A silagem de milho é uma das forragens mais utilizadas na alimentação de vacas leiteiras devido ao seu alto rendimento por hectare e bom equilíbrio Nutricional. No entanto, a fermentação inadequada e a exposição ao oxigênio durante a abertura do silo favorecem o desenvolvimento de fungos deterioradores, comprometendo a qualidade higiênico-sanitária do alimento. Além da perda nutricional, a contaminação por micotoxinas representa risco para a saúde animal e segurança do leite produzido.
Fungos frequentes em silagens de milho
O que não é novidade, a presença de fungos tem aumentado nos últimos anos. Os principais fungos encontrados em silagens incluem:
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Fusarium spp.: predominantes ainda no campo, antes da ensilagem. São responsáveis por toxinas como fumonisinas, zearalenona e deoxinivalenol.
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Penicillium spp.: se desenvolvem principalmente após a abertura do silo, com produção de micotoxinas como a ocratoxina A e ácidos micofenólicos.
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Aspergillus spp.: favorecidos por temperaturas elevadas e baixa umidade, podem produzir aflatoxinas em ambientes propícios.
Esses fungos competem com bactérias lácticas durante a fermentação, dificultando a acidificação rápida e favorecendo a deterioração aeróbica.
Além desses, outros fungos que podem ou não produzir micotoxinas tem sido encontrado com frequência.
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Ulocladium spp.: apresentando coloração marrom-oliva a preta, com aspecto aveludado, é considerado um fungo saprofítico, ou seja, vive sobre matéria orgânica em decomposição. Competidor da microbiota benéfica, favorecendo deterioração e perda de matéria seca.
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Alternária spp.: com coloração do marrom ao preto esverdeado e textura aveludada, favorece a decomposição do alimento reduzindo seu valor nutritivo e a palatabilidade. Produz micotoxinas em menor escala, mas de grande importância.
Micotoxinas associadas às silagens contaminadas
As principais micotoxinas encontradas em silagens de milho para vacas leiteiras são:
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Micotoxina |
Fungo produtor |
Efeito principal |
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Aflatoxina B1 |
Aspergillus flavus |
Hepatotóxica, excreção de AFM1 no leite, imunossupressora. |
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Fumonisina B1 |
Fusarium verticillioides |
Reduz microbiota ruminal, consumo de matéria seca e produção de leite repentina. |
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Zearalenona |
Fusarium graminearum |
Afeta a reprodução causando retorno ao cio, infertilidade, abortos, etc. |
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Deoxinivalenol (DON) |
Fusarium spp. |
Precursora da síndrome do intestino permeável, tem efeito antibiótico intestinal causando diarréias severas. |
Mesmo com alguma degradação ruminal, as vacas leiteiras são suscetíveis a efeitos crônicos de baixas doses.
Redução da qualidade nutricional da silagem
Fungos filamentosos, ou seja, esses bolores que aparecem na silagem, tem a função de reciclar nutrientes através da degradação de matéria orgânica. Biologicamente, eles têm uma função extremamente importante, e não se importam se o substrato será usado para alimentação animal ou se realmente é algum material que precisa ser degradado. Logo, a presença de fungos e suas enzimas deterioram os nutrientes da silagem de milho causando:
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Decomposição de carboidratos solúveis e amido, reduzindo a energia disponível;
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Destruição de proteínas e liberação de aminas biogênicas (putrescina, histamina), que afetam o consumo;
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Aumento da temperatura e pH da silagem durante deterioração aeróbica;
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Perda de matéria seca e digestibilidade;
Uma forma de detectar se o material está com focos de degradação fúngica, é quando a silagens está com mofo visível ou cheiro ácido/amoniacal. Isso indica degradação fúngica avançada.
Impactos na saúde e no desempenho das vacas leiteiras
A ingestão de silagens contaminadas por fungos e micotoxinas pode causar os seguintes sintomas:
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Queda no consumo voluntário de matéria seca;
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Redução da produção e qualidade do leite;
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Mastites recorrentes, retenção de placenta e infertilidade;
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Imunossupressão e maior suscetibilidade a doenças secundárias;
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Alterações nos parâmetros hematológicