Produção de ovinos e caprinos em pastagens: hábito alimentar dos animais
O manejo eficiente da pastagem exige a compreensão do papel de todos os componentes envolvidos no sistema. Dentro deste contexto, o grande desafio imposto ao criador, que utiliza o sistema de produção em regime de pasto, é manejar o sistema para maximizar a produção, a utilização do pasto e a produtividade animal. O primeiro passo para vencer esse desafio é respeitar as interações existentes entre o ambiente da pastagem e o animal, o que somente será atingido após o conhecimento dos diversos aspectos relacionados ao animal, ao solo e à planta forrageira utilizada.
Publicado em: - 5 minutos de leitura
O uso de pastagens na alimentação de ovinos e caprinos apresenta vantagens econômicas. Entretanto, a rentabilidade do sistema de produção baseado no uso de forrageiras depende, em grande parte, da eficiência da conversão da massa de forragem consumida em produto animal.
O manejo eficiente da pastagem exige a compreensão do papel de todos os componentes envolvidos no sistema. Dentro deste contexto, o grande desafio imposto ao criador, que utiliza o sistema de produção em regime de pasto, é manejar o sistema para maximizar a produção, a utilização do pasto e a produtividade animal. O primeiro passo para vencer esse desafio é respeitar as interações existentes entre o ambiente da pastagem e o animal, o que somente será atingido após o conhecimento dos diversos aspectos relacionados ao animal, ao solo e à planta forrageira utilizada.
Neste texto será abordado os aspectos relacionados ao hábito alimentar dos animais, uma vez que este fator determina a capacidade do animal de explorar o ambiente da pastagem e ingerir alimento necessário para máxima produção.
Hábito alimentar dos animais
A colheita da forragem pelo animal compreende as atividades de apreensão de parte da planta pela boca por meio de movimentos da cabeça, mandíbula, língua e lábios. Uma característica muito importante em relação ao hábito alimentar dos ovinos e caprinos em relação aos bovinos é a seletividade durante a colheita.
Animais em pastejo são seletivos em escolher o que irão consumir e, geralmente, levam em consideração a qualidade da forragem em detrimento da quantidade de biomassa disponível. Segundo o NRC (2007), os animais priorizam plantas ou partes da planta que apresentam maior digestibilidade, maior concentração de proteína e baixa presença de compostos secundários. Desta forma, a planta forrageira utilizada, bem como a estrutura do pasto, interfere diretamente na atividade de pastejo ao longo do dia e no desempenho dos animais.
Os caprinos são mais seletivos que os ovinos e estes que os bovinos, o que altera o comportamento ingestivo dos animais e a maneira que estes exploram a ambiente do pasto. As razões pelas quais os ovinos e caprinos selecionam uma dada planta, ou parte dela, estão relacionadas aos parâmetros morfológicos como tamanho do corpo, capacidade do estômago, peso do animal, tamanho da boca e anatomia labial. Diferentemente dos bovinos, os ovinos e caprinos apresentam mobilidade dos lábios superiores, o que facilita a apreensão de partes selecionadas das forragens. Além disso, a utilização conjunta dos lábios, dentes e língua possibilita a realização de pastejo rente ao solo. Os bovinos utilizam a língua como principal órgão de apreensão dos alimentos, por isto apresentam certa dificuldade na apreensão de partes menores das forragens, tornando a seleção menos eficiente. Carnevalli et al. (2000) avaliaram o comportamento ingestivo de ovinos submetidos à pastagem de "florakirk" e verificaram altas proporções de folhas em relação a hastes na composição morfológica da forragem consumida.
Sabe-se que os ovinos e caprinos não pastejam continuamente, tendo seus ciclos de pastejo interrompidos por períodos de descanso e ruminação. Normalmente, os maiores períodos de pastejo ocorrem no início da manhã e entre o final da tarde e o anoitecer. Zanine et al. (2006) apontam que ovinos e caprinos apresentam, de forma geral, tempo de pastejo entre 6:00 e 11:00 horas diárias, com picos de pastejo e ruminação em horários de temperaturas mais amenas, permanecendo em descanso nos horários mais quentes do dia como estratégia de melhor aproveitamento energético do alimento.
