Do campo ao consumidor: como a blockchain está transformando a indústria de laticínios

A cadeia de laticínios enfrenta mais exigências regulatórias, demanda por transparência e pressão por práticas sustentáveis, o que impulsiona a digitalização. Nesse cenário, a blockchain surge como solução estratégica para ampliar a rastreabilidade, garantir segurança das informações e aumentar a eficiência, do campo ao consumidor final.

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A cadeia produtiva de laticínios enfrenta desafios com exigências regulatórias, demanda por transparência e práticas sustentáveis, levando à adoção de tecnologias digitais como a blockchain. Essa tecnologia melhora a rastreabilidade, segurança e eficiência, reduzindo perdas e fortalecendo a confiança entre os elos da cadeia. A implementação deve ser gradual e integrada a sistemas existentes, priorizando dados relevantes. A blockchain pode promover eficiência operacional e conformidade regulatória, destacando-se como ferramenta estratégica no setor.
A cadeia produtiva de laticínios enfrenta um cenário marcado pelo aumento das exigências regulatórias, pela crescente demanda por transparência e pela valorização de práticas sustentáveis. Estes fatores têm impulsionado a adoção de tecnologias digitais capazes de integrar informações, reduzir perdas e fortalecer a confiança entre os diferentes elos da cadeia produtiva.

Nesse contexto, a blockchain desponta como uma infraestrutura inovadora e estratégica para aprimorar a rastreabilidade, segurança da informação e a eficiência operacional, abrangendo todas as etapas do processo de fabricação, desde a produção primária até a chegada do produto ao consumidor final.

A blockchain caracteriza-se como um livro-razão distribuído, descentralizado e imutável, no qual as transações são registradas de forma cronológica e validadas por meio de consenso entre os participantes da rede. Tal arquitetura contribui para a redução das assimetrias de dados e minimiza os riscos de manipulação ou adulteração de informações, promovendo maior confiabilidade dos registros ao longo do arranjo operacional (Caro et al., 2018; Kayikci, 2022). 

No âmbito da cadeia láctea, a aplicação dessa tecnologia tem sido amplamente associada ao fortalecimento da segurança dos alimentos, especialmente em setores sensíveis, nos quais a qualidade da matéria-prima, o controle sanitário e a conformidade com padrões técnicos (IN° 76 e 77) são determinantes para a integridade do produto acabado (Kamilaris et al., 2019). Além disso, estudos recentes apontam que aproximadamente 30% dos alimentos produzidos globalmente são perdidos ou desperdiçados, sendo uma parcela significativa dessas perdas atribuída a falhas nos sistemas de controle, monitoramento e gestão integrada (Batickowski; Barbiani, 2024; FAO, 2021). 

Diante desse contexto, a literatura destaca que a adoção da blockchain pode contribuir de forma efetiva para a mitigação de (GAPs), ao possibilitar o registro contínuo e confiável das informações ao longo das etapas de processamento. Essa característica favorece a realização de auditorias, agiliza processos de recall e subsidia a tomada de decisões baseada em dados robustos e rastreáveis, reduzindo desvios operacionais (Riske et al., 2025; Souza, 2024). Nesse sentido, a Tabela 1 apresenta os principais desvios observados na indústria de laticínios, suas possíveis causas, impactos e potencial de mitigação com o uso de blockchain em diferentes contextos operacionais.

Tabela 1 – Desvios de processos e uso de blockchain. 

Figura 1

No entanto, a aplicação da tecnologia não deve ser tratada como uma solução isolada ou meramente tecnológica. Sua eficácia depende da integração com outros sistemas digitais, como sensores IoT, bancos de dados estruturados e ferramentas de análise avançada. Dessa forma, pesquisas realizadas no contexto agroindustrial demonstram que soluções híbridas, combinando bancos de dados em grafo e sistemas inteligentes, permitem analisar relações complexas entre os setores (Faciroli; Sirqueira; Pinto, 2025). Embora esse modelo tenha sido explorado inicialmente na pecuária de corte, seus princípios podem ser plenamente aplicados à cadeia láctea.

