É justamente essa reflexão que norteia a palestra "É possível ser viável economicamente sem ser um grande produtor?", ministrada pelo médico-veterinário e sócio-fundador da Campo Legado Consultoria, Henrique Rodrigues G. Pereira, durante o Interleite Brasil 2026, realizado entre os dias 18 e 20 de agosto, em Uberlândia (MG).
Na avaliação do consultor, propriedades de pequeno e médio porte também podem construir negócios economicamente sustentáveis quando conseguem atender bem às demandas do mercado, reduzir desperdícios e manter uma gestão financeira consistente. Em outras palavras, embora a escala traga vantagens importantes, ela não é o único fator que determina o sucesso econômico de uma fazenda.
À frente da Campo Legado Consultoria, sediada no Triângulo Mineiro, Henrique acompanha propriedades de diferentes perfis e tamanhos. A experiência prática ao lado dos produtores de leite permitiu identificar um padrão que se repete entre as fazendas mais rentáveis: os melhores resultados não estão necessariamente nas maiores estruturas, mas nas propriedades que conseguem executar bem o básico, manter processos consistentes e tomar decisões com foco na sustentabilidade do negócio.
Rentabilidade começa pelo cliente — e não pela escala
Na visão de Henrique, um dos maiores equívocos é associar lucro apenas ao aumento da produção. Antes de pensar em crescer, o produtor precisa compreender quem remunera o seu trabalho. "O cliente do produtor é o laticínio. Quanto melhor atendermos esse cliente, melhor o nosso leite será remunerado."
Produzir leite com qualidade, regularidade e dentro dos padrões exigidos pela indústria significa agregar valor ao produto e ampliar a remuneração recebida. Para ele, essa é a primeira condição para construir um negócio economicamente saudável, independentemente do número de vacas ou do volume produzido. Mas atender bem ao mercado é apenas parte da equação.
A rentabilidade pode estar escapando pelos pequenos desperdícios
Outro conceito que Henrique pretende discutir é o impacto dos desperdícios invisíveis dentro da fazenda. Segundo ele, muitas propriedades perdem dinheiro diariamente sem perceber. "Existe muito dinheiro indo embora pelo ralo."
Uma vaca com mastite, uma bezerra com diarreia, alimento perdido no cocho, excesso de produção de pasto ou falhas operacionais representam perdas que, somadas ao longo do tempo, comprometem significativamente o resultado financeiro. Por isso, ele costuma incentivar os produtores a adotarem uma verdadeira "caça ao desperdício". A lógica é simples: aumentar a eficiência nem sempre exige grandes investimentos. Muitas vezes, basta eliminar perdas que já fazem parte da rotina da propriedade.
Caixa saudável vale mais do que custo de produção
Outro ponto que Henrique considera decisivo é a gestão financeira. Embora muitos produtores acompanhem cuidadosamente o custo de produção, ele acredita que um indicador ainda mais importante costuma receber pouca atenção: o caixa.
Segundo o consultor, um negócio só consegue atravessar momentos difíceis quando possui organização financeira suficiente para honrar seus compromissos sem depender constantemente de crédito externo.
Quando o caixa deixa de ser prioridade, decisões acabam sendo tomadas sob pressão, comprometendo investimentos, planejamento e até mesmo o futuro da atividade. "Olhar o caixa todos os dias permite entender exatamente onde é preciso agir dentro da fazenda."
O sistema precisa combinar com as vacas
Ao acompanhar propriedades leiteiras de pequeno e médio porte, Henrique observa que boa parte das perdas de rentabilidade nasce antes mesmo da gestão financeira. Um dos problemas mais frequentes é a falta de alinhamento entre o sistema de produção e o perfil dos animais.
Em algumas propriedades, o manejo não atende às necessidades das vacas. Em outras, são os animais que não estão adaptados ao sistema adotado pela fazenda. Essa incompatibilidade reduz eficiência, aumenta custos e limita o potencial produtivo do rebanho. Outro gargalo recorrente é a baixa excelência na execução das tarefas. Na avaliação do consultor, muitos produtores conhecem os conceitos técnicos, mas ainda encontram dificuldade para transformar conhecimento em processos consistentes no dia a dia.
