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Escore fecal de bezerras: apenas mais uma nota?

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E MARINA GAVANSKI COELHO

CARLA BITTAR

EM 28/12/2020

8 MIN DE LEITURA

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O escore fecal ou escore de consistência fecal é uma ferramenta de natureza prática que auxilia na avaliação da presença de diarreia no rebanho.

Como os bezerros possuem uma elevada prevalência de infecções intestinais que resultam em sinais clínicos como a diarreia, o escore fecal é amplamente utilizado em pesquisas para avaliar métodos de alimentação, formulação de substitutos lácteos e suplementos durante a fase de aleitamento, além de saúde intestinal. Mais recentemente as fazendas comerciais passaram também a utilizar como forma de contribuir com o diagnóstico de diversos problemas, bem como na tomada de decisões clínicas, como a necessidade de fluidoterapia. 

A diarreia não é uma doença propriamente dita, mas um sinal clínico geralmente relacionado a infecções intestinais. Entretanto, a causa pode ser multifatorial e estar relacionada a erros de manejo, podendo acarretar na redução da taxa de crescimento, aumento da idade ao primeiro parto e muitos estudos relacionam sua presença na fase de criação com redução da produção de leite na primeira lactação.

O escore fecal foi mencionado pela primeira vez por Larson et al. (1977) como uma medida para uniformizar dados relacionados a diarreia em pesquisas com bezerros. Larson et al. (1977) sugeriu uma pontuação de 1 a 4, com base na fluidez, onde: 1 é considerada normal (firme, e a forma original pode se distorcer ligeiramente após cair no chão); 2 para fezes tidas como macias (não mantém a forma, empilha mas se espalha ligeiramente); 3 para fezes que escorrem (espalham-se prontamente até cerca de 6 mm de profundidade); e 4 para fezes aquosas (consistência líquida, respingos). 

McGuirk (2008) por sua vez, sugeriu o uso de uma escala ligeiramente modificada que vai de 0 a 3, e classifica como diarreia uma pontuação de 2 (solto, mas com consistência suficiente para permanecer na cama) ou 3 (fezes aquosas que infiltram na cama). Independentemente do sistema de pontuação, a maioria dos estudos que avaliam diretamente ou indiretamente a diarreia em bezerros leiteiros utilizam um sistema de pontuação de consistência fecal. 

A ampla utilização desse método fornece as evidências necessárias de que o escore fecal tem mérito como uma avaliação confiável de perda de fluidos associada a diarreia e pode sim ser utilizada com alta confiabilidade. Além disso, permite detecção precoce de infecções intestinais e consequentemente torna mais rápida a intervenção, o que minimiza a gravidade da desidratação e acidose metabólica, que são as principais causas de morte em bezerros com sinal clínico de diarreia.

Fora do meio científico, este método também é comumente utilizado por produtores para facilitar a identificação de diarreia pelos tratadores e gerenciamento de prevalência no rebanho. Porém, esse é um método que ainda precisa de validações quanto a sua eficiência, através por exemplo da determinação da matéria seca das fezes. 

No trabalho de Renaud et al. (2020) foram utilizados 160 bezerros alojados em abrigos individuais alimentados com substituto lácteo (26 % PB, 17 % FB, 4,66 Mcal / kg de ME) duas vezes ao dia com aumento da diluição ao longo dos primeiros 27 dias de aleitamento: 

D1 - 260 g de substituto diluído em dois litros de água do dia 0 ao dia 13; 
D2 - 390 g diluído em 2,5L de água do dia 14 ao 20; 
D3 - 455g em 3L de água de 21 a 27 dias. 

Os bezerros tiveram livre acesso à água e concentrado inicial. Os bezerros foram avaliados quanto à consistência fecal duas vezes ao dia, imediatamente antes do fornecimento da dieta líquida ao longo de 28 dias pelo mesmo avaliador, mas apenas a pontuação da manhã dos dias 1, 7, 14 e 21 foram utilizadas. No dia 10, o observador também pontuou 80 bezerros duas vezes em tentativas subsequentes, com intervalo de 40 minutos para determinar a confiabilidade intra-examinador.

O sistema de pontuação da consistência fecal seguiu o modelo sugerido por Larson et al. (1977) com 4 níveis, mas iniciando em: 0 = normal (firme, com a forma original ligeiramente distorcida após caírem ao chão); 1 = macia (não mantém a forma, pilhas que se espalham ligeiramente); 2 = líquido (espalha-se prontamente); e 3 = aguado (consistência líquida, respingos). O sistema de escore fecal utilizado é representado na Figura 1.

Figura 1 - Descrição visual do escore com cada pontuação indicando o seguinte: 0 = normal (firme, mas não duro); 1 = macio (não segura a forma, empilha, mas se espalha ligeiramente); 2 = líquido (espalha-se prontamente); e 3 = aquoso (consistência líquida, respingos). Uma pontuação ≥2 indica a presença de diarreia.

Amostras fecais foram coletadas de todos os bezerros via palpação retal nos dias 1, 7, 14 e 21. A primeira amostra fecal foi coletada na manhã após a chegada ao bezerreiro às 9h, e semanalmente após o aleitamento da manhã. Aproximadamente 5 a 15 g de fezes foram coletadas de cada bezerro para determinação da matéria seca fecal através de secagem em estufa a 100°C por 24h (Bellosa et al., 2011). 

