Influência da mastite e da Contagem de Células Somáticas na qualidade higiênico-sanitária do leite

A mastite segue como um dos principais desafios sanitários da pecuária leiteira. Com forte relação com o manejo e o ambiente, a doença impacta diretamente a qualidade do leite e a rentabilidade da produção.

Publicado por: vários autores

Publicado em: - 4 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 9

Sem tempo? Leia o resumo gerado pela MilkIA
A mastite é a principal doença entre vacas leiteiras, causando perdas econômicas significativas. Seu desenvolvimento envolve a interação entre hospedeiro, patógenos e ambiente. O manejo inadequado durante a ordenha aumenta a prevalência da doença. A mastite pode ser clínica ou subclínica, a última sendo mais prevalente e prejudicial economicamente. A contagem de células somáticas (CCS) é um indicador crucial da saúde da glândula mamária e da qualidade do leite, sendo essencial o monitoramento e boas práticas de manejo para controle da mastite.

A mastite é a doença mais prevalente entre as vacas leiteiras e causa significativas perdas econômicas para a indústria do leite. Embora os programas de controle atualmente adotados tenham sido eficazes na redução de patógenos contagiosos relacionados à mastite, eles apresentam menor eficiência no controle dos patógenos ambientais envolvidos na doença (ZENG et al., 2023). 

O desenvolvimento da mastite envolve a interação de três biossistemas interconectados: o hospedeiro, que inclui fatores como raça e nível de produção; a causa, relacionada à presença de patógenos, produtos químicos ou traumas; e o ambiente, que engloba aspectos como estação do ano e práticas de manejo. A compreensão dessa interação é fundamental para o entendimento da mastite como uma doença inflamatória da glândula mamária (POLAT et al., 2010).

A prevalência da mastite está diretamente associada ao manejo adotado antes, durante e após a ordenha. Esse fato reforça a importância da conscientização do ordenhador quanto ao cumprimento rigoroso dos procedimentos adequados, incluindo a higienização e desinfecção correta do ambiente, do animal, do profissional e dos utensílios utilizados. Essas práticas são essenciais para a prevenção e o controle eficaz da mastite (BRASIL, 2012). 

A mastite pode se manifestar clinicamente por meio de alterações visíveis no leite, como a presença de grumos, pus, sangue ou aspecto aquoso, associadas ou não a alterações no úbere, como inchaço, febre e sensibilidade. Dependendo do microrganismo envolvido, pode ocorrer comprometimento sistêmico do animal, resultando em sintomas como febre, desidratação e apatia, podendo inclusive colocar a vida do animal em risco quando não há tratamento adequado. Esse quadro é conhecido como mastite clínica hiperaguda, na qual os sinais clínicos são frequentemente decorrentes da ação de toxinas liberadas pelas bactérias, mais do que da infecção em si (BRITO et al., 2002).

Em comparação com a mastite clínica, a forma subclínica é mais prevalente e acarreta maiores prejuízos econômicos para a indústria de laticínios (RANASINGHE et al., 2021).  A forma subclínica da mastite não apresenta sinais clínicos visíveis no leite e somente pode ser detectada por meio de testes específicos, como o CMT (California Mastitis Test) (FUNDAÇÃO ROGE, 2023).

Além disso, podem ser observadas alterações na composição do leite, incluindo variações nos teores de gordura, proteína e lactose. O aumento significativo da contagem de células somáticas (CCS) impacta diretamente a qualidade do leite, resultando em redução do valor pago ao produtor por litro (REHAGRO BLOG, 2023). 

Continua depois da publicidade

A mastite ambiental surge devido à infecção por bactérias presentes no ambiente em que o animal vive (Figura 2). Essa condição pode se manifestar em diversos momentos da vida do animal, durante a ordenha, em intervalos entre ordenhas, no período seco ou até mesmo antes do primeiro parto (FREITAS et al., 2009). 

 


FIGURA 2 - Ambiente propício para o desenvolvimento de mastite ambiental. Fonte: Autoria própria.

Alguns estudos indicam que essas bactérias podem exibir comportamento contagioso, o que significa que, em determinadas situações, determinados tipos de Streptococcus conseguem se adaptar à glândula mamária, levando ao desenvolvimento de mastite crônica. Nesses casos, o animal pode tornar-se fonte de infecção para outras vacas, permitindo a transmissão tanto de forma contagiosa quanto ambiental. No entanto, do ponto de vista epidemiológico, a principal via de propagação reconhecida para esses agentes permanece sendo o ambiente (EDUCAPOINT, 2018). 

