A mastite bovina, processo inflamatório da glândula mamária, está entre os maiores desafios da bovinocultura de leite. Além de comprometer a saúde e o bem-estar dos animais, provoca perdas econômicas significativas para o produtor. Trata-se de uma enfermidade multifatorial, que pode ser desencadeada por traumas, alterações metabólicas ou agentes infecciosos, sendo as bactérias Streptococcus agalactiae e Staphylococcus aureus as mais frequentemente associadas à doença (Lopes et al., 2017).
As mastites podem se manifestar nas formas clínicas ou subclínicas. Na forma clínica, os sinais são evidentes: no leite, observam-se grumos, pus, aspecto aquoso ou alterações de coloração; no úbere, há inchaço, dor, calor e vermelhidão, permitindo a identificação durante o exame clínico de rotina. Já a mastite subclínica ocorre de forma silenciosa e só pode ser detectada por testes específicos, como o California Mastitis Test (CMT), também conhecido como Teste da Raquete, que estima a contagem de células somáticas; a contagem de células somáticas (CCS) realizada em laboratório, que fornece um parâmetro quantitativo do grau de inflamação da glândula mamária; e a cultura microbiológica, utilizada para a identificação do agente infeccioso.
Impactos econômicos
Além dos prejuízos à saúde e ao bem-estar animal, a mastite bovina gera impactos econômicos diretos sobre a produtividade e a rentabilidade do rebanho. Estudos demonstram que vacas mestiças Holandês × Zebu com mastite subclínica podem perder entre 814 e 1.178 kg de leite por lactação, o que representa mais de R$ 2.000,00 em perdas por animal (Costa et al., 2017).
Em propriedades de Santa Catarina, a mastite subclínica já foi responsável por reduções mensais de até 15 mil litros de leite, com impacto financeiro estimado em R$ 37.500,00 (Niero et al., 2022). Esses dados reforçam a importância do diagnóstico precoce, da prevenção e de tratamentos que minimizem perdas e contribuam para a sustentabilidade da atividade.
Tratamentos
O tratamento da mastite é desafiador, pois exige não apenas o controle do agente infeccioso, mas também a recuperação da função mamária e a redução dos prejuízos econômicos. Protocolos convencionais, baseados principalmente no uso de antimicrobianos, apresentam limitações relacionadas à resistência bacteriana, à presença de resíduos no leite e ao descarte da produção durante o período de carência.
Além do uso de antibióticos sistêmicos ou intramamários, é comum a adoção de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) para o controle da dor e da inflamação, a ordenha frequente do quarto mamário afetado e a aplicação de soluções antissépticas para prevenir infecções secundárias. Essas medidas de suporte reforçam que o controle da mastite deve ser conduzido de forma multifatorial.
Ozonioterapia
Nesse contexto, a ozonioterapia tem ganhado destaque como uma alternativa terapêutica promissora. O ozônio (O³) possui propriedades antimicrobianas, anti-inflamatórias e regenerativas, atuando diretamente sobre bactérias e modulando os processos inflamatórios do tecido mamário. Diferentemente dos antibióticos, não deixa resíduos químicos no leite, o que o caracteriza como uma opção segura e sustentável (Duricic et al., 2015).
As formas de aplicação incluem a infusão de soluções ozonizadas ou a insuflação direta do gás na glândula mamária. Estudos indicam que essa técnica pode reduzir a contagem de células somáticas em até 70%, acelerar a recuperação clínica e diminuir a dependência do uso de antibióticos (Arévalo et al., 2021; Carrijo Pereira e Garcia, 2006; Enginler et al., 2015; Nascente et al., 2019). Os mecanismos de ação estão associados aos efeitos analgésicos, anti-inflamatórios, antioxidantes e imunomoduladores do ozônio (Silva et al., 2022; Wakade et al., 2025).
O ozônio também pode ser utilizado como ferramenta de sanitização, por ser um composto químico seguro para vacas. Quando dissolvido em água, pode ser aplicado em forma de spray para limpeza, higienização e desinfecção dos tetos antes da ordenha. Nessa condição, não é agressivo à pele e contribui para a saúde dos tetos, promovendo melhor sanitização, redução da carga bacteriana na ordenhadeira, menor contaminação cruzada e diminuição do risco de doenças no rebanho (Figura 1).