Tabela 1 - Escore fecal de animais avaliados aos 1, 7, 14 e 21 dias de vida.

Ao longo das quatro avaliações, a maior parte dos animais (61,6%) apresentou escore 0 (Tabela 1), enquanto 18,9% apresentaram escore ≥2, considerado como diarreia. Quando se avalia os escores de acordo com a idade de avaliação percebe-se maior ocorrência de escore > 2 aos 7 dias de idade (Tabela 1; Figura 2). 

Figura 2 - Pontuação de consistência fecal de 160 bezerros machos durante os primeiros 28 dias após a chegada ao bezerreiro. 

A avaliação realizada pelo colaborador ao décimo dia com intervalo de 40 minutos entre avaliações apresentou concordância de 72,2% e um kappa de 0,54 sugerindo uma concordância intra-examinador moderada. Ou seja, em 72% das avaliações o colaborador apontou o mesmo escore. Porém na diferenciação de animais com (escore ≥2) ou sem diarreia (escore ≤1) a concordância foi elevada. O percentual de concordância foi de 93,7% e o kappa de 0,72 sugerindo concordância elevada. A confiabilidade intra-examinador foi considerada alta, resultado importante para elucidar as críticas de subjetividade do escore fecal.

Quanto a matéria seca fecal, a média das fezes nos 4 dias de avaliação foi de 22,7% variando entre os dias de amostragem, mas variou de acordo com o escore fecal pontuado (Figura 3). Ao longo dos 4 dias de avaliação, o escore 0 apresentou matéria seca de 25,1 ± 8,4%, para escore 1 a MS foi de 21,8 ± 8,2%; para pontuação 2 a MS foi de 16,0 ± 11,1% e 10,7 ± 6,9% para escore 3. A matéria seca média foi de 27,5% no dia 1; 16,3% no dia 7; 24,6% aos 14 dias e 22,5% aos 21 dias. Esse resultado demonstra que ao final da primeira semana a matéria seca das fezes foi mais baixa, ou seja, as fezes estavam mais líquidas. 

Figura 3 - Média de MS fecal em cada pontuação de escore fecal de 160 bezerros amostrados nos dias 1, 7, 14 e 21 após a chegada ao bezerreiro.

Este estudo destaca que usando escore fecal observacional pode-se prever o declínio da matéria seca e, portanto, que o aumento da pontuação de fato demonstra maior gravidade do quadro de diarréia.

Existem algumas limitações a serem consideradas ao interpretar os resultados deste estudo. Primeiro, os animais eram aleitados com diferentes concentrações de substituto lácteo ao longo do período experimental o que pode gerar alterações no escore fecal entre os dias de avaliação, uma vez que tanto o volume quanto o teor de sólidos da dieta líquida interferem na fluidez das fezes. Além disso, a amostragem pontual pode não representar a variação diária da consistência fecal, ao seja, seria necessário coletar mais amostras em um período de 24 horas.

Comentários
Os resultados do escore e da matéria seca demonstram algo importante quanto a ocorrência de diarreia e suas particularidades. As fezes foram mais líquidas ao final da primeira semana. Mas não é mais comum entre a segunda e terceira semana de vida? Sim, em partes. Diarreia em bezerros não é uma “ciência exata” e como destacamos, além de poder ser causada por inúmeros patógenos, é também função da dieta líquida e do manejo alimentar dos animais.

Existem de fato correlações mais comuns, relacionadas a idade do animal, e cor e odor das fezes, mas passam longe de serem regras. As infecções geralmente são mais complexas, envolvem mais de um patógeno, podem apresentar infecções oportunistas, e até mesmo serem desencadeadas por erros de manejo. A ocorrência é bastante variável entre propriedades pois depende de seus desafios particulares.

Cada caso é um caso, não existe receita de bolo. Por esse motivo, o escore fecal é um indicador que pode auxiliar muito, pois ajuda a entender o que acontece no seu bezerreiro.

Já pensou em utilizar essa ferramenta para gerenciamento? Quando os bezerros apresentam mais diarreia? Com que idade? Esse padrão se mantém ao longo de todo o mês, de todo o ano? As melhorias que venho fazendo no pré-parto, nas instalações, quanto a higiene e colostragem, estão refletindo positivamente em melhorias dos episódios de diarreia? O tratamento vem sendo eficaz? Essa simples ferramenta pode trazer muitas respostas, basta saber utilizá-la.

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Referências
Larson, L. L., F. G. Owen, R. D. Albright, R. D. Appleman, R. C. Lamb, and L. D. Muller. 1977. Guidelines toward more uniformity in measuring and reporting calf experimental data. J. Dairy Sci. 60:989–991.

McGuirk, S. M. 2008. Disease management of dairy calves and heifers. Vet. Clin. North Am. Food Anim. Pract. 24:139–153. 

Renaud, D. L., Buss, L., Wilms, J. N., Steele, M. A. Technical note: Is fecal consistency scoring an accurate measure of fecal dry matter in dairy calves? J. Dairy Sci. 11:10709-10714.

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

MARINA GAVANSKI COELHO

Mestranda em Ciência Animal e Pastagens, ESALQ/USP

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