A qualidade do leite começa na fazenda, e o uso inadequado de antibióticos pode comprometer não apenas a segurança alimentar, mas também a rentabilidade da indústria láctea. Os agentes antimicrobianos são amplamente utilizados na pecuária leiteira para o tratamento de enfermidades bacterianas, como mastite e laminite. No entanto, seu uso prolongado, incorreto ou sem respeito aos períodos de carência pode resultar na presença de resíduos de antibióticos no leite cru e derivados, representando risco à saúde pública ao provocar reações alérgicas, alterar a microbiota intestinal e favorecer o surgimento de cepas resistentes (Wu et al., 2019).
O uso excessivo de antibióticos no campo, aliado à falta de orientação sobre dosagens corretas e ao descumprimento dos períodos de carência, ainda é uma das principais causas da presença de resíduos químicos no leite. Esse problema vai muito além da fazenda: representa um risco à saúde pública, afeta a qualidade dos produtos fermentados e ameaça a sustentabilidade da indústria láctea. Entre os prejuízos mais imediatos está a inibição das bactérias ácido-láticas (BAL), essenciais na fermentação dos produtos lácteos. A atividade metabólica das BAL é determinante para o desenvolvimento de características sensoriais desejáveis, como sabor, aroma e textura, e pode ser diretamente afetada pela presença de resíduos antimicrobianos (Floris et al., 2025).
Mesmo em níveis residuais, os antibióticos interferem na atividade metabólica das BAL, reduzindo a taxa de acidificação e alterando o perfil sensorial dos produtos. A inibição parcial ou total das culturas leva à formação irregular do gel, impactando o rendimento e a textura de queijos e iogurtes. Por isso, o monitoramento rigoroso do uso de antimicrobianos permanece essencial. Autoridades sanitárias adotam normas como os Limites Máximos de Resíduos (LMR) e diretrizes da Comissão do Codex Alimentarius, que estabelecem períodos de carência e boas práticas de manejo e comercialização do leite (Costa et al., 2024).
Para prevenir problemas na fermentação, muitos laticínios e propriedades rurais utilizam o teste de lactofermentação como método de triagem do leite cru. Rápido e simples, ele permite verificar se há resíduos que inibem o crescimento das BAL antes que o leite siga para o processamento. Quando aliado ao cumprimento rigoroso dos períodos de carência, ao registro de tratamentos veterinários e à capacitação dos produtores, o teste se torna uma ferramenta prática e eficiente para garantir a qualidade tecnológica do leite e a consistência dos produtos fermentados.
O teste de lactofermentação baseia-se na formação de coágulos, que indicam o tipo de bactérias presentes e, indiretamente, as condições de higiene na fonte de produção. O procedimento é simples: adiciona-se 10 mL de leite em um tubo de ensaio, que é fechado e incubado a 37 °C por 24 horas. Em seguida, observa-se o tipo de coágulo formado, conforme ilustrado na Figura 1.
Figura 1. Teste de lactofermentação – Avaliação do gel formado.
Fonte: Os autores.
A interpretação do coágulo permite decisões rápidas e eficazes para a produção. Coágulos digeridos, floculosos, caseosos ou sulcados refletem predominância de microrganismos proteolíticos, cuja atividade degrada proteínas do leite, especialmente a caseína. Coágulos com presença de bolhas ou aspecto esponjoso refletem a ação de coliformes produtores de gás, que fermentam a lactose com liberação de CO2, comprometendo a textura e a qualidade dos derivados. Já coágulos homogêneos ou gelatinosos indicam dominância de BAL, associada à acidificação adequada do leite cru e à boa aptidão tecnológica para processamento lácteo. Por fim, a ausência de coágulo evidencia a presença de resíduos antimicrobianos, como sanitizantes residuais ou antibióticos, que inibem a fermentação natural.
A interpretação do coágulo permite classificar o leite e tomar decisões rápidas conforme ilustrado na Tabela 1.
