Grandes projetos leiteiros começam muito antes da primeira vaca, diz Greg Bethard

Para Greg, grandes projetos de produção de leite não são construídos apenas com investimentos ou tamanho de rebanho. Eles nascem de planejamento, gestão de riscos, visão de longo prazo e atenção constante aos detalhes que sustentam a operação.

Publicado em: - 4 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 2

Sem tempo? Leia o resumo gerado pela MilkIA
Durante o No Milk Pro Summit, Greg Bethard, CEO da High Plains Ponderosa Dairy, discutiu a estruturação de grandes projetos de produção de leite. Ele enfatizou a importância da gestão de riscos, escolha da localização e análise ambiental antes de expandir. Greg destacou que o crescimento deve reduzir custos operacionais e requer planejamento a longo prazo. A conexão entre fluxo de animais, alimentação e mercado é crucial, assim como a infraestrutura e atração de talentos. Ele também recomendou aprender com outras fazendas e a presença constante do líder na operação.
No Milk Pro Summit, realizado nos dias 28 e 29 de maio em Atibaia/SP, o produtor e CEO da High Plains Ponderosa Dairy, Greg Bethard, voltou ao palco para compartilhar uma das experiências mais emblemáticas da produção leiteira em larga escala dos Estados Unidos.

Greg Bethard

Na palestra "Como estruturar grandes projetos de produção de leite", o especialista apresentou os principais pilares que sustentaram o crescimento da sua própria fazenda leiteira localizada no Kansas, que ao longo das últimas duas décadas expandiu sua escala, diversificou atividades e passou a integrar também a produção de biogás em parceria com a Shell.

Mas, antes de falar sobre números, expansão ou tamanho de rebanho, Greg deixou uma mensagem clara: grandes projetos começam pela gestão dos riscos. "Não existe fazenda perfeita em lugar algum", afirmou.

Segundo ele, a escolha da localização continua sendo uma das decisões mais importantes para qualquer projeto leiteiro. Entre os fatores que merecem atenção estão disponibilidade de água, acesso à mão de obra, infraestrutura energética, logística e questões ambientais.

Reduzir riscos antes de crescer

Ao abordar o planejamento de novas unidades ou expansões, Greg destacou que a análise ambiental deve ser uma das primeiras preocupações dos produtores.

A gestão dos dejetos, por exemplo, influencia diretamente a viabilidade operacional do negócio. Solos com maior teor de argila facilitam a construção de lagoas de armazenamento, enquanto áreas arenosas podem exigir investimentos adicionais. Além disso, o transporte de esterco representa um dos maiores custos logísticos das fazendas leiteiras. 

Continua depois da publicidade

Outro aspecto considerado crítico é a proximidade da produção de alimentos para o rebanho. Segundo Greg, transportar forragem por longas distâncias compromete a eficiência econômica da operação. Por isso, ele reforçou a importância de construir relacionamentos sólidos com agricultores parceiros e garantir segurança na produção dos alimentos necessários para sustentar o crescimento do rebanho. "Um dos meus melhores relacionamentos é com quem produz a alimentação das nossas vacas."

Crescer para quê?

Ao mostrar a trajetória da High Plains Ponderosa Dairy desde 2001, Greg provocou os participantes com uma pergunta simples: qual é o verdadeiro motivo para crescer? Para ele, a resposta não está apenas em produzir mais leite. "O principal motivo para crescer é reduzir o custo do ponto de equilíbrio."

Segundo o produtor, a expansão sem ganhos de eficiência pode colocar em risco a sustentabilidade financeira da fazenda. Se a produção aumenta, mas os custos fixos e operacionais crescem na mesma proporção, o benefício econômico desaparece. Greg também compartilhou sua visão sobre a escala na atividade leiteira. "Na minha experiência, quanto mais vacas compradas, menor o meu custo." Ainda assim, reforçou que tamanho, sozinho, não resolve problemas. O crescimento precisa ser acompanhado por planejamento, estrutura e gestão.

Pensar grande exige planejamento de longo prazo

Uma das mensagens mais fortes da apresentação foi o alerta sobre o tempo necessário para transformar um projeto em realidade. Segundo Greg, uma expansão significativa pode exigir até três anos entre o planejamento, a construção das estruturas e a entrada efetiva das novas vacas em produção. "Leva tempo para montar uma estrutura com escala."

Por isso, ele incentivou os produtores de leite a desenvolverem uma visão de longo prazo. "Pensar grande. Ser ousado. Pedir que outras pessoas avaliem seus projetos com diferentes olhares." Para ele, buscar opiniões externas ajuda a ampliar perspectivas e evitar erros que muitas vezes passam despercebidos dentro da própria operação.

Continua depois da publicidade

Esse planejamento também passa pela organização financeira. Expansões exigem capital, relacionamento com bancos, investidores ou sócios, além de projeções detalhadas sobre custos e receitas futuras. "Não dá mais para ser surpreendido."

Fluxo de animais, alimentação e mercado precisam estar conectados

Ao falar sobre expansão, Greg reforçou que cada etapa do sistema precisa ser pensada de forma integrada. A disponibilidade de ração deve acompanhar o crescimento do rebanho. O fluxo de entrada de animais precisa ser cuidadosamente planejado. E até mesmo o destino dos animais descartados deve ser considerado dentro do modelo de negócio. Segundo ele, muitos projetos falham não pela falta de ambição, mas porque deixam de antecipar gargalos que surgem conforme a escala aumenta.

Energia, mão de obra e sucessão de talentos

Outro tema abordado foi a importância da infraestrutura para garantir estabilidade operacional. Com eventos climáticos cada vez mais frequentes, Greg destacou a necessidade de prever falhas no fornecimento de energia e manter sistemas de contingência, como geradores.

A preocupação vai além da continuidade da produção. Em períodos de calor intenso, interrupções elétricas podem comprometer sistemas de ventilação e resfriamento, aumentando significativamente o estresse térmico das vacas.

A atração e retenção de talentos também apareceu como um desafio estratégico para grandes projetos. Segundo Greg, as melhores pessoas procuram empresas sólidas, organizadas e capazes de oferecer oportunidades reais de desenvolvimento profissional. "Para atrair talentos, é preciso construir uma grande empresa."

Aprender com quem já faz

Ao encerrar sua apresentação, Greg compartilhou um conselho que ajudou a moldar sua própria trajetória profissional. "Viaje. Conheça outras fazendas. Veja o que os outros estão fazendo."

Para ele, poucas experiências geram tanto aprendizado quanto observar diferentes sistemas de produção funcionando na prática.

A recomendação dialoga diretamente com sua própria história. Antes de se tornar produtor e sócio-administrador da High Plains Ponderosa Dairy, Greg atuou como professor universitário, consultor e executivo em diferentes áreas da cadeia leiteira, acumulando experiências que posteriormente ajudaram a estruturar uma das operações mais inovadoras dos Estados Unidos.

Ao final, deixou uma mensagem que resume sua visão sobre gestão e crescimento: por mais tecnologia, estrutura e indicadores que existam, a presença do líder continua sendo insubstituível. "Você precisa estar na fazenda todos os dias."

Para Greg, grandes projetos de produção de leite não são construídos apenas com investimentos ou tamanho de rebanho. Eles nascem de planejamento, gestão de riscos, visão de longo prazo e atenção constante aos detalhes que sustentam a operação.

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 2

Material escrito por:

Raquel Maria Cury Rodrigues

Raquel Maria Cury Rodrigues

Head do MilkPoint e Zootecnista pela UNESP de Botucatu

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?