Esclarecendo 6 dúvidas sobre o manejo da cama no Compost Barn

O manejo adequado da cama no Compost Barn é importante para a compostagem eficiente e o conforto animal. Confira 6 dúvidas esclarecidas sobre o sistema de confinamento!

Publicado em: - 9 minutos de leitura

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O manejo da cama do Compost Barn é um aspecto essencial para garantir o bem-estar animal, a eficiência do sistema de compostagem e a sustentabilidade econômica do sistema. Para complementar as discussões levantadas no Interleite Sul 2014 e às perguntas já respondidas sobre a palestra Cuidados essenciais com o manejo e alternativas para a cama do Compost Barn, a zootecnista Karise Nogara respondeu a 6 dúvidas enviadas pelos participantes, que podem ajudar produtores a superar desafios no manejo do Compost Barn.

1. Qual outro material, além da serragem e maravalha, você indica para a região oeste de Santa Catarina? 

Na escolha de materiais para a cama em sistemas de Compost Barn, é fundamental considerar fatores como conforto animal, características físico-químicas (relação C:N, granulometria e capacidade de absorção de água), custo e disponibilidade local. Para a região oeste de Santa Catarina, além da serragem e maravalha, é possível utilizar outros materiais, especialmente resíduos agrícolas e agroindustriais abundantes na região. Escolher materiais abundantes na região reduz custos logísticos e operacionais, tornando a solução mais sustentável para o produtor.  

Exemplos de Materiais Alternativos

  • Palhadas (resíduos de cereais)  

São viáveis, mas a granulometria deve ser ajustada. Materiais muito grosseiros podem retardar o início da decomposição, sendo necessário um processamento prévio (trituração e secagem). Misturar palhadas com serragem ou maravalha melhora o revolvimento, a absorção de água e a uniformidade da cama.  Ex.: Casca de aveia, palhada de soja, trigo e/ou milho, sabugo de milho triturado etc.

  • Bagaço de Cana 

Destaca-se por sua boa capacidade de absorção de água. Suas partículas longas podem ser estruturantes físicos, mas a trituração é recomendada para facilitar a degradação e a manipulação.

  • Casca de Café  

Apresenta boa granulometria, o que favorece a entrada de oxigênio entre as partículas, além de boa capacidade de retenção de água. Pode ser usada em mistura, com proporções de 30% a 50% combinadas com serragem ou maravalha. Deve estar bem seca para maximizar a absorção e deve ser revolvida regularmente para evitar compactação. 

  • Casca de Amendoim

Possui boa capacidade de absorção de umidade e estrutura resistente à compactação devido à sua textura grosseira. No entanto, sua degradação é rápida, exigindo reposições mais frequentes para manter a funcionalidade da cama.  

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Restos de culturas vegetais, como palhas de trigo, cevada, centeio, sorgo, milho (finamente moída), feijão e soja, podem ser utilizados em sistemas de compostagem (MOTA et al., 2019; DAMASCENO, 2020). Na região noroeste do Rio Grande do Sul, por exemplo, é comum o uso de resíduos de cereais, como a casquinha de aveia, especialmente em períodos de baixa disponibilidade de serragem e maravalha.

Esses materiais são alternativas viáveis para a cama de Compost Barn, devido à sua ampla disponibilidade em diferentes regiões do país. Contudo, é recomendado misturá-los com materiais tradicionais, como serragem e maravalha, para melhorar a capacidade de absorção de umidade e facilitar o manejo. 

Resíduos como o sabugo de milho picado e a palha de soja apresentam bom desempenho no processo de compostagem, mas é importante atentar ao tamanho das partículas (menores que 2,5 cm) para garantir maior retenção e absorção de água, contribuindo para a secagem da cama.  

Além disso, práticas de manejo como revolver a cama de duas a três vezes ao dia e utilizar sistemas de ventilação são fundamentais para manter a cama seca e confortável. A combinação de diferentes materiais é uma estratégia eficaz, pois equilibra a relação carbono/nitrogênio e melhora a estrutura física da cama.  

Com a escolha adequada dos materiais e um manejo eficiente, é possível adaptar a cama às condições locais, garantindo o conforto dos animais, a eficiência do sistema de compostagem e a durabilidade dos materiais utilizados.

