No contexto brasileiro, esse movimento é potencializado pela ampla disseminação do acesso à internet e pelo uso crescente das redes sociais como fonte de informação. O consumidor contemporâneo não se restringe mais ao ponto de venda para tomar decisões, ele pesquisa, compara, valida opiniões e busca compreender atributos relacionados à saúde, sustentabilidade e qualidade dos alimentos antes da compra. Essa mudança de comportamento exige que empresas do setor reposicionem seus produtos (historicamente associados ao consumo cotidiano) como soluções alinhadas ao bem-estar, à conveniência e à responsabilidade socioambiental.
Nesse cenário, o marketing digital assume centralidade ao possibilitar comunicação bidirecional, segmentação precisa e personalização de mensagens. Diferentemente do modelo tradicional, baseado na difusão massificada, o ambiente digital permite interações contínuas, mensuração em tempo real e ajustes dinâmicos das estratégias, ampliando a eficiência das ações e fortalecendo o vínculo entre marcas e consumidores.
Observa-se, no setor, a adoção crescente de estratégias digitais por grandes empresas de laticínios, refletindo uma mudança estrutural na forma de comunicação com o mercado. Esse movimento inclui a integração de conteúdo educativo, o uso intensivo de dados e a incorporação de ações de influência digital, evidenciando a transição de uma abordagem centrada no produto para um modelo orientado à experiência e ao valor percebido pelo consumidor.
Um dos principais pilares dessa transformação é o investimento em marketing de conteúdo. Empresas do setor passaram a produzir e disseminar informações sobre saúde, nutrição e qualidade de vida, ampliando sua atuação para além da promoção comercial. Ao oferecer conteúdo relevante, essas organizações se posicionam como referências nos temas abordados, fortalecendo a confiança do consumidor, aspecto particularmente sensível no segmento de alimentos. Essa abordagem contribui para a construção de relacionamentos de longo prazo, essenciais em mercados de alta frequência de compra.
Outro componente relevante é o marketing de influência, consolidado como uma das ferramentas mais eficazes no ambiente digital. Parcerias com nutricionistas, atletas e criadores de conteúdo permitem uma comunicação mais próxima, segmentada e confiável. No setor de alimentos, onde a percepção de risco está diretamente associada à saúde, a credibilidade exerce papel determinante na decisão de compra. Nesse contexto, a influência digital atua como mecanismo de validação social, reduzindo incertezas e fortalecendo a reputação das marcas, conforme ilustrado na figura 1.
Figura 1 - Estratégias de marketing de influência e resultados esperados. Fonte: dos autores, 2026.
A personalização baseada em dados também se destaca como elemento-chave nas estratégias digitais. A análise do comportamento do consumidor, histórico de compras e preferências individuais possibilita o direcionamento de campanhas mais assertivas e a oferta de produtos alinhados às expectativas de diferentes públicos. Esse nível de precisão aumenta a efetividade das ações de marketing, contribui para a fidelização e amplia o valor percebido pelos consumidores.
Os impactos dessas iniciativas refletem-se diretamente no desempenho das empresas do setor. De forma geral, observa-se uma relação positiva entre a intensificação das estratégias digitais e a melhoria de indicadores financeiros. A ampliação da presença em plataformas digitais aumenta a visibilidade das marcas, atrai novos consumidores e potencializa a conversão em múltiplos canais, incluindo pontos de venda físicos e ambientes online.
Do ponto de vista econômico, as estratégias digitais influenciam variáveis como volume de vendas, composição do mix de produtos e desempenho das margens. A segmentação e a personalização favorecem a comunicação de produtos de maior valor agregado, incentivando a migração do consumo para categorias premium e funcionais. Esse movimento é especialmente relevante no setor de laticínios, onde a diferenciação por atributos nutricionais e benefícios à saúde tem se consolidado como vetor de crescimento. A figura 2 representa um mix integrado de ferramentas digitais que as grandes empresas de laticínios usam para ampliar o engajamento e a efetividade das campanhas.
Figura 2 - Estrutura da estratégia digital integrada no setor de laticínios. Fonte: dos autores, 2026.
Além disso, a digitalização permite comunicar características técnicas dos produtos de forma mais acessível e escalável, facilitando a aceitação de inovações e fortalecendo o alinhamento entre proposta de valor e percepção do consumidor, aspecto decisivo em mercados com elevada similaridade entre produtos.
A evolução recente do setor evidencia a consolidação de ecossistemas digitais integrados, combinados à expansão do comércio eletrônico e ao uso de tecnologias como inteligência artificial e blockchain. Esses avanços têm impulsionado receitas digitais e reforçado o papel da transformação digital como eixo estratégico das organizações. Trata-se de uma tendência global, na qual empresas com maior maturidade digital tendem a apresentar melhor desempenho, maior eficiência em marketing e maior penetração em categorias de alto valor agregado.
Apesar dos avanços, persistem limitações estruturais relevantes. A perecibilidade dos produtos impõe desafios logísticos e reduz a flexibilidade das campanhas, enquanto a necessidade de cadeia refrigerada eleva custos operacionais e restringe a expansão do comércio eletrônico em determinadas regiões. Soma-se a isso a elevada similaridade entre produtos, que exige investimentos contínuos em diferenciação e construção de marca.
Outro ponto de atenção é a dependência de marketplaces, que pode limitar o acesso a dados estratégicos e reduzir o controle sobre a jornada do consumidor. Além disso, a rápida evolução tecnológica demanda atualização constante, representando um desafio adicional, especialmente para empresas de menor porte. A literatura acadêmica também apresenta lacunas, com predominância de estudos voltados a grandes organizações e limitações na generalização dos resultados.
Ainda assim, as perspectivas para o marketing digital no setor de laticínios são amplamente positivas. Espera-se avanço no uso de tecnologias como inteligência artificial, aprendizado de máquina e realidade aumentada, ampliando a personalização, melhorando a previsão de demanda e proporcionando experiências de consumo mais imersivas. O crescimento do e-commerce, do live commerce e dos modelos diretos ao consumidor tende a redefinir estratégias de distribuição e relacionamento com o mercado.
A sustentabilidade deve permanecer como eixo central, impulsionando a comunicação de práticas ambientais e sociais e influenciando diretamente a percepção de valor das marcas. Paralelamente, questões relacionadas à privacidade e ao uso de dados tendem a ganhar maior relevância, exigindo transparência e adequação às regulamentações.
Diante desse cenário, empresas do setor precisarão continuar investindo em capacidades analíticas, integração tecnológica e estratégias centradas no consumidor para sustentar sua competitividade. A transformação digital, portanto, não se limita à adoção de ferramentas, mas envolve uma mudança estrutural na forma de pensar o negócio, integrar áreas e gerar valor.
Em síntese, o marketing digital consolidou-se como um elemento essencial para o desenvolvimento do setor de laticínios, permitindo às empresas ampliar vendas, fortalecer marcas e alinhar suas propostas às expectativas de um consumidor cada vez mais conectado, exigente e orientado por dados.
Agradecimentos
Os autores agradecem às instituições que contribuíram diretamente para a execução desse trabalho, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais - Instituto de Laticínios Cândido Tostes (EPAMIG-ILCT).
Fontes consultadas
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