Processamento de alta pressão em leite e derivados

Saiba como o processamento por alta pressão garante qualidade, eficiência e inovação em leite e derivados, com benefícios sensoriais e nutricionais.

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O mercado leiteiro está se adaptando a tecnologias emergentes, como a alta pressão hidrostática (HPP), que melhora a conservação e as características sensoriais dos produtos lácteos sem comprometer a qualidade nutricional. A HPP atua por meio da aplicação uniforme de pressão em alimentos embalados, resultando em melhorias na textura, viscosidade e aceitação do consumidor. Apesar de suas vantagens, como menor uso de aditivos e redução de gastos energéticos, enfrenta desafios de custo e aceitação. A tendência é que a HPP se torne mais comum na produção de laticínios, atendendo à demanda por produtos saudáveis.

A alta competitividade e a versatilidade do mercado leiteiro tornam esse setor um dos mais alinhados aos processos de inovação. Nesse contexto, o interesse por tecnologias emergentes tem crescido na indústria láctea, especialmente processos não térmicos, que possibilitam melhorias sensoriais sem comprometer a qualidade nutricional dos produtos. A tecnologia de alta pressão, também conhecida como alta pressão hidrostática ou isostática, do inglês High Pressure Processing (HPP), é um exemplo promissor. Sua aplicação em leite e derivados vem apresentando resultados consistentes tanto para conservação quanto para a melhoria de atributos funcionais e sensoriais.

 

O que é a HPP?

A técnica se baseia na aplicação controlada e uniforme de alta pressão por todo o alimento. O produto já embalado é colocado dentro de uma câmara de pressão, que é preenchida com um meio líquido (geralmente água). Esse meio transmite a pressão de forma uniforme até que todo o ar seja removido.

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Para que o processo seja eficiente, é necessário que o alimento esteja acondicionado em embalagens resistentes e flexíveis, capazes de suportar a deformação causada pela pressão (Souza et al., 2022). Durante o tratamento, a pressão altera componentes estruturais dos alimentos, como proteínas e lipídios, mas com mínimo impacto térmico.

 

Principais aplicações em leite e derivados

A indústria de alimentos tem buscado atender a um consumidor cada vez mais exigente: interessado em produtos mais saudáveis, frescos, livres de aditivos e seguros microbiologicamente. Nesse cenário, a HPP tem se mostrado um método capaz de contribuir para a melhoria das características dos produtos lácteos, reduzindo a necessidade de aditivos e evitando processos térmicos intensos.

Alguns efeitos observados diferenciam a alta pressão do aquecimento convencional, como (Morais et al., 2014):

  • níveis distintos de desnaturação das proteínas do soro;

  • desintegração ou desfragmentação das micelas de caseína;

  • maior dispersão dos glóbulos de gordura.

Essas modificações estruturais têm impacto direto nas propriedades tecnológicas dos derivados lácteos. A Tabela 1 resume algumas aplicações da HPP em diferentes produtos.

Tabela 1. Principais aplicações da HPP em leite e derivados

Conservação

A pressão sozinha não substitui completamente o aquecimento, já que Bacillus spp. e outros microrganismos formadores de esporos não podem ser inativados apenas pela HPP. Por isso, muitas vezes são utilizados processos combinados entre pressão e calor para garantir a segurança microbiológica.

Aumento no grau de firmeza e viscosidade

Em iogurtes, a aplicação de HPP melhora a textura e reduz a necessidade de aditivos.

Impacto no valor nutricional

O valor nutricional pode ser preservado ou até potencializado, por exemplo, com a promoção da biossíntese de ácido γ-aminobutírico (GABA) e retenção de componentes bioativos derivados das imunoglobulinas lácteas.

Melhoria das características sensoriais

A muçarela pode apresentar aumento de fluidez, enquanto cheddar e queijos frescos se tornam mais firmes e menos quebradiços.

Impacto na aceitação pelo consumidor

Em iogurtes, o tratamento por HPP pode aumentar a viscosidade e reduzir a granulação, resultando em produtos mais homogêneos e agradáveis.

Fonte: (Souza et al., 2022).

 

Quais são as principais vantagens e limitações?

A tecnologia de HPP apresenta vantagens relevantes, entre elas:

  • uniformidade de aplicação, já que a pressão é transmitida de forma isostática;

  • mínimo impacto térmico, preservando características nutricionais;

  • melhoria sensorial, principalmente em textura e cremosidade;

  • redução no uso de aditivos;

  • menor demanda energética em comparação com alguns processamentos térmicos convencionais;

  • processamento de produtos já embalados, eliminando riscos de recontaminação.

