Por que seu leite não fermenta como deveria? Teste de lactofermentação pode te ajudar!

Entenda como o teste de lactofermentação auxilia na detecção de resíduos antimicrobianos, garantindo leite seguro e produtos de qualidade superior.

Publicado por: vários autores

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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O uso inadequado de antibióticos na pecuária leiteira compromete a segurança alimentar e a rentabilidade da indústria. Resíduos de antibióticos no leite afetam a saúde pública e a qualidade dos produtos lácteos, inibindo bactérias essenciais à fermentação. O teste de lactofermentação é uma ferramenta prática para detectar esses resíduos, garantindo a qualidade do leite. A presença de antibióticos resulta em produtos com textura irregular e prejuízos econômicos significativos. O cumprimento rigoroso dos períodos de carência é crucial para a sustentabilidade da cadeia leiteira.

A qualidade do leite começa na fazenda, e o uso inadequado de antibióticos pode comprometer não apenas a segurança alimentar, mas também a rentabilidade da indústria láctea. Os agentes antimicrobianos são amplamente utilizados na pecuária leiteira para o tratamento de enfermidades bacterianas, como mastite e laminite. No entanto, seu uso prolongado, incorreto ou sem respeito aos períodos de carência pode resultar na presença de resíduos de antibióticos no leite cru e derivados, representando risco à saúde pública ao provocar reações alérgicas, alterar a microbiota intestinal e favorecer o surgimento de cepas resistentes (Wu et al., 2019).

O uso excessivo de antibióticos no campo, aliado à falta de orientação sobre dosagens corretas e ao descumprimento dos períodos de carência, ainda é uma das principais causas da presença de resíduos químicos no leite. Esse problema vai muito além da fazenda: representa um risco à saúde pública, afeta a qualidade dos produtos fermentados e ameaça a sustentabilidade da indústria láctea. Entre os prejuízos mais imediatos está a inibição das bactérias ácido-láticas (BAL), essenciais na fermentação dos produtos lácteos. A atividade metabólica das BAL é determinante para o desenvolvimento de características sensoriais desejáveis, como sabor, aroma e textura, e pode ser diretamente afetada pela presença de resíduos antimicrobianos (Floris et al., 2025). 

Mesmo em níveis residuais, os antibióticos interferem na atividade metabólica das BAL, reduzindo a taxa de acidificação e alterando o perfil sensorial dos produtos. A inibição parcial ou total das culturas leva à formação irregular do gel, impactando o rendimento e a textura de queijos e iogurtes. Por isso, o monitoramento rigoroso do uso de antimicrobianos permanece essencial. Autoridades sanitárias adotam normas como os Limites Máximos de Resíduos (LMR) e diretrizes da Comissão do Codex Alimentarius, que estabelecem períodos de carência e boas práticas de manejo e comercialização do leite (Costa et al., 2024).

Para prevenir problemas na fermentação, muitos laticínios e propriedades rurais utilizam o teste de lactofermentação como método de triagem do leite cru. Rápido e simples, ele permite verificar se há resíduos que inibem o crescimento das BAL antes que o leite siga para o processamento. Quando aliado ao cumprimento rigoroso dos períodos de carência, ao registro de tratamentos veterinários e à capacitação dos produtores, o teste se torna uma ferramenta prática e eficiente para garantir a qualidade tecnológica do leite e a consistência dos produtos fermentados.

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O teste de lactofermentação baseia-se na formação de coágulos, que indicam o tipo de bactérias presentes e, indiretamente, as condições de higiene na fonte de produção. O procedimento é simples: adiciona-se 10 mL de leite em um tubo de ensaio, que é fechado e incubado a 37 °C por 24 horas. Em seguida, observa-se o tipo de coágulo formado, conforme ilustrado na Figura 1.

Figura 1. Teste de lactofermentação – Avaliação do gel formado.

Figura 1

Fonte: Os autores.

A interpretação do coágulo permite decisões rápidas e eficazes para a produção. Coágulos digeridos, floculosos, caseosos ou sulcados refletem predominância de microrganismos proteolíticos, cuja atividade degrada proteínas do leite, especialmente a caseína. Coágulos com presença de bolhas ou aspecto esponjoso refletem a ação de coliformes produtores de gás, que fermentam a lactose com liberação de CO2, comprometendo a textura e a qualidade dos derivados. Já coágulos homogêneos ou gelatinosos indicam dominância de BAL, associada à acidificação adequada do leite cru e à boa aptidão tecnológica para processamento lácteo. Por fim, a ausência de coágulo evidencia a presença de resíduos antimicrobianos, como sanitizantes residuais ou antibióticos, que inibem a fermentação natural.

