Reduzir o medo das vacas pode aumentar a produção de leite
Sistemas de produção: Todos nós sabemos que o estresse é prejudicial ao desempenho principalmente quando se trata de rebanhos leiteiros. Há mais de 100 anos, WD Hoard, fundador da "Hoard´s Dairyman" já havia escrito que pessoas que trabalham com vacas leiteiras devem ter muita paciência. Por Rafaela Carareto (Profa. Dra. Universidade de Brasília - UnB).
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Com o passar dos anos, mais estudos foram desenvolvidos para documentar os efeitos prejudiciais do manejo inadequado aos animais. Alguns estudos relatam que ao bater em uma vaca esta pode ter queda de até 10% na produção de leite. Outros estudos como do australiano Paul Hemsworth, mostraram que vacas mansas produziam mais leite que animais mais agitados. E que as vacas que possuíam por algum motivo medo, eram menos produtivas e este medo podia se medido, por exemplo, pelo grau de inquietação do animal na sala de ordenha; quando a vaca evitava alguma pessoa ou então quando ficava inquieta quando estava próxima a determinado indivíduo.
Formação da memória medo...
O que faz uma vaca ter medo das pessoas? Será que uma vaca possui memória do medo? Sim. Pesquisas sobre o cérebro feitas por Joseph LeDoux da Universidade de Nova York mostram que os animais possuem excelentes lembranças, tanto de coisas boas, como de coisa ruins. E que as memórias do medo podem nunca mais serem apagadas, são, portanto permanentes. Estas memórias do medo ficam armazenadas em uma parte específica do cérebro chamada amígdala.
Com o passar do tempo os animais podem aprender a substituir uma memória de medo e tornar-se mais acostumado com o local ou situação que lhe resultou em uma experiência assustadora. Mas eles só podem substituir e nunca apagar a lembrança ou memória do medo, logo em nossa rotina diária de manejo, temos que dar ênfase na prevenção de situações que possam a levar o animal a ter ou ficar com medo.
As situações mais comuns que podem causar medo nos animais a ponto de criar uma memória são relacionadas a lugares, a objetos estranhos, ou a ambos. Exemplo: medo de uma pessoa com um tipo de vestuário associado a uma experiência dolorosa ou assustadora.
No caso específico de propriedades leiteiras, seria muito prejudicial se uma vaca ficasse com medo da sala de ordenha. Por isso é essencial que a primeira experiência das novilhas na sala de ordenha seja sem nenhum tipo de estresse. Se uma vaca escorrega, cai, toma choque ou é batida na primeira vez que entra em uma sala de espera ou de ordenha ela pode desenvolver uma memória do medo que será acionada toda vez que este animal retornar a estes lugares.
"Vacas não reconhecem os rostos humanos, reconhecem lugares, cheiros, vozes, vestuário e certos objetos" - Temple Grandim
Apresentando as novilhas para a sala de ordenha...
Os cuidados para que novilhas não se tornem vacas assustadas devem começar quando esta ainda for uma bezerra. Estudo francês mostra que bezerras jovens que foram tratadas por pessoas calmas, tranquilas, sem estresse, se tornam vacas adultas mais calmas e com menor zona de fuga (Veja matéria relacionada a zona de fuga ).
Uma dica de manejo interessante e fácil de ser aplicada: se o tratador (a) das bezerras for uma pessoa extremamente calma e paciente, peça para que ele e o ordenhador usem diariamente uma roupa ou um acessório igual, como por exemplo, um avental, jaleco, macacão, chapéu ou boné. Ao fazer isto as bezerras irão guardar uma boa memória destes acessórios e ao entrarem na sala de ordenha associarão estes objetos a um ambiente agradável, familiar e seguro.
O ideal é que novilhas conheçam os lugares novos como a sala de espera e a sala de ordenha da maneira mais natural possível. Em rebanhos pequenos esta primeira visita pode ser inclusive de maneira voluntária, deixando que os animais explorem os ambientes inéditos de acordo com a sua vontade. Outra opção, em rebanhos maiores, é que estes novos lugares sejam apresentados durante a rotina da fazenda como, por exemplo, antes de passarem pelo pé dilúvio ou realizar uma pesagem, porém neste caso a atividade tem que ser realizada com muita calma, pois caso contrário, poderá causar medo e trauma que não serão mais esquecidos pelos animais.
Às vezes, as vacas precisam de certos cuidados veterinários, como injeções, tratamento de caso de feridas no úbere e etc. O ideal é que estes procedimentos NUNCA sejam feitos na sala de ordenha, pois se isso acontecer, os animais poderão associar a sala de ordenha a dor, medo e estresse. Eu sei que isto na prática é muito difícil de acontecer, ou por falta de infraestrutura, ou mesmo pela facilidade e praticidade de aproveitar o animal que já está ali na sala de ordenha "no jeito" de ser medicado. Se isto vier a ocorrer, peça pelo menos que o ordenhador use no apenas momento do tratamento um acessório bem diferente do que usa na ordenha, como por exemplo, outro boné, chapéu, ou um avental de cor diferente. Isto fará com que o animal associe o medo e o estresse ao objeto estranho e não somente a sala de ordenha. Mas para isto funcionar nenhum outro funcionário da fazenda deve usar o mesmo acessório ou outros parecidos.
Para finalizar, deixo aqui uma mensagem de Hoard WD:
"A regra a ser seguida em todos os momentos e para todos animais, gado jovem, adulto ou velho é ter paciência e bondade. Um homem deixa ser útil em um rebanho quando perde a paciência ou é rude com os animais. Os homens devem ser pacientes, gado não são seres racionais. Lembrem-se o estábulo e a sala da ordenha é como a Casa das Mães, portanto trate cada vaca como uma mãe deve ser tratada. A produção e a descida do leite se dão em razão da maternidade, o tratamento rude diminui o fluxo de leite. Mantenha sempre essas ideias em mente para lidar com o seu rebanho" Hoard WD.
Referências
- ALBRIGHT, J. L. Social considerations in grouping cows. In: Wilcox, C.J.; Van Horn, H.H. Large Dairy Herd Management. Ed. University Press of Florida, Gainesville, p.757-779, 1978.
- ALBRIGHT, J. L., ARAVE, C.W. The Behaviour of Cattle. CAB International, Cambridge, UK, 1997.
- ARAVE, C.W.; ALBRIGHT, J.L. Cattle Behavior. Journal of Dairy Science, v.64, p.1318-1329, 1981.
- http://www.hoards.com/
Material escrito por:
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CARLOS CHAGAS - TOCANTINS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 27/12/2017
aprendi que saõ inteligentes e que aprendem a rotina muito rápido....
tema muito interessante obrigado a todos....
JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 04/06/2012
Um abraço,
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG
=HÁ SETE ANOS CONFINANDO QUALIDADE=

PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL - PESQUISA/ENSINO
EM 30/05/2012
PETERS, Mônica Daiana de Paula ; SILVEIRA, I. D. B. ; RODRIGUES, Caroline Moreira . Interação humano e bovino de leite. Archivos de Zootecnia (Universidad de Córdoba), v. 56, p. 9-23, 2007.
Mais detalhes na dissertação de mestrado.

TOLEDO - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 29/05/2012

CARAMBEÍ - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 29/05/2012
PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 29/05/2012

GASPAR - SANTA CATARINA - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 28/05/2012
JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 28/05/2012
Utilizo este termômetro sempre que estou dentro das instalações de minha propriedade e verifico, "in loco", que os animais não estão estressados e que a presença dos seres humanos não é vista por eles como uma ameaça.
Por lado outro, a "memória do medo" existe mesmo. Já tive uma novilha que não podia ver o meu Médico Veterinário que se apavorava, mas, em relação aos demais integrantes da equipe, em nada alterava a sua presença. Só podemos atribuir este estado de coisas à lembrança de alguma intervenção dolorosa efetivada pelo mesmo na rês, em tempos idos. É até engraçado - basta ele chegar para que ela modifique seu estado de ânimo.
Parabéns e obrigado por mais esta lição.
Um abraço,
GUILHERME ALVES DE MELLO FRANCO
FAZENDA SESMARIA - OLARIA - MG
=HÁ SETE ANOS CONFINANDO QUALIDADE=