Cinco pilares sustentam qualquer fazenda
Durante sua palestra, Henrique pretende apresentar uma forma simples de avaliar a saúde de qualquer negócio leiteiro. Para ele, independentemente do tamanho da propriedade, existem cinco pilares que sustentam a competitividade.
O primeiro é a segurança das pessoas envolvidas na operação. Indicadores relacionados à carga de trabalho, riscos de acidentes e rotatividade ajudam a mostrar se a atividade está sendo conduzida de maneira sustentável. O segundo envolve as pessoas e sua capacidade de desenvolvimento.
Henrique lembra que, nas pequenas propriedades, o produtor costuma acumular diversas funções ao mesmo tempo: operador, gerente, supervisor e proprietário. À medida que o negócio cresce, torna-se fundamental desenvolver a equipe e criar capacidade de formar novos profissionais. Nesse processo, ele acredita que a tecnologia deve atuar como uma ferramenta para facilitar o trabalho das pessoas — e não para substituí-las.
O terceiro pilar é a qualidade. Executar corretamente as tarefas desde a primeira vez reduz doenças, melhora a saúde do rebanho, diminui o uso de medicamentos e aumenta a eficiência dos animais. Indicadores como mastite, doenças do periparto e qualidade do leite ajudam a medir esse desempenho. O quarto é a produtividade. Mas Henrique faz questão de ampliar esse conceito. Para ele, produtividade não significa apenas produzir mais litros por vaca, e sim produzir mais utilizando menos recursos, aumentando a conversão alimentar, reduzindo desperdícios e tornando todo o sistema mais eficiente.
O quinto pilar fecha o ciclo: um caixa saudável, capaz de sustentar o crescimento da fazenda e permitir que o produtor atravesse períodos de volatilidade sem comprometer o futuro do negócio.
O diferencial está na constância
Ao observar as propriedades que conseguem crescer de forma consistente, Henrique identifica três características que aparecem repetidamente. A primeira é a constância.
As fazendas mais rentáveis mantêm estabilidade na execução das tarefas, nos processos e na forma de trabalhar. A baixa variação operacional gera previsibilidade e melhora os resultados.
A segunda é a disciplina. Horários, rotinas, procedimentos e padrões precisam ser seguidos todos os dias.
A terceira característica é a busca permanente por fazer certo da primeira vez. Embora erros façam parte de qualquer atividade, Henrique acredita que perseguir a excelência continuamente reduz perdas e aumenta a competitividade. Para ele, ferramentas e tecnologias são importantes, mas produzem resultados muito maiores quando estão apoiadas sobre esses três princípios.
Mais do que técnica, uma mudança de mentalidade
No Interleite Brasil, Henrique pretende levar ao público uma discussão que vai além das tecnologias ou das recomendações técnicas.
Sua proposta é mostrar que os maiores avanços da atividade muitas vezes estão na forma como o produtor enxerga o próprio negócio. "Não existe uma técnica que, sozinha, vá transformar uma fazenda."
Segundo ele, compreender melhor o cliente, construir processos consistentes, eliminar desperdícios e manter disciplina na execução são atitudes capazes de gerar resultados expressivos tanto em pequenas quanto em grandes propriedades.
Mais do que apresentar fórmulas prontas, Henrique pretende compartilhar experiências vividas em diferentes fazendas e mostrar que a viabilidade econômica está ao alcance de produtores de qualquer escala, desde que exista constância no propósito e excelência na execução.
Participe do Interleite Brasil 2026
A palestra de Henrique Rodrigues reforça uma das principais mensagens do Interleite Brasil 2026: produzir leite com competitividade exige muito mais do que aumentar a escala. Gestão, organização financeira, qualidade dos processos, desenvolvimento de pessoas e disciplina operacional são fatores que fazem a diferença dentro da porteira.
Esses e muitos outros temas estarão em debate durante o Interleite Brasil 2026, de 18 a 20 de agosto, em Uberlândia (MG). Durante três dias, produtores, consultores, pesquisadores, técnicos e lideranças da cadeia leiteira compartilharão experiências e discutirão soluções práticas para fortalecer a produção de leite no Brasil.
Garanta sua participação e faça parte das conversas que estão ajudando a construir o futuro da pecuária leiteira brasileira.