A interpretação do coágulo permite classificar o leite e tomar decisões rápidas conforme ilustrado na Tabela 1.

Tabela 1. Interpretação do teste de lactofermentação baseado no tipo de gel formado.

Tipo de coágulo

Características

Interpretação

Gelatinoso

Uniforme, gelatinoso e sem soro

Leite livre de inibidores; fermentação normal

Caseoso

Início da contração com pouco soro, coágulo em bastonete, soro esverdeado

Presença parcial de resíduos; fermentação atrasada

Floculoso

Grãos ou flocos, soro leitoso ou amarelado

Presença de inibidores em baixa concentração; fermentação irregular

Sulcado

Pouca ou muita formação de gases; bolhas no coágulo

Inibição significativa das culturas; fermentação falha

Esponjoso / gás

Coágulo com bolhas ou aspecto esponjoso

Ação de coliformes produtores de gás; fermentação alterada; comprometimento da textura.

Fonte: Pinto; Martins; Vanetti, 2006

A presença de resíduos antimicrobianos no leite tem efeitos diretos sobre a qualidade e a consistência dos derivados lácteos fermentados. Quando as bactérias lácticas dos fermentos são inibidas, o processo de acidificação fica mais lento ou pode não ocorrer, resultando em produtos com textura irregular, formação inadequada do gel e menor retenção de soro. Em iogurtes, isso se traduz em massas líquidas ou grumosas, já em queijos, pode gerar coagulação incompleta, textura quebradiça e menor rendimento. 

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Além dos impactos tecnológicos, esses problemas acarretam prejuízos econômicos significativos. Lotes comprometidos podem precisar ser descartados, retrabalhados ou sofrer atrasos na produção, aumentando os custos de processamento e reduzindo a produtividade. Mais ainda, produtos com defeitos sensoriais afetam a confiança do consumidor e a reputação da marca, tornando o controle rigoroso de resíduos antimicrobianos uma etapa crítica para a indústria de laticínios.

 

Considerações finais

O uso de antibióticos, mesmo em concentrações baixas, interfere profundamente na fermentação e na qualidade dos produtos lácteos, atrasando ou bloqueando a acidificação do leite. Garantir o cumprimento dos períodos de carência e adotar testes de triagem, como a lactofermentação, são práticas fundamentais para proteger a saúde do consumidor e assegurar a sustentabilidade da cadeia leiteira.

Agradecimentos

Os autores agradecem a CAPES (Código Financiamento 001), Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) (APQ-00388-21; APQ-00785-23; APQ- 06600-24, RED-00157-23), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e FINEP (FINEP-01.23.0632.00).

Referências bibliográficas

Costa, L.V., Gebara, C., Zacaroni, O. de F., Freitas, N.E., Silva, A.N. da, Prado, C.S., Nunes, I.A., Cavicchioli, V.Q., Duarte, F.O.S., Lage, M.E., Alencar, F.R. de, Machado, B.A.S., Hodel, K.V.S. and Minafra, C. (2024). Antibiotic Residues in Raw Cow’s Milk: A Systematic Review of the Last Decade. Foods, [online] 13(23), p.3758. doi:https://doi.org/10.3390/foods13233758.

Floris, I., Battistini, R., Tramuta, C., Aitor Garcia-Vozmediano, Musolino, N., Scardino, G., Masotti, C., Brusa, B., Riccardo Orusa, Serracca, L., Elisabetta Razzuoli, Martucci, F. and Bianchi, D.M. (2025). Antibiotic Resistance in Lactic Acid Bacteria from Dairy Products in Northern Italy. Antibiotics, [online] 14(4), pp.375–375. doi:https://doi.org/10.3390/antibiotics14040375.

Pinto, C.L. de O., Martins, M.L. and Vanetti, M.C.D. (2006). Qualidade microbiológica de leite cru refrigerado e isolamento de bactérias psicrotróficas proteolíticas. Ciência e Tecnologia de Alimentos, [online] 26(3), pp.645–651. doi:https://doi.org/10.1590/s0101-20612006000300025.

‌Wu, Q., Zhu, Q., Liu, Y., Muhammad, Sattar, A., Peng, D., Tao, Y., Chen, D., Wang, Y. and Yuan, Z. (2019). A microbiological inhibition method for the rapid, broad-spectrum, and high-throughput screening of 34 antibiotic residues in milk. Journal of Dairy Science, [online] 102(12), pp.10825–10837. doi:https://doi.org/10.3168/jds.2019-16480.

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Material escrito por:

Danielly Aparecida de Souza

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