Ovinocultura leiteira: objetividade no melhoramento
Vinha evitando escrever sobre a ovinocultura leiteira pelo fato de eu mesmo ser um micro produtor de leite ovino. Fica parecendo que a gente está fazendo propaganda. Mas o assunto está tomando força e eu acredito que não é bom esperar os problemas se avolumarem para tentar solucioná-los.
Publicado em: - 4 minutos de leitura
A ovinocultura leiteira é tradicional nos países da Península Ibérica e do Oriente Médio. É muito comum encontrar em Portugal o queijinho de ovelha como abertura para o prato principal ou mesmo como "tira-gosto". Na Espanha os queijos de ovelha são maioria nas gôndolas de queijos das lojas de frios. A França então nem se fala, é grande exportadora de seus queijos de ovelha.
É estranho ver que a cultura da exploração do leite de ovelha não tenha sido transmitida para as colônias de Espanha e Portugal, nem a influência dos italianos tenha chegado a esse item da gastronomia. O fato, porém, é que a ovinocultura leiteira vem tomando força na Argentina, no Uruguai, no Chile e agora no Brasil. Negócio começando, hora de definir rumos.
Os centros de interesse da ovinocultura leiteira, no Brasil, são o Rio Grande do Sul, com alguns anos de experiência no ramo, Santa Catarina, mais recentemente, e São Paulo ainda bastante incipiente. Outras experiências isoladas têm se iniciado em Minas Gerais, Rio de Janeiro e provavelmente em outros estados. Algumas escolas têm trabalhado com ovelhas leiteiras em seus centros de ovinos, como a UNESP de Botucatu, a Universidade Federal de Lavras e a UFMG. Trabalhos vêm sendo conduzidos com ovelhas Lacaune, Bergamácia, e com a própria Santa Inês e recentemente foram introduzidos animais East Friesian (ou Milchschaf) do Uruguai.
A maioria das fazendas tem se pautado pela busca de animais com produção leiteira compatível com a exploração e algumas poucas têm trabalhado seleção de raça. Aí é que precisamos de atenção.
A importação de animais, sêmen e embriões da Europa está fechada, de forma que as fontes de genética ovina leiteira não estão disponíveis na origem. É preciso buscar os recursos genéticos na Austrália, Nova Zelândia, Argentina, Uruguai. Participei, junto com produtores de Santa Catarina, da importação de animais do Uruguai no ano passado, ao mesmo tempo acompanhei um processo de importação de sêmen ovino da Nova Zelândia. Por problemas inimagináveis com os trâmites de importação, os gastos foram muito além dos necessários. A falta de costume dos órgãos fiscalizadores com esse tipo de transação ficou muito clara. Fico até imaginando como é que acontecem tantas importações de animais, sêmen e embriões por aí... Além dessa parte desagradável, passei a observar como as pessoas têm profundamente enraizadas as noções de pureza racial e dos caracteres fenotípicos de tipo. As ovelhas e carneiros Milchschaf que vieram do Uruguai são de cruzamentos absorvendo o Corriedale. As ovelhas são ½, ¾, 7/8 e provavelmente alguma 15/16 Milchschaf /Corriedale. Os carneiros, comprados no INIA (a correspondente da Embrapa no Uruguai), são todos filhos e netos de pais importados da Austrália, e de mães de cruzamento absorvente em sucessivas gerações desde 1992. Algumas ovelhas têm aparência de Milchschaf puras, assim como alguns carneiros não têm. E daí? Muita gente vem criticando nossa importação por isso. Como é que importamos animais que não eram puros? Por que razão não importamos da Argentina, onde a raça é mais antiga e os animais são P.O.?
Os animais foram comprados para produzir leite, formarem uma base com outra opção de genética leiteira e aumentarem a prolificidade nos nossos rebanhos. Os reprodutores não foram escolhidos pelo rabo pelado, típico da raça East Friesian, nem pela "orelha curta e em concha, voltada para frente, dando altivez ao semblante do animal". Foram escolhidos os nascidos de partos múltiplos, com boa DEP (é, os uruguaios do INIA calculam DEPs dos animais de seus rebanhos) para produção de leite e em segundo plano, para ganho de peso diário. Foram escolhidos também os mais pigmentados ( o que é tolerado pelo padrão Uruguaio da East Friesian e deveria ser ponto positivo num futuro padrão Brasileiro). Nossa opção é pela funcionalidade, então porque buscar animais caros, selecionados pelo padrão racial? Os uruguaios mais uma vez nos dão uma lição, preocupados com o uso que farão dos animais. Espertamente chamam as East Friesian de Milchschaf, cuja tradução do alemão quer dizer simplesmente "ovelha leiteira". Recado dado, ovelha para produzir leite e não ovelha simplesmente bonita.
Se nos ovinos tipo carne já metemos os pés pelas mãos, a escolha dos brasileiros deverá ser pela funcionalidade e pela economicidade dos ovinos leiteiros, pensando em iniciar mais uma opção de produção animal. A chegada desses animais permite praticarmos heresias aos olhos dos puristas: cruzar East Friesian com Lacaune salvando-nos do fantasma da consanguinidade e também com Bergamácia, com Santa Inês e o que mais quisermos. É um pouco mais de liberdade e segurança para aqueles que querem trabalhar com leite ovino.
No próximo artigo quero falar sobre o a ovelha leiteira Assaf, uma raça sintética israelense que é alvo da cobiça de todo produtor de leite ovino e o impressionante hábito que temos de admirar os trabalhos baseados em cruzamentos feitos fora do Brasil e de execrar os que se tentam fazer no país.
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Material escrito por:
Octávio Rossi de Morais
Melhoramento Genético de Caprinos e Ovinos - Embrapa
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FRANCA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 28/06/2021