Contagem de Células Somáticas

A CCS é amplamente reconhecida como medida padrão de qualidade, uma vez que está correlacionada com a composição, rendimento industrial e segurança alimentar do leite (BUENO et al., 2005).

Continua depois da publicidade

A CCS corresponde à concentração de células somáticas presentes no leite e é utilizada como um indicador da saúde fisiológica das vacas leiteiras, bem como da qualidade e segurança do leite. Além disso, constitui um parâmetro essencial na avaliação da mastite subclínica (SUN et al., 2023).

A CCS reflete o estado inflamatório da glândula mamária e consolidou-se como um indicador amplamente utilizado no monitoramento da qualidade do leite. Valores superiores a 150.000 a 200.000 células por mL são comumente considerados indicativos de mastite, embora esses limites possam variar entre países (RAMBAULT et al., 2023).

As células somáticas no leite são compostas por células epiteliais que se desprendem da glândula mamária, juntamente com células de defesa, conhecidas como leucócitos, que migram do sangue para o úbere. Em vacas saudáveis, com glândula mamária em bom estado sanitário, são esperados valores de CCS de até 200.000 células por mL de leite, quando os valores ultrapassam esse limite, indica-se a presença de um desequilíbrio na glândula mamária, o que pode ser um sinal de ocorrência de mastite (REHAGRO BLOG, 2023).

O leite deve apresentar composição química adequada e atender a padrões satisfatórios de qualidade higiênica, condição essencial para garantir a segurança pública, a qualidade dos produtos derivados e a aptidão para o processamento industrial. A presença de componentes adicionados ao leite antes, durante ou após a ordenha, assim como quaisquer alterações ocorridas nesse processo, pode comprometer sua qualidade, tornando fundamental o monitoramento contínuo da pureza e integridade do produto (SLAGHUIS et al., 2021).

Durante a ordenha mecânica, a adoção de medidas voltadas à redução da transmissão de agentes mastitogênicos e à diminuição da contagem de microrganismos transferidos para o leite é fundamental para a manutenção da qualidade microbiológica (AMARAL et al., 2004).

Após a ordenha, o leite cru geralmente possui baixa contagem bacteriana total, no entanto, pode ser contaminado por bactérias provenientes de fontes ambientais, da própria vaca e do contato com equipamentos contaminados (MARTIN et al., 2023).

Conclusão 

A mastite bovina constitui um dos principais desafios sanitários da pecuária leiteira, causando impactos significativos na qualidade do leite e na rentabilidade da atividade. A mastite ambiental destaca-se pela forte associação com falhas de manejo e higiene, o que dificulta seu controle. A contagem de células somáticas configura-se como um importante indicador da saúde da glândula mamária e da qualidade do leite, especialmente na identificação da mastite subclínica. Dessa forma, a adoção de boas práticas de ordenha, aliada ao monitoramento contínuo da CCS, é fundamental para o controle da mastite e para a obtenção de leite com adequada qualidade higiênico-sanitária.

Referências bibliográficas

ZENG, X.; VIDLUND, J.; GILLESPIE, B.; CAO, L.; AGGA, G. E.; LIN, J.;  DEGO, O. K. Evaluation of Immunogenicity of Enterobactin Conjugate Vaccine for the Control of E. coli Mastitis in Dairy Cows. Journal of Dairy Science, 2023.

POLAT, B.; COLAK, A.; CENGIZ, M.; YANMAZ, L. E.; ORAL, H., BASTAN, A.; HAYIRLI, A. Sensitivity and specificity of infrared thermography in detection of subclinical mastitis in dairy cows. Journal of dairy science, v. 93, n. 8, p. 3525-3532, 2010.

BRASIL, GOVERNO. Mastite bovina: controle e prevenção. Boletim Técnico-n. º, v. 93, p. 1-30, 2012.

BRITO, J. R. F.; BRITO, M. A. V. P.; ARCURI, E. F; Como (re) conhecer e controlar a mastite em rebanhos bovinos. 2002.