2. O armazenamento da serragem, que vem com certa umidade impacta na multiplicação de bactérias indesejáveis? 

Sim, o armazenamento da serragem com umidade excessiva pode impactar negativamente no processo de compostagem da cama. Quando a serragem já chega úmida, ela não contribui adequadamente para a secagem da cama, e, além disso, pode introduzir bactérias indesejáveis no sistema. A umidade excessiva favorece a proliferação de microrganismos que não são benéficos para a compostagem, comprometendo a eficácia do processo e criando condições favoráveis para a ocorrência de mastite clínica, principalmente causada por patógenos ambientais.  

Portanto, é recomendado que a serragem tenha um teor de umidade inferior a 18% e que sua granulometria seja adequada, com partículas de aproximadamente 3 cm. Ao escolher materiais, deve-se priorizar aqueles que sejam secos, de boa qualidade e com granulometria uniforme, para garantir que a cama tenha as condições ideais para a compostagem e para a saúde do rebanho. Isso ajuda a minimizar riscos de contaminação e a garantir que a cama desempenhe suas funções de forma eficiente e segura.

3. Há relatos de aumento em alguns problemas de casco em sistema de compostagem, como a formação de tilomas. Há relação? 

Sim, há uma relação quando camas estão muito úmidas. Nestas situações há maior presença de patógenos, como fungos e bactérias, que podem comprometer a saúde animal, favorecendo o surgimento de lesões nos cascos. A proliferação de fungos pode levar à formação de tilomas, que são áreas endurecidas ou calosas nos cascos. Além disso, a umidade excessiva dos materiais utilizados na reposição da cama, como a casca de amendoim, pode agravar esses problemas. Essa umidade cria um ambiente propício para o desenvolvimento de dermatite digital papilomatosa, uma infecção bacteriana que causa lesões dolorosas e impacta o bem-estar e a produtividade dos animais. Portanto, é fundamental adotar um manejo adequado da cama, com rigoroso controle da umidade e seleção criteriosa dos materiais utilizados.

Além disso, o manejo preventivo, como a inspeção regular dos cascos e a realização de casqueamento, é indispensável para a saúde dos animais. Observar a locomoção das vacas também é essencial: sinais como arqueamento ao caminhar podem indicar dor, frequentemente associada a irregularidades na cama ou a problemas secundários decorrentes dela. Monitorar esses aspectos permite identificar e corrigir problemas precocemente, promovendo o bem-estar animal e a eficiência do sistema de manejo.

4. Qual a sua opinião sobre o uso de secadores para cama?

O uso de secadores para cama pode ser uma ferramenta eficaz no manejo de sistemas de Compost Barn, especialmente em condições de alta umidade ou desafios climáticos que dificultam a secagem natural da cama. Em situações como essas, o secador pode ajudar a prevenir problemas como compactação, proliferação de patógenos e odores indesejáveis, contribuindo para a saúde dos animais e reduzindo lesões nos cascos. No entanto, é importante considerar que o investimento inicial, bem como o consumo de energia elétrica ou combustível, pode ser elevado. Além disso, se os secadores deixarem a cama excessivamente seca, isso pode comprometer o processo de compostagem, tornando as partículas muito finas e afetando a qualidade do ar no galpão. Portanto, o uso de secadores deve ser cuidadosamente planejado, com base em análises econômicas e nas necessidades específicas da propriedade, já que o manejo adequado da cama, por si só, pode trazer bons resultados.

5. Qual sua opinião no uso de Compost Barn em sistemas fechados com ventilação cruzada. Qual o impacto da umidade do sistema de ventilação cruzada na cama? 

O uso de Compost Barn em sistemas fechados com ventilação cruzada é uma alternativa eficiente para melhorar o conforto animal e otimizar o controle do microclima, especialmente em regiões com condições climáticas extremas, como calor intenso, alta umidade ou invernos rigorosos. Este modelo proporciona maior controle da temperatura e umidade dentro da instalação, reduzindo a temperatura ambiente em cerca de 10°C em comparação ao exterior. Esses fatores ajudam a prevenir a proliferação de microrganismos patogênicos, como os causadores de mastite ambiental e lesões de casco, promovendo o bem-estar dos animais e, consequentemente, aumentando a produtividade e a longevidade do rebanho.

