A produção de leite é uma atividade que demanda rigorosos padrões de higiene para garantir a qualidade e segurança alimentar do produto final. Contudo, as rotinas diárias de limpeza da sala de ordenha, equipamentos e tanques de leite consomem volumes significativos de água, o que, em um cenário de crescentes preocupações com a escassez hídrica e a sustentabilidade ambiental, impõe um desafio aos produtores.
O uso eficiente da água nessas operações é crucial, pois permite economizar um recurso valioso sem comprometer a higiene, com isso pequenas mudanças nas técnicas e hábitos podem gerar grandes impactos, transformando a gestão da água em um diferencial para a sustentabilidade da fazenda.
Limpeza mecânica e água sob pressão
A água é um insumo essencial na fazenda de leite, não só para a hidratação dos animais, mas também e principalmente para a manutenção da higiene, da lavagem das tetas antes da ordenha à limpeza dos equipamentos após o uso, cada etapa demanda água de qualidade. O desafio reside em realizar essas tarefas de forma eficaz, removendo resíduos orgânicos e inorgânicos e eliminando microrganismos, ao mesmo tempo em que se minimiza o consumo de um recurso cada vez mais escasso e oneroso.
Um dos primeiros passos para o uso eficiente da água é a remoção prévia de resíduos sólidos, antes de iniciar a lavagem com água, é fundamental raspar ou remover manualmente o máximo de esterco e outros detritos da sala de ordenha e das superfícies. Essa ação simples reduz significativamente a quantidade de água necessária para enxaguar e desobstruir os sistemas, além de diminuir a carga orgânica que irá para o sistema de tratamento de efluentes. Utilizar rodos, pás e vassouras antes de ligar a mangueira é uma prática que deve ser incorporada à rotina.
A pressão e o tipo de bico da mangueira são fatores determinantes para o consumo de água. Mangueiras com bicos que permitem o ajuste do jato para um spray mais concentrado e com boa pressão (porém controlada para não causar respingos desnecessários) são mais eficientes do que jatos abertos e descontrolados. A alta pressão, quando usada corretamente, remove a sujeira com menos volume de água. No entanto, é importante evitar o uso de alta pressão em locais onde a sujeira pode ser espalhada, gerando a necessidade de mais limpeza. O foco deve ser direcionado à sujeira, não à dispersão da água.
Água quente e Clean-in-Place
A temperatura da água e a escolha dos detergentes também influenciam a eficiência da limpeza, agua morna ou quente (quando apropriado e seguro para o equipamento) pode ser mais eficaz na remoção de gorduras e proteínas, reduzindo o tempo de enxágue e, consequentemente, o volume de água. A seleção de detergentes específicos para a indústria láctea, que sejam eficientes na remoção de resíduos orgânicos e inorgânicos, permite que a limpeza seja feita de forma mais rápida e com menos ciclos de enxágue.
A rotina de limpeza do sistema de ordenha (CIP – Clean-in-Place) pode ser otimizada para economizar água como pelo pré-enxágue, que remove a maior parte do leite residual, é crucial. Garanta que este enxágue inicial seja feito com água em temperatura adequada e que ela seja recuperada, se possível, para reuso em outras etapas que não exijam água potável, como a lavagem externa de pisos ou pátios. Os ciclos de lavagem com detergente e sanitizante devem ser cronometrados e seguir as recomendações do fabricante do equipamento, evitando tempos excessivos que desperdiçam água.
No enxágue final, é vital garantir que todo o detergente e sanitizante sejam removidos para evitar a contaminação do leite, isso não significa usar água em excesso. Um fluxo constante e direcionado, que atinja todas as superfícies internas dos tubos e tanques, é mais eficaz do que um volume grande de água mal direcionado.
Manutenção dos equipamentos e outras medidas para economia de água
A manutenção preventiva dos equipamentos é uma medida indireta, mas fundamental, para a economia de água. Vazamentos em tubulações, bombas ou mangueiras podem resultar em perdas significativas de água ao longo do dia e a inspeção regular e o reparo imediato de quaisquer vazamentos evitam o desperdício silencioso, mas constante. Da mesma forma, sistemas de limpeza que não funcionam corretamente podem exigir ciclos adicionais, gastando mais água.
O treinamento e conscientização da equipe são elementos-chave pois todos os colaboradores envolvidos na rotina de limpeza devem compreender a importância do uso eficiente da água e serem capacitados nas melhores práticas. Promover uma cultura de economia de água na fazenda, incentivando a responsabilidade individual e coletiva, pode gerar resultados surpreendentes. Pequenos gestos de cada funcionário se somam a uma economia considerável.
A reutilização de água de refrigeração do tanque de leite é uma prática altamente recomendável, a água utilizada para resfriar o leite geralmente sai do sistema em uma temperatura ligeiramente elevada, mas ainda limpa e potável. Essa água pode ser direcionada para bebedouros dos animais, ou para o pré-enxágue de equipamentos, ou até mesmo para a limpeza de pisos e pátios, substituindo o uso de água fresca.
Finalmente, a adoção de tecnologias de ponta, como sistemas de limpeza com bicos rotativos de alta eficiência para tanques ou equipamentos de limpeza a seco para algumas superfícies, pode representar um investimento inicial, mas oferece retornos significativos em termos de economia de água a longo prazo. Além disso, a medição do consumo de água por meio de hidrômetros dedicados à sala de ordenha permite que o produtor monitore seu uso, identifique gargalos e avalie a eficácia das medidas implementadas.
O uso eficiente da água na limpeza da ordenha e equipamentos é um componente essencial da sustentabilidade na fazenda de leite. Ao implementar técnicas simples como a remoção prévia de resíduos, o ajuste de jatos e pressões, a escolha inteligente de produtos e a manutenção de equipamentos, além de investir na conscientização da equipe e na reutilização da água, os produtores podem reduzir drasticamente seu consumo hídrico.
Agradecimentos: À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (Processo n. 303505/2023-0), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG) Chamada Pública FAPEG n. 21/2024 - Programa de Auxílio à Pesquisa Científica e Tecnológica - Edição 2024, Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e IF Goiano - Campus Rio Verde pelo apoio financeiro a realização da pesquisa.
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