De acordo com Andrigueto (1983), ovinos são animais que fazem a seleção no pastejo preferindo os pastos mais finos e tenros, desprezando os grosseiros. Os ovinos dão preferência a gramíneas de porte médio ou baixo. Em pastagens com plantas de porte mais elevado, altura acima de 0,80 cm, os animais tendem a explorar as áreas marginais, resultando em sub-aproveitamento da forragem nas áreas centrais. Nesse sentido, as plantas estoloníferas apresentam melhores condições de resistir ao tipo de pastejo praticado pelos ovinos, inclusive quanto à coleta de forragem altamente selecionada.
Considerando a seletividade do ovino, não é conveniente estabelecer pastagens com diferentes espécies de gramíneas, pois a aceitabilidade recairá naquela com maior valor nutritivo. Além disso, ao se estabelecer uma pastagem deve-se utilizar uma única forrageira por piquete, de preferência gramíneas estoloníferas e rizomatosas, com altura e densidade adequada para maximizar a ingestão em menor espaço de tempo.
Quando a massa de forragem diminui, o tempo de pastejo aumenta em decorrência de período mais longo de procura e seleção de alimentos pelos ovinos e caprinos. Sendo assim, pastagens que apresentam escassez de forragem muito grande ou pastos manejados com resíduo de pastejo muito baixo podem gerar problemas, uma vez que o animal reduz a ingestão e aumenta o gasto de energia na procura de alimento.
Considerando que o comportamento animal é um importante componente no sistema de produção animal à pasto e que influencia na capacidade de colheita da massa de forragem produzida, deve-se adequar o estabelecimento e manejo das plantas forrageiras ao hábito alimentar do animal, de maneira que este consiga explorar o ambiente da pastagem e suprir sua capacidade máxima de ingestão no menor espaço de tempo possível.
Referências bibliográficas
Andriguetto, J. M. et al. Nutrição Animal. Ed. Nobel, 2° ed. São Paulo, 1983. 395p.
Carnevalli, R. A.; Silva, S. C.; Carvalho, C. A. B.; Sbrissia, A. F.; Fagundes, J. L.; Pinto, L. F. M.; Pedreira, C. G. S. Desempenho de ovinos e respostas de pastagens de "florakirk" (Cynodon spp.) submetidas a regimes de desfolha sob lotação contínua. Boletim da indústria Animal, v. 57, n.01, p. 53-63, 2000.
National Research Council. Nutrient requirements of small ruminants. Washington: National Academic Press, 2007. 292p.
Van Soest, P.J. Nutritional ecology of the ruminant, 2 ed. Ithaca:Cornell University Press, 1994. 476 p.
Zanine, A.M.; Santos,E. M.; Ferreira, D.J.; Graña, A.L.; Graña, G.L. Comportamento ingestivo de ovinos e caprinos em pastagens de diferentes estructuras morfológicas. Revista Electrónica de Veterinaria REDVET ®, v. 7, nº 03, 2006. Disponível em http://www.veterinaria.org/revistas/redvet
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Material escrito por:
Clayton Quirino Mendes
É colaborador do Agripoint como instrutor do curso Princípios da Nutrição de Caprinos e Ovinos de Corte e escreve artigos técnicos para seções Nutrição e Pastagem.
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ELÓI MENDES - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 18/03/2010
Achei sua pergunta muito interessante e antes de respondê-la resolvi me aprofundar um pouco mais no assunto. Como as variações são muito grandes, em função das dimensões e peculiaridades da produção animal nas diversas regiões do país, optei por elaborar um artigo técnico com o intuito de responder sua questão.
O artigo será publicado na seção pastagens, no dia 22/03/2010.
Obrigado por prestigiar o FarmPoint ela participação!
Att,
CQMendes - Cirilo
PRESIDENTE PRUDENTE - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE OVINOS
EM 04/03/2010