Leite: um aliado estratégico na segurança alimentar global

Produção leiteira garante renda e nutrição em regiões vulneráveis. Veja por que o leite é peça central nos debates globais sobre segurança alimentar.

Publicado em: - 3 minutos de leitura

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Entre 23 e 27 de junho, Ribeirão Preto-SP sediou o International Food and Agribusiness Management Association (IFAMA), focando na segurança alimentar. A FAO define segurança alimentar como acesso a alimentos nutritivos para uma vida saudável. O leite é destacado como aliado nesse contexto, promovendo renda e nutrição. No Brasil, a cadeia leiteira gera R$ 67,8 bilhões e emprega 4 milhões de pessoas. Na África, países vulneráveis à fome têm potencial produtivo de leite, que pode melhorar a segurança alimentar e dinamizar economias locais. O leite é visto como uma solução para alimentar 9 bilhões de pessoas até 2050.

Entre os dias 23 e 27 de junho, recebemos em Ribeirão Preto - SP o International Food and Agribusiness Management Association (IFAMA), maior congresso de agronegócio do mundo. Em meio a apresentações de pesquisas e palestras, pesquisadores, executivos e formuladores de políticas de mais de 40 países discutiram temas relevantes para o setor, dos quais um se destacou ao longo dos quatro dias de evento: a segurança alimentar.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) definiu, em 1996, segurança alimentar como “quando todas as pessoas, em todos os momentos, têm acesso físico, social e econômico a alimentos suficientes, seguros e nutritivos para satisfazer suas necessidades dietéticas e preferências alimentares para uma vida ativa e saudável”. Contempla, portanto, não apenas o acesso a alimentos, mas também à ingestão e absorção adequada de nutrientes.

Durante as discussões, refleti muito sobre como o leite pode ser um dos aliados nesse processo de segurança alimentar ao redor do mundo, e é sobre isso que abordarei aqui. Para isso, utilizarei dados de produção, impactos sociais e econômicos em regiões leiteiras e, também, os aspectos nutritivos do alimento.

 

O leite como motor de renda, nutrição e estabilidade

Em tempos de incerteza climática, inflação global de alimentos e conflitos geopolíticos, a cadeia leiteira emerge como uma atividade que promove renda regular, alimentos acessíveis e nutrição de qualidade.

No Brasil, a atividade leiteira tem presença marcante em todo o território nacional, estando presente em 98% dos municípios e sendo desenvolvida, de acordo com o censo agropecuário¹, por mais de 1 milhão de propriedades rurais, que juntas empregam aproximadamente 4 milhões de pessoas. Apenas no setor primário, essa cadeia movimenta mais de R$ 67,8 bilhões por ano, o que demonstra sua importância não só econômica, mas também social, sobretudo em regiões rurais onde o leite é uma das poucas atividades com geração de receita constante.

Na Índia, maior produtora mundial, o cenário é ainda mais expressivo: mais de 80 milhões de famílias dependem da pecuária leiteira como principal fonte de renda. Com mais de 300 milhões de bovinos e 187 milhões de toneladas de leite produzidas anualmente, o setor garante alimento nutritivo e acessível diariamente, além de empoderar economicamente comunidades rurais inteiras.

Estes dois exemplos, “dentro de casa” e do maior produtor mundial, nos ajudam a entender o impacto econômico e social da atividade. Mas, e quando olhamos para os países onde há urgência de segurança alimentar? Vamos usar o exemplo da África, onde está parte dos países mais vulneráveis à fome no mundo. 

Segundo relatório da FAO e do World Food Program (WFP) publicado em junho de 2025, 13 países enfrentam risco iminente de fome, incluindo Sudão, Sudão do Sul, Mali, Etiópia, Nigéria e República Democrática do Congo. A situação é crítica:

  • 24,6 milhões de pessoas estão em crise alimentar no Sudão, com 637 mil em nível de catástrofe alimentar;

  • No Sudão do Sul, 7,7 milhões de pessoas (57% da população) enfrentam insegurança alimentar aguda;

  • Em Mali, ao menos 2.600 pessoas estão em risco de fome extrema, impulsionada por conflitos e instabilidade econômica.

Paradoxalmente, muitos desses países têm potencial produtivo para o leite — e onde ele é produzido, os efeitos positivos são claros. Em Uganda, por exemplo, cerca de 50% da produção de leite ocorre em regiões centrais e ocidentais, onde o produto é uma das poucas fontes estáveis de alimento e renda durante o ano inteiro. Já na Nigéria, embora o rebanho bovino ultrapasse 19 milhões de cabeças, o leite cobre menos de 10% da demanda interna, revelando um setor com imenso potencial de crescimento.

Produzir leite localmente contribui para a disponibilidade contínua de alimento, melhora o acesso econômico das famílias vulneráveis, oferece nutrição essencial (rico em proteína, cálcio e vitaminas) e promove estabilidade mesmo em tempos de crise. Além disso, a atividade leiteira tem um impacto multiplicador: movimenta cadeias de ração, medicamentos veterinários, equipamentos e logística, o que dinamiza economias locais.

Enquanto o mundo discute como alimentar 9 bilhões de pessoas até 2050, o leite se apresenta como uma solução possível, acessível e já existente. É, então, mais que um alimento, uma ferramenta de transformação social e econômica.

¹Os dados do Censo referem-se a 2017. Desde então, muitos produtores deixaram a atividade - segundo relatório produzido pelo MilkPoint, o mercado formal contém hoje cerca de 250.000 produtores de leite.

Referências bibliográficas

FAO e WFP. Hunger Hotspots Report. 2025. Disponível em: https://www.wfp.org/news/fao-and-wfp-early-warning-report-reveals-worsening-hunger-13-hotspots-five-immediate-risk. Acesso em: 01 jul. 2025.

National Dairy Development Board. Annual Report. 2023. Disponível em: https://www.nddb.coop. Acesso em: 01 jul. 2025.

United Nations News. Uganda’s dairy sector boosts food security and income. 2024. Disponível em: https://news.un.org/en/story/2024/06/1150646. Acesso em: 01 jul. 2025.

U.S. Department of Commerce, International Trade Administration. Nigeria - Agriculture Sector. Disponível em: https://www.trade.gov/country-commercial-guides/nigeria-agriculture-sector. Acesso em: 01 jul. 2025.

MILKPOINT. Análise MilkPoint Mercado: perspectiva para o mercado lácteo internacional. 2023. Disponível em: https://www.milkpoint.com.br/mercado/int/analises/5039. Acesso em: 01 jul. 2025.

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Material escrito por:

Ana Maria Piccino

Ana Maria Piccino

Administradora pela Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" - ESALQ/USP e Analista Pleno II na MilkPoint Ventures.

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Graziela Marafiotti
GRAZIELA MARAFIOTTI

BAURU - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 09/07/2025

Excelente artigo
Ana Maria Piccino
ANA MARIA PICCINO

PIRACICABA - SÃO PAULO

EM 09/07/2025

Obrigada, Graziela!
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