Além disso, Pereira e Vicente (2010) destacam que a HPP, também chamada de “pasteurização a frio”, tem se consolidado especialmente em alimentos de maior acidez, com ganhos tanto para o consumidor quanto para o meio ambiente.

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Apesar dessas vantagens, existem limitações. O termo “pressurizado” ainda gera certa desconfiança no consumidor, por ser pouco conhecido (Barba et al., 2012). Isso leva muitas empresas a optarem por denominações mais atrativas, como fresh ou “pasteurizado a frio”. Outro ponto crítico está nos altos custos de equipamentos e manutenção, além de desafios de escalabilidade industrial (Gonçalves, 2020).

 

Desafios e perspectivas futuras 

Nos últimos anos, o processamento por HPP em alimentos evoluiu significativamente, mas o custo ainda é elevado. A perspectiva, contudo, é de que o avanço tecnológico reduza essas barreiras, permitindo a oferta de mais produtos processados por alta pressão.

É importante destacar que a tecnologia foi desenvolvida inicialmente com foco na conservação de alimentos, e por isso os efeitos microbiológicos foram amplamente estudados. No entanto, há um campo em expansão voltado ao estudo das melhorias sensoriais e funcionais em lácteos (Huang & Wang, 2020).

Vale lembrar que os efeitos da HPP não podem ser generalizados: cada alimento possui composição específica, e a resposta à pressão depende de suas características químicas e estruturais. Por isso, pesquisas direcionadas a diferentes produtos lácteos são fundamentais para otimizar os parâmetros de aplicação.

 

Considerações finais 

As tecnologias convencionais de processamento, baseadas em calor, cumprem papel essencial na indústria, mas apresentam desafios em relação a estabilidade de micronutrientes, alterações sensoriais e maior gasto energético.

A alta pressão, por sua vez, se mostra uma alternativa promissora, garantindo segurança microbiológica, preservação nutricional, impactos sensoriais positivos e eficiência energética. Para a indústria láctea, trata-se de uma ferramenta estratégica, capaz de agregar valor e atender ao perfil de consumo atual, cada vez mais voltado para produtos naturais, frescos e saudáveis.

Com o amadurecimento da tecnologia e a redução dos custos de implantação, a tendência é que a HPP ocupe espaço crescente na produção de leite e derivados, fortalecendo a posição do setor lácteo no cenário da inovação alimentar.

Agradecimentos:

Os autores agradecem a CAPES (Código Financiamento 001), Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), FINEP (APQ-00388-21; APQ-00785-23; APQ- 06600-24, RED-00157-23).

Referências bibliográficas

BARBA, F. J.; ROJAS, E.; PÉREZ-MARÍN, D. et al. High pressure treatment effect on physicochemical and nutritional properties of fluid foods during storage: a review. Comprehensive Reviews in Food Science and Food Safety, v. 11, n. 3, p. 307–322, 2012.

GONÇALVES, Sheyla Moreira. Conservação de Queijo Coalho por Combinação de Alta Pressão Hidrostática e Embalagem Ativa Antimicrobiana. 2020. 109 f. Tese (Doutorado em Ciência e Tecnologia de Alimentos) – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, RJ.

HUANG, H.W.; HSU, C.P.; WANG, C.Y. Healthy expectations of high hydrostatic pressure treatment in food processing industry. Journal of Food and Drug Analisys, v.28, n.1, p. 1-13, 2020.

MORAIS, A. C. N. et al. Aplicação de alta pressão isostática na produção de derivados lácteos: Uma Revisão. Revista do Instituto de Laticínios Cândido Tostes, Juiz de Fora, v. 69, n. 5, p. 357-374, 2014.

PEREIRA, R. N.; VICENTE, A. A. Environmental impact of novel thermal and non-thermal technologies in food processing. Food Research International, v. 43, n. 7, p. 1936–1944, 2010.

SOUZA, Gabriel da Silva et al. USO DA ALTA PRESSÃO HIDROSTÁTICA EM LEITE E DERIVADOS LÁCTEOS. Alimentos: Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, v. 3, n. 2, p. 1-12, 2022.

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Material escrito por:

Isabela Soares Magalhães

Isabela Soares Magalhães

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José Felix de Jesus Gonçalves

José Felix de Jesus Gonçalves

Graduando em Agroindústria pela Universidade Federal de Sergipe e membro Laboratório de Inovação no Processamento de Alimentos- LIPA/DTA/UFV

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Laboratório de Inovação no Processamento de Alimentos - LIPA/DTA/UFV

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