O leite parece estar vivendo um novo momento no cenário global. Depois de anos sob o peso de controvérsias nutricionais e ambientais, o setor lácteo volta ao centro das discussões internacionais com uma imagem mais equilibrada, sustentada por ciência, inovação e propósito. Esse foi o tom predominante do World Dairy Summit (WDS), promovido pela International Dairy Federation (IDF), realizado entre 20 e 23 de outubro de 2025 sob o tema “Nourishing a sustainable world” (nutrindo um mundo sustentável).
O encontro reuniu líderes, pesquisadores e representantes do setor de laticínios de todo o mundo para discutir os desafios e oportunidades que moldarão o futuro do leite nos próximos anos. Entre os pontos mais debatidos, destacaram-se:
- o papel dos lácteos na alimentação saudável,
- o envelhecimento populacional,
- a preocupação com as doenças mentais,
- a sustentabilidade e o risco de escassez global de leite no futuro.
Um dos eixos centrais das discussões foi o reconhecimento de que o leite e seus derivados voltaram a conquistar o consumidor. Em muitos países, o consumo de leite fluido, especialmente na versão integral, vem crescendo depois de anos em declínio. Essa retomada em grande parte se deve ao Brasil. O Guia Alimentar para a População Brasileira elaborado em 2014, trouxe uma nova classificação dos alimentos, entre in natura ou minimamente processados, processados, ultraprocessados e preparações culinárias. A regra de ouro do guia é: “Prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados”.
Nesse sentido, o leite, o iogurte sem açúcar e a manteiga são os únicos derivados do leite recomendados. O leite e o iogurte sem adição de açúcar são classificados como minimamente processados e a manteiga classificada como preparação culinária. Já os queijos são considerados processados e todos os demais lácteos entram na categoria ultraprocessados.
Nos últimos anos, essa classificação, que no exterior é chamada de NOVA e até então era mais discutida no meio científico, agora caiu na graça dos consumidores. E isso tem impulsionado o consumo de leite fluido no mundo todo. Portanto, houve uma mudança de percepção: o leite, antes visto por alguns grupos como um produto a ser evitado, passou a ser associado à nutrição de qualidade, saciedade e naturalidade.
É importante ressaltar que este modelo de “comida saudável”, embora popular entre consumidores, não reflete a complexidade da ciência da nutrição. No caso dos lácteos, essa classificação tem gerado percepções equivocadas e desincentivado o consumo de produtos com alto valor nutricional. Assim, diversos especialistas defenderam, durante o evento, a importância de reforçar o conceito da “matriz láctea completa”, ou seja, o conjunto de nutrientes e compostos bioativos que atuam de forma única e sinérgica nos lácteos e não podem ser avaliados isoladamente.
Apesar da classificação NOVA não recomendar a maioria dos iogurtes disponíveis no mercado, a demanda desse produto segue um caminho de crescimento, impulsionado por fatores como o aumento da busca por proteínas e o interesse em produtos mais saudáveis. No entanto, o segmento também sofre influência dessa ideia de evitar o consumo de alimentos ultraprocessados. Essa dualidade reforça a necessidade de comunicação clara sobre os benefícios nutricionais do iogurte e seu posicionamento frente à concorrência de snacks industrializados.
Em contraste, o consumo de queijos não apresenta a mesma performance de anos anteriores, sendo impactado pelo aumento do custo de vida e pelo estresse econômico em várias regiões do mundo. O setor precisa avaliar estratégias de precificação e inovação para manter o interesse dos consumidores, especialmente em mercados mais sensíveis ao preço. Ele também pode estar sofrendo impacto dessa nova classificação de alimentos saudáveis.
A manteiga, por outro lado, apresenta tendências divergentes. Enquanto em alguns mercados a busca por gorduras integrais e produtos mais naturais favorece seu consumo, em outros ainda há resistência alimentada por crenças antigas e pela desinformação sobre o papel das gorduras na dieta. Essa percepção, muitas vezes baseada em estudos ultrapassados ou em fake news, mantém parte dos consumidores distante do produto. O momento, porém, é favorável para reposicionar a manteiga, comunicando com base científica seu valor culinário e nutricional dentro de uma alimentação equilibrada.
O sorvete tem se consolidado mais como um snack do que como um produto lácteo tradicional, e com isso, apresenta uma tendência gradual de queda. Esse reposicionamento implica em repensar a comunicação e a inovação, explorando formatos, combinações e experiências de consumo que possam valorizar o caráter lácteo do produto.
As análises apresentadas pela IDF também mostraram um mundo em rápida transformação demográfica. O planeta está envelhecendo em ritmo sem precedentes: até 2030, uma em cada seis pessoas terá mais de 60 anos, e até 2050 esse contingente deve dobrar, ultrapassando dois bilhões de pessoas. Esse fenômeno traz desafios diretos para os sistemas de saúde, mas também abre oportunidades para o setor lácteo. Evidências científicas robustas indicam que o consumo regular de leite e derivados é fundamental para preservar massa muscular, saúde óssea e função cognitiva. Ou seja, os lácteos podem ser aliados estratégicos para o envelhecimento saudável e a prevenção de doenças crônicas não transmissíveis.
Ao mesmo tempo, o tema da saúde mental vem ganhando destaque como uma das maiores preocupações globais. Dados apresentados durante o evento mostram que 81% das pessoas acreditam precisar cuidar mais da própria saúde mental, e a alimentação equilibrada tem um papel cada vez mais reconhecido nesse processo. O leite, rico em triptofano, vitaminas do complexo B e minerais como o magnésio, foi apontado como um alimento com potencial para contribuir com o bem-estar emocional e a regulação do sono. Inclusive foram apresentados alguns produtos lácteos desenvolvidos na China que já atendem a esta demanda. Essa conexão entre nutrição e equilíbrio mental abre novas frentes de pesquisa e de comunicação para o setor, especialmente diante do aumento de ansiedade e estresse na população mundial.
O outro grande debate do evento girou em torno da sustentabilidade e da segurança alimentar global. O World Dairy Situation Report de 2024 trouxe projeções preocupantes: até 2035, o mundo pode enfrentar falta de leite. Mesmo que o consumo cresça apenas acompanhando o aumento populacional, que está projetado para 10 bilhões de pessoas até 2050, a oferta global não deve acompanhar o ritmo da demanda. Estima-se que a produção de leite crescerá 1,7% ao ano até 2035, enquanto a demanda mundial pode subir 2,2%. Em outras palavras, haverá mais pessoas querendo consumir leite do que leite disponível no mercado.
No entanto, os líderes da IDF reforçaram que o leite pode e deve ser visto como uma força do bem: um alimento capaz de nutrir pessoas e, ao mesmo tempo, promover desenvolvimento econômico e social quando produzido de forma responsável. O tema “Nourishing a sustainable world” traduz exatamente essa visão: a de que sustentabilidade não se resume ao meio ambiente, mas inclui também a saúde humana, o bem-estar animal e a vitalidade das comunidades rurais.
Portanto, o panorama global apresentado no WDS aponta para um futuro desafiador, mas também repleto de oportunidades. A imagem do leite se fortalece à medida que ciência, comunicação e propósito se unem em torno de uma visão mais ampla de sustentabilidade. Em um mundo que busca equilíbrio entre saúde, prazer e responsabilidade ambiental, o leite volta a ocupar seu lugar legítimo como um alimento essencial, um verdadeiro símbolo do que significa nutrir um mundo sustentável. No entanto, ainda existem muitos desafios pela frente.