No entanto, sistemas fechados com ventilação cruzada exigem um planejamento cuidadoso e manejo criterioso. Investimentos iniciais elevados são necessários, assim como a manutenção constante do fluxo de ar e a regulação da ventilação, para evitar problemas como acúmulo de gases e áreas de alta umidade. Quando bem projetado e manejado, o sistema se torna uma solução promissora para sistemas leiteiros de alta performance que buscam aliar produtividade com bem-estar animal.  

Impacto da umidade no sistema de ventilação cruzada sobre a cama

A umidade em sistemas de ventilação cruzada tem um impacto direto na qualidade da cama no Compost Barn. Uma ventilação eficiente é essencial para controlar a umidade ambiente, facilitando a secagem da cama e reduzindo a formação de condições favoráveis à proliferação de fungos, bactérias e maus odores. Além disso, evita a compactação da cama, mantendo sua capacidade de compostagem e garantindo o conforto dos animais. 

Quando o sistema de ventilação é insuficiente ou mal projetado, a umidade relativa elevada dificulta a evaporação da água na cama, comprometendo o processo de compostagem e criando áreas úmidas que os animais evitam deitar-se. Isso afeta o bem-estar, a saúde e a produtividade do rebanho, além de reduzir a durabilidade dos materiais utilizados.  

Por outro lado, uma ventilação cruzada bem ajustada mantém o fluxo de ar adequado, minimizando a umidade e melhorando as condições térmicas dentro da instalação. Para otimizar o sistema, é fundamental evitar erros de projeto, como obstruções no fluxo de ar causadas por má localização de blocos estruturais. Áreas com baixa ventilação podem ser corrigidas com a instalação de defletores de ar na saída dos blocos para redirecionar o fluxo em direção ao solo, ajudando no processo de secagem da cama.  

Baixas velocidades do fluxo de ar estão associadas ao aumento da temperatura, enquanto velocidades superiores a 3 m/s não trazem melhorias significativas no conforto térmico. No entanto, velocidades elevadas podem reduzir o estresse térmico ao aumentar a transferência de calor entre os animais e o ar.  Portanto, o controle efetivo da umidade no Compost Barn com ventilação cruzada depende de um projeto bem elaborado e do manejo adequado da cama, sendo crucial para o sucesso do sistema em promover produtividade e bem-estar animal.

6. Tem estudos sobre biomoduladores, produtos à base de bactérias benéficas, para melhorar a qualidade da cama do Compost Barn?

Existem poucos estudos que avaliaram produtos específicos para a cama do Compost Barn. Contudo, Zhang et al., em um artigo publicado recentemente na BMC Microbiology (2024, 24:302), apresentaram resultados promissores ao testarem uma combinação de Lactobacillus plantarum, Bacillus, e Saccharomyces cerevisiae. Os principais achados foram:  

  • Temperatura e nitrogênio total foram identificados como os principais fatores que influenciam as comunidades bacterianas e fúngicas da cama; 
  • A inoculação com microrganismos diminuiu as concentrações de materiais particulados respiráveis, reduzindo riscos de doenças respiratórias;
  • Houve aumento na fixação de nitrogênio e fósforo total, além da redução na diversidade de bactérias e fungos, otimizando o ambiente microbiano;
  • A aplicação favoreceu o metabolismo de aminoácidos e carboidratos essenciais para a compostagem eficiente.  

Além disso, a inoculação aumentou a abundância relativa de microrganismos celulolíticos, como Pseudomonas e Pestalotiopsis, o que melhorou a decomposição da matéria orgânica e acelerou a compostagem. Também desempenhou um papel protetor ao inibir microrganismos patogênicos, promovendo segurança ecológica por meio de baixos níveis de micotoxinas e altos níveis de nutrientes como fósforo e potássio.

Tem mais alguma dúvida que ainda não foi abordada? Deixe nos comentários. 
 

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Material escrito por:

Karise Fernanda Nogara

Karise Fernanda Nogara

Zootecnista formada pela UFSM/campus Palmeira das Missões/RS. Atualmente mestranda do Programa de Pós-Graduação em Zootecnia da Universidade Federal do Paraná. Trabalha com a qualidade e composição do leite e sistema de confinamento compost barn.

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