Figura 1. Lavagem e higienização dos tetos de vacas leiteiras com ozônio.
Fonte: https://www.oxidationtech.com/applications/agri-food/dairy.html
Além da ação antimicrobiana, o ozônio promove benefícios regenerativos e imunomoduladores, ao estimular a circulação local, melhorar a oxigenação dos tecidos e favorecer a cicatrização. Fora do contexto da mastite, seu uso vem sendo estudado no tratamento de feridas, afecções reprodutivas, cutâneas e articulares, ampliando seu potencial terapêutico na medicina veterinária (Sumida e Hayashi, 2022).
O avanço dos estudos e da aplicação da ozonioterapia também abre novas oportunidades de atuação profissional para médicos-veterinários, especialmente em clínicas de bovinos leiteiros, pesquisa e desenvolvimento de protocolos inovadores. Trata-se de um campo recente e promissor, no qual o manejo correto, a dosagem adequada e a avaliação contínua da resposta clínica são fundamentais para garantir segurança, eficácia e sustentabilidade. Dessa forma, a ozonioterapia se apresenta não apenas como alternativa no tratamento da mastite, mas também como ferramenta alinhada a práticas modernas de produção.
Prevenção e controle
Mesmo com novas alternativas terapêuticas, a prevenção da mastite continua sendo a estratégia mais eficaz e econômica. O manejo adequado reduz o risco de novas infecções e garante maior eficiência dos tratamentos. Algumas medidas fundamentais incluem:
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Rotina correta de ordenha e desinfecção dos tetos: adoção de pré-dipping e pós-dipping com soluções antissépticas e ordenha de vacas sadias antes daquelas com mastite clínica ou subclínica.
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Higienização e manutenção dos equipamentos: equipamentos mal higienizados podem formar biofilmes (microrganismos que se aderem a superfícies e são envolvidos por uma matriz pegajosa e gelatinosa) e se tornar fontes de infecção, comprometendo a qualidade do leite.
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Identificação e descarte de animais crônicos: vacas que não respondem a sucessivos tratamentos devem ser descartadas para evitar a disseminação da doença.
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Ambiente limpo e confortável: pisos secos, camas higienizadas e fornecimento de alimento após a ordenha reduzem o risco de contaminação e mantêm as vacas em pé até o fechamento do esfíncter do teto.
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Manejo nutricional adequado: dietas balanceadas fortalecem a imunidade e aumentam a resistência aos patógenos.
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Monitoramento constante com testes de diagnóstico: o uso diário da caneca de fundo preto possibilita a identificação precoce de casos clínicos, enquanto o CMT, realizado periodicamente, auxilia no controle da mastite subclínica, evitando sua disseminação no rebanho.
A mastite bovina permanece como um dos principais desafios da bovinocultura leiteira, devido à sua complexidade clínica e ao impacto econômico sobre a produção. O controle eficaz da doença depende do diagnóstico precoce, de tratamentos baseados em exames microbiológicos e antibiogramas, do descarte criterioso de animais crônicos e, sobretudo, da adoção rigorosa de práticas preventivas durante a ordenha.
A ozonioterapia surge como alternativa promissora, com potencial para reduzir o uso de antibióticos e contribuir para sistemas de produção mais sustentáveis e seguros. O sucesso na prevenção e no controle da mastite está diretamente ligado à adoção consistente de boas práticas de manejo, aliado à conscientização dos produtores e à integração entre sanidade, nutrição e bem-estar animal.
Autores:
Ana Luísa de Souza Millan Cesar - Discentes do curso de Medicina Veterinária, UFRRJ, Membros LiBovis;
Carolina Emiliano Bastos Polido - Discentes do curso de Medicina Veterinária, UFRRJ, Membros LiBovis;
Ana Paula Lopes Marques - Orientadora, LiBovis – UFRRJ
Referências bibliográficas
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