Sob essa perspectiva, a implementação eficiente na unidade de beneficiamento deve iniciar-se com a definição clara dos Pontos Críticos de Controle (PCC) e dos dados que agregam valor. Nesse sentido, registrar informações redundantes ou irrelevantes apenas eleva custos e complexidade operacional (Batickowski; Barbiani, 2024). Assim, recomenda-se priorizar dados como origem do leite (fazenda, lote e data), resultados de análises físico-químicas e microbiológicas, parâmetros de processamento (temperatura, tempo, limpeza em circuito fechado), logística de distribuição e validade dos produtos. 

A partir dessa coleta sistemática, é possível utilizar roodmaps estratégicos e box práticos para a aplicação de modo eficiente em um layout industrial. Estudos de caso em laticínios brasileiros indicam que a digitalização e a automação já vêm sendo utilizadas para otimizar processos e controle de qualidade, ainda que em estágios iniciais (Arantes et al., 2024). 

Outrossim, a blockchain atua como uma camada adicional de governança da informação, assegurando que os dados gerados por sensores, softwares de gestão e algoritmos de inteligência artificial sejam registrados de forma confiável e auditável. Essa característica fortalece a conformidade, processos de certificação e sustenta estratégias ESG, cada vez mais valorizadas pelo mercado e pelos consumidores. Desse modo, a transparência promovida entre os diferentes elos da cadeia produtiva pode ser claramente visualizada na Figura 1, a qual ilustra a integração dos processos por meio do uso da tecnologia. 

Figura 1 - Integração dos processos da cadeia de leite e derivados via blockchain.

Figura 2

Do ponto de vista organizacional, a adoção da blockchain requer mudanças culturais e investimentos em capacitação técnica. Pesquisas recentes indicam que barreiras como resistência à mudança organizacional, falta de conhecimento especializado e os custos iniciais de implantação são fatores que dificultam a adoção da tecnologia, sobretudo em empresas de menor porte com recursos limitados e baixa maturidade tecnológica (AlKubaisy & Al-Somali, 2023; Queiroz, Falcetti & Silva, 2025).

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Para mitigar esses entraves, recomenda-se uma implementação gradual, iniciando-se por projetos piloto em linhas específicas ou em produtos de maior valor agregado, o que possibilita a avaliação do retorno sobre o investimento (plano de economia) e a realização de ajustes no processo antes da expansão do sistema. Diante desse cenário, a Figura 2 ilustra os principais desafios enfrentados por unidades de laticínios na adoção da tecnologia blockchain.

Figura 2 – Principais desafios. 

Figura 3

No contexto brasileiro, é fundamental considerar a heterogeneidade da cadeia láctea e a necessidade de inclusão de pequenos e médios produtores. A tecnologia quando mal implementada, pode reforçar assimetrias de poder e dependência tecnológica. Por outro lado, quando utilizada como ferramenta de transparência e coordenação, pode fortalecer relações contratuais, valorizar a qualidade dos processos e ampliar o acesso a mercados mais exigentes, alinhando-se a estratégias de sustentabilidade e inovação (Arantes et al., 2024).

Experiências internacionais e geração de valor na cadeia de lácteos

A adoção da blockchain deixou de ser apenas um exercício conceitual e vem sendo testada em iniciativas concretas no cenário internacional. Um dos casos mais emblemáticos é o da IBM Food Trust, plataforma baseada em blockchain utilizada por grandes empresas do setor alimentício. Embora mais conhecida por aplicações em carnes e hortifrutis, a solução passou a incorporar produtos lácteos. Outro exemplo relevante é o uso da ferramenta pelo Walmart na China, onde o tempo de rastreamento de produtos sensíveis foi reduzido de dias para segundos, possibilitando ações rápidas em casos de não conformidade.