Tabela 1. Interpretação do teste de lactofermentação baseado no tipo de gel formado.
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Tipo de coágulo |
Características |
Interpretação |
|---|---|---|
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Gelatinoso |
Uniforme, gelatinoso e sem soro |
Leite livre de inibidores; fermentação normal |
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Caseoso |
Início da contração com pouco soro, coágulo em bastonete, soro esverdeado |
Presença parcial de resíduos; fermentação atrasada |
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Floculoso |
Grãos ou flocos, soro leitoso ou amarelado |
Presença de inibidores em baixa concentração; fermentação irregular |
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Sulcado |
Pouca ou muita formação de gases; bolhas no coágulo |
Inibição significativa das culturas; fermentação falha |
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Esponjoso / gás |
Coágulo com bolhas ou aspecto esponjoso |
Ação de coliformes produtores de gás; fermentação alterada; comprometimento da textura. |
Fonte: Pinto; Martins; Vanetti, 2006
A presença de resíduos antimicrobianos no leite tem efeitos diretos sobre a qualidade e a consistência dos derivados lácteos fermentados. Quando as bactérias lácticas dos fermentos são inibidas, o processo de acidificação fica mais lento ou pode não ocorrer, resultando em produtos com textura irregular, formação inadequada do gel e menor retenção de soro. Em iogurtes, isso se traduz em massas líquidas ou grumosas, já em queijos, pode gerar coagulação incompleta, textura quebradiça e menor rendimento.
Além dos impactos tecnológicos, esses problemas acarretam prejuízos econômicos significativos. Lotes comprometidos podem precisar ser descartados, retrabalhados ou sofrer atrasos na produção, aumentando os custos de processamento e reduzindo a produtividade. Mais ainda, produtos com defeitos sensoriais afetam a confiança do consumidor e a reputação da marca, tornando o controle rigoroso de resíduos antimicrobianos uma etapa crítica para a indústria de laticínios.
Considerações finais
O uso de antibióticos, mesmo em concentrações baixas, interfere profundamente na fermentação e na qualidade dos produtos lácteos, atrasando ou bloqueando a acidificação do leite. Garantir o cumprimento dos períodos de carência e adotar testes de triagem, como a lactofermentação, são práticas fundamentais para proteger a saúde do consumidor e assegurar a sustentabilidade da cadeia leiteira.
Agradecimentos
Os autores agradecem a CAPES (Código Financiamento 001), Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) (APQ-00388-21; APQ-00785-23; APQ- 06600-24, RED-00157-23), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e FINEP (FINEP-01.23.0632.00).
Referências bibliográficas
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Floris, I., Battistini, R., Tramuta, C., Aitor Garcia-Vozmediano, Musolino, N., Scardino, G., Masotti, C., Brusa, B., Riccardo Orusa, Serracca, L., Elisabetta Razzuoli, Martucci, F. and Bianchi, D.M. (2025). Antibiotic Resistance in Lactic Acid Bacteria from Dairy Products in Northern Italy. Antibiotics, [online] 14(4), pp.375–375. doi:https://doi.org/10.3390/antibiotics14040375.
Pinto, C.L. de O., Martins, M.L. and Vanetti, M.C.D. (2006). Qualidade microbiológica de leite cru refrigerado e isolamento de bactérias psicrotróficas proteolíticas. Ciência e Tecnologia de Alimentos, [online] 26(3), pp.645–651. doi:https://doi.org/10.1590/s0101-20612006000300025.
Wu, Q., Zhu, Q., Liu, Y., Muhammad, Sattar, A., Peng, D., Tao, Y., Chen, D., Wang, Y. and Yuan, Z. (2019). A microbiological inhibition method for the rapid, broad-spectrum, and high-throughput screening of 34 antibiotic residues in milk. Journal of Dairy Science, [online] 102(12), pp.10825–10837. doi:https://doi.org/10.3168/jds.2019-16480.