FORTALEZA - CEARÁ
EM 27/06/2021

MAR VERMELHO - ALAGOAS - PRODUÇÃO DE LEITE
EM 15/12/2015

FLORIANÓPOLIS - SANTA CATARINA - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS
EM 22/09/2012

SOLEDADE DE MINAS - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS
EM 27/08/2011
Tem como me ajudar?
Meu nome é Vicente Marin
Meu email é marinvicentemz@gmail.com
Obrigado e parabéns pelo trabalho.
Vicente Marin
SANTA MARIA - RIO GRANDE DO SUL - ZOOTECNISTA
EM 25/06/2009
Sou estudante de Zootecnia da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM - RS.
Gostaria de parabenizá-lo pela iniciativa de escrever sobre a ovinocultura de leite. Acho o assunto de extrema importância para quem deseja não somente produzir leite de ovelha para a comercialização, mas sim para aqueles produtores que desejam terminar cordeiros mais pesados e precoses.
Aqui na UFSM, no Laboratorio de Ovinocultura, estamos realizando trabalhos nesta linha de pesquisa. Onde ovelhas do cruzamento alternado estabilizado entre as raças Texel e Ile de France foram inseminadas com sêmen de carneiro Lacaune, com o intuito de produzir matrizes com maior potencial produtivo de leite e consequentemente terminar cordeiros mais cedo.
Estou na fase de conclusão de curso e vou desenvolver um trabalho avaliando estes cordeiros filhos de ovelhas Cruza Lacaune. Gostaria de maiores informações sobre métodos de avaliação da produção de leite.
Atenciosamente,
Letieri
BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PESQUISA/ENSINO
EM 06/05/2009
ITU - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 10/04/2009
Sou criador de ovinos da raça Lacaune, na atividade a 2 anos, produzindo animais puros e cruzas além de produção de queijos; estamos instalados em Itu - SP
Me animou muito o comentário de pessoas que veem nessa atividade uma boa opção de tornar rentável e sustentável uma pequena propriedade.
Coloco-me a disposição para informações práticas da criação dos ovinos Lacaune, que tenho adquirido em minha criação.
Grande Abraço
Reinaldo
BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PESQUISA/ENSINO
EM 19/03/2009

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE OVINOS DE LEITE
EM 15/03/2009
É através da experimentação e da demonstração de resultados que pouco a pouco a produção de leite ovino vai tomar corpo e ajudar a viabilizar econômicamente a ovinocultura nacinal.
Se todos procurarmos abrir nossos horizontes, não vai haver produção que baste, o caminho a ser seguido é este mesmo, privilegiar a produtividade e não o tipo.

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - ESTUDANTE
EM 12/03/2009
Se for de interesse estou a disposição de correr atrás de algo do tipo.

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - ESTUDANTE
EM 12/03/2009
Ovinocultura leiteira é algo que tem me encantado, mas como todo setor existem problemas ligados a criadores que selecionam animais para concurso de beleza com produtores que querem ver o retorno financeiro ligado a produção.
Creio que com um envolvimento das associações criando concursos de animais com afinidade para produção alem dos concursos de beleza seria um novo rumo que tomaríamos na produção e com certeza novas portas seriam abertas.

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE OVINOS
EM 10/03/2009
Parabéns pelo tema abordado no artigo, pela objetividade e pela sua posição (que não poderia ser diferente, sendo você um excelente geneticista e produtor).
Acredito que este assunto deveria ser objeto de discussões mais frequentes no meio da ovinocultura nacional, não só leiteira, mas também de corte. Precisamos focar realmente em otimizar nossa produção pelo melhoramento genético, e tornar nosso produto mais competitivo frente a situação mundial atual, e isto precisará de tempo e seriedade. Não precisamos de ovelhas lindas e padronizadas, já temos no Brasil as mulheres mais belas do mundo, ovinos devem produzir.
Vejo, no cenário brasileiro atual, uma grande carência no levantamento de dados produtivos em ovinocultura, de softwares acessíveis, de amplo uso, com rigorosa avaliação dos dados coletados, e divulgação para produtores e selecionadores. Além disso, não vejo grandes esforços da associação que realiza registros genealógicos em evoluir a produtividade, nem o questionamento, por parte de muitos ovinocultores, de alguns preceitos impostos e necessidades que não são adotadas. Gozado.
Faço votos para que a ovinocultura leiteira se torne uma atividade cada vez mais promissora e atrativa, que tenha bastante investimento em pesquisas sérias para seu melhoramento, e para que os produtores possam se unir e lutar em prol de um bem comum.
Grande abraço
Guilherme
BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PESQUISA/ENSINO
EM 04/03/2009
Respondendo ao Sérgio Luiz, a ovinocultura leiteria dá bastante flexibilidade, você pode iniciar com 10 ovelhas leiteiras e já começar a fazer queijo e yogurte no primeiro ano, para ir pegando o jeito: é só pensar, com ovelhas produzindo 0,8 litros, e você ordenhando a metade (5 ovelhas) já são 4 litros por dia e você já pode fazer uns dois queijinhos de 400 gramas ou os 4 litros de yogurte por dia... já vai precisar de vender para os amigos!
Quanto ao comentário de meu amigo Sérgio Ribeiro, está corretíssimo, é claro que eu acho importante os registros genealógicos e os cruzamentos com base em animais com histórico conhecido, mas isso não pode ser nossa única preocupação, junto ao registro genealógico teríamos que ter os de produção, os cálculos de DEPs e valores econômicos como sempre comentamos. Um abraço a todos!

LAGOA DA PRATA - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO
EM 03/03/2009

FRANCA - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO
EM 03/03/2009
Abraços a todos e bom trabalho em 2009!

RIO GRANDE DO SUL - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
EM 02/03/2009

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE OVINOS
EM 02/03/2009
A criação de animais de ELITE deve ser para atender as demandas da base da pirâmide e não para fomentar "colecionadores" que especulam com os preços praticados em leilões.
Acredito estar mudando pois a cada dia essa visão distorcida tem se tornado menos comum e quem sabe a ovinocultura leiteira por necessidade ou experiência da ovinocultura de corte seja mais humilde e de ouvidos aos competentes produtores Uruguaios, Neozelandeses, Australianos e Franceses.