No setor lácteo europeu, cooperativas de leite na França e na Holanda vêm utilizando a tecnologia para registrar informações relacionadas ao bem-estar animal, à origem do leite, às Boas Práticas de Ordenha (BPA), à alimentação do rebanho e a práticas ambientais. Esses dados são disponibilizados ao consumidor final por meio de QR Codes presentes nas embalagens dos produtos

Assim, o valor estratégico dessa iniciativa não se limita à adoção da tecnologia em si, mas à sua atuação como um instrumento de gestão da confiança ao longo da cadeia produtiva. Nesse sentido, a Figura 3 sintetiza os principais benefícios associados à aplicação no setor, evidenciando quatro dimensões centrais que sustentam essa abordagem.

Figura 3 – Principais benefícios para o setor de laticínios.

Figura 4

Governança e sustentabilidade na indústria de laticínios

A implementação da blockchain pode iniciar-se de forma estrutural, concentrando-se em um produto crítico, como o iogurte natural por exemplo, caracterizado por elevada sensibilidade microbiológica e maior risco de perdas. Nesse modelo, cada carga de leite recebida passa a ser registrada em um sistema integrado, associando informações que já fazem parte da rotina industrial e podem ser automaticamente consolidados e registrados pela rede em blocos (Kamilaris; Fonts; Prenafeta-Boldú, 2023; Riske et al., 2025).

Posto isto, parâmetros críticos como temperatura de pasteurização, tempo de fermentação e liberação da qualidade são vinculados ao mesmo lote digital. Caso haja uma não conformidade posterior, como estufamento de embalagens no mercado, a equipe de qualidade consegue identificar rapidamente (produtor, turno, linha e quais parâmetros estiveram associados ao problema), reduzindo drasticamente o escopo de recall e evitando perdas generalizadas.

Contudo, a efetividade da aplicação na indústria de laticínios não depende exclusivamente da robustez tecnológica adotada, mas sobretudo da forma como essa tecnologia é incorporada aos sistemas de gestão e à rotina organizacional. Assim, o uso de ferramentas administrativas torna-se central nesse processo ao estruturar a informação, definir responsabilidades e assegurar a continuidade operacional da tecnologia ao longo do tempo. Nesse contexto, a Figura 4 ilustra as principais ferramentas que podem auxiliar os colaboradores durante a aplicação da blockchain na rotina de produção. 

Figura 4 - Ferramentas administrativas. 

Figura 5

Observa-se que o sucesso da implementação está diretamente associado à estruturação administrativa do projeto, e não apenas à adoção da tecnologia. Ferramentas como BPM, POPs e KPIs garantem que a blockchain seja incorporado de forma orgânica à rotina fabril, enquanto a gestão da mudança assegura a adesão dos colaboradores e a sustentabilidade da solução. 

Em síntese, essa abordagem reforça que a blockchain, quando sustentado por práticas de gestão bem definidas, deixa de ser um projeto experimental e passa a atuar como um instrumento permanente de governança industrial, capaz de integrar processos, pessoas e tecnologia em um ciclo contínuo de melhoria. 

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Portanto, à medida que os dados gerados retroalimentam os sistemas de gestão, fortalecem a tomada de decisão e orientam ações corretivas e preventivas, consolidando um modelo no qual a tecnologia não se limita ao registro de informações, mas também, à sustentação da eficiência, a conformidade regulatória e a competitividade sustentável na indústria de laticínios.

Conclusão

A análise desenvolvida evidencia que a tecnologia blockchain configura-se como uma ferramenta estratégica para a modernização da cadeia produtiva de laticínios, ao atender às demandas por rastreabilidade, segurança dos alimentos, conformidade regulatória e sustentabilidade. O registro imutável e integrado das informações ao longo da cadeia contribui para a redução de perdas, a mitigação de riscos operacionais e o fortalecimento da confiança entre os agentes envolvidos.

Os resultados indicam que os benefícios da tecnologia estão associados não apenas à sua adoção, mas à integração com sistemas de gestão, sensores IoT e práticas administrativas consolidadas, exigindo uma abordagem sistêmica e orientada por dados relevantes. Nesse contexto, a implementação gradual, por meio de projetos piloto, mostra-se adequada para lidar com os desafios organizacionais e estruturais, especialmente no cenário brasileiro.

Assim, quando sustentado por práticas de governança bem definidas, a blockchain supera o papel de solução pontual e consolida-se como um instrumento permanente de gestão da informação, promovendo eficiência operacional, conformidade regulatória e competitividade sustentável na indústria de laticínios, do campo ao consumidor.

Agradecimentos

Os autores agradecem às instituições que contribuíram diretamente para a execução desse trabalho, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais - Instituto de Laticínios Cândido Tostes (EPAMIG-ILCT).

Referências 

AL-KUBAISI, A.; AL-SOMALI, S. A. Factors influencing blockchain adoption in supply chain management. Journal of Enterprise Information Management, v. 36, n. 2, p. 389–408, 2023.

ARANTES, R. F. et al. Digitalização e automação de processos na indústria de laticínios brasileira: desafios e perspectivas. Revista Brasileira de Tecnologia Agroindustrial, v. 18, n. 2, p. 1–15, 2024.

BATICKOWSKI, D.; BARBIANI, R. Perdas e desperdícios de alimentos: impactos econômicos, ambientais e estratégias de mitigação. Revista de Gestão Ambiental e Sustentabilidade, v. 13, n. 1, p. 45–61, 2024.

CARO, M. P. et al. Blockchain-based traceability in agri-food supply chain management: A practical implementation. Computers and Electronics in Agriculture, v. 153, p. 1–8, 2018.

FACIROLI, M.; SIRQUEIRA, L.; PINTO, J. C. Uso de bancos de dados em grafo e sistemas inteligentes na rastreabilidade agroindustrial. Computers and Electronics in Agriculture, v. 213, p. 108207, 2025.

FAO – FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. The state of food and agriculture 2021: making agrifood systems more resilient to shocks and stresses. Rome: FAO, 2021.

KAMILARIS, A.; FONTS, A.; PRENAFETA-BOLDÚ, F. X. The rise of blockchain technology in agriculture and food supply chains. Trends in Food Science & Technology, v. 91, p. 640–652, 2019.

KAMILARIS, A.; FONTS, A.; PRENAFETA-BOLDÚ, F. X. Blockchain and smart contracts in food traceability and safety. Current Opinion in Food Science, v. 50, p. 101002, 2023.

KAYIKCI, Y. Sustainability impact of blockchain technology in food supply chains. Sustainable Production and Consumption, v. 29, p. 1–14, 2022.

QUEIROZ, M. M.; FALCETTI, E.; SILVA, G. M. Barreiras organizacionais à adoção do blockchain em cadeias agroindustriais. Journal of Cleaner Production, v. 389, p. 136004, 2025.

RISKE, C. T. et al. Blockchain as a governance mechanism in food supply chains. Supply Chain Management: An International Journal, v. 30, n. 1, p. 98–114, 2025.

SOUZA, L. A. Blockchain como ferramenta de mitigação de falhas operacionais na indústria de alimentos. Revista Gestão & Tecnologia, v. 24, n. 1, p. 55–70, 2024.

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Material escrito por:

Daniel Neto de Oliveira Brum

Daniel Neto de Oliveira Brum

Graduando de Tecnologia em Laticínios, EPAMIG-ILCT.

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Danielle de Oliveira Brum

Danielle de Oliveira Brum

Graduanda de Tecnologia em Laticínios, EPAMIG-ILCT.

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Tatiane Teixeira Tavares

Tatiane Teixeira Tavares

Bolsista de pesquisa nível I do Instituto de Laticínios Cândido Tostes - EPAMIG-ILCT.

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Wilson de A. O. Junior

Wilson de A. O. Junior

Mestre em Engenharia Agrícola. Professor/Pesquisador do Instituto de Laticínios Cândido Tostes - EPAMIG-MG).

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