RANASINGHE, R. M. S. B. K.; DESHAPRIYA, R. M. C.; ABEYGUNAWARDANA, D. I.; RAHULARAJ, R.; DEMATAWEWA, C. M. B. Subclinical mastitis in dairy cows in major milk-producing areas of Sri Lanka: Prevalence, associated risk factors, and effects on reproduction. Journal of Dairy Science, v. 104, n. 12, p. 12900-12911, 2021.

FUNDAÇÃO ROGE, Mastite clínica e subclínica: sintomas, prevenção e tratamento. https://www.fundacaoroge.org.br/blog/mastiteclinicaemastitesubclinica acessado em: 31 de julho de 2023.

REHAGRO BLOG; Mastite bovina: o que é, diagnostico e como controlar essa doença https://rehagro.com.br/blog/o-que-e-mastite-bovina-e-quais-seus-impactos/#:~:text=O%20que%20%C3%A9%20mastite%20subcl%C3%ADnica,acometer%20grande%20parte%20dos%20rebanhos. Acessado em 15 de agosto de 2023. 

FREITAS GUIMARÃES, F.; LANGONI, H.; Leite: alimento imprescindível, mas com riscos para a saúde pública. Veterinária e Zootecnia, v. 16, n. 1, p. 38-51, 2009.

EDUCAPOINT; Quais são os principais agentes ambientais causadores de mastite? https://www.educapoint.com.br/blog/pecuaria-leite/agentes-mastite-ambiental/ 30 de outubro de 2018.

BUENO, V. F. F.; MESQUITA, A. J. D.; NICOLAU, E. S.; OLIVEIRA, A. N. D.; OLIVEIRA, J. P. D.; NEVES, R. B. S.; THOMAZ, L. W; Contagem celular somática: relação com a composição centesimal do leite e período do ano no Estado de Goiás. Ciência Rural, v. 35, p. 848-854, 2005.

SUN, X.; ZHAO, R.; WANG, N.; ZHANG, J.; XIAO, B.; HUANG, F.;  CHEN, A. Milk somatic cell count: From conventional microscope method to new biosensor-based method. Trends in Food Science & Technology, 2023.

RAMBAULT, M.; GILBERT, F. B.; ROUSSEL, P.; TESSIER, A., DAVID, V.; GERMON, P.; REMOT, A. Neutrophils expressing major histocompatibility complex class II molecules circulate in blood and milk during mastitis and show high microbicidal activity. Journal of Dairy Science, v. 106, n. 6, p. 4245-4256, 2023.

REHAGRO BLOG; Contagem de células somáticas (CCS) do leite: importância e como reduzir. https://rehagro.com.br/blog/contagem-de-celulas-somaticas-do-leite-definicao-importancia-e-como-reduzir/ acessado em 13/07/2023

SLAGHUIS, B.; WOLTERS, G.; REINEMANN, D. J. Milking and Handling of Raw Milk: Milking Hygiene. 2021.

AMARAL, L. A. D.; ISA, H.; DIAS, L. T.; ROSSI JÚNIOR, O. D.; NADER FILHO, A. Avaliação da eficiência da desinfecção de teteiras e dos tetos no processo de ordenha mecânica de vacas. Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 24, p. 173-177, 2004.

MARTIN, N. H.; EVANOWSKI, R. L.; WIEDMANN, M.; Invited review: Redefining raw milk quality—Evaluation of raw milk microbiological parameters to ensure high-quality processed dairy products. Journal of Dairy Science, 2023.

QUER ACESSAR O CONTEÚDO? É GRATUITO!

Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no MilkPoint.

Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 9

Material escrito por:

Maria beatriz de souza bezerra

Maria beatriz de souza bezerra

Mestranda do curso de Pós-Graduação em Zootecnia, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Goiano Campus Rio Verde.

Acessar todos os materiais
Marco Antônio Pereira da Silva

Marco Antônio Pereira da Silva

Doutor em Ciência Animal pela Universidade Federal de Goiás, Professor do IF Goiano - Campus Rio Verde, GO

Acessar todos os materiais
Eberton Carlos de Jesus

Eberton Carlos de Jesus

Mestrando do curso de Pós-Graduação em Zootecnia, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Goiano Campus Rio Verde

Acessar todos os materiais
Verusca Andraus Rezende

Verusca Andraus Rezende

Mestranda do curso de Pós-Graduação em Tecnologia em Alimentos, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Goiano Campus Rio Verde.

Acessar todos os materiais
Bárbara da Silva Resende

Bárbara da Silva Resende

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?