inovação e adoção, algo que impacta diretamente os indicadores de eficiência observados no país.
Fatores de sucesso e desafios
O que sustenta o modelo
• Cooperativismo enraizado;
• Orientação para produtos de maior valor agregado e exportação;
• Integração entre pesquisa aplicada e campo;
• Estabilidade de preços sustentada pela estrutura cooperativa.
Os desafios pela frente
• Pressão ambiental crescente e regulação cada vez mais rigorosa;
• Custos elevados de produção;
• Renovação geracional e falta de mão de obra.
Considerações finais
A cadeia leiteira dinamarquesa demonstra que eficiência produtiva e organização de mercado se reforçam mutuamente. Não basta ter fazendas bem geridas se a indústria que as cerca não potencializa essa eficiência. O cooperativismo, mais do que um modelo econômico, trata-se de uma cultura construída ao longo de mais de um século — e que continua evoluindo. A própria forma como a Arla está integrando metas de sustentabilidade ao preço pago ao produtor mostra que o modelo tem capacidade de se adaptar às novas exigências do mercado global.
É exatamente essa agenda — sustentabilidade, regulação ambiental e os desafios que a Dinamarca enfrenta para manter sua competitividade — que vamos explorar no próximo artigo. Fique de olho!
Fontes consultadas
IFCN Dairy Platform Statistics 2024, Danish Dairy Board. https://danishdairyboard.dk/media/kjinkuw4/mejeristatistik-2024.pdf
SEGES Innovation. https://segesinnovation.com/
Tal om kvaeg, Landbrugsinfo, SEGES. https://talomkvaeg.landbrugsinfo.dk/
Arla Foods — Cooperative structure. https://www.arla.com/company/farmer-owned/
Arla Foods — History. https://www.arla.com/company/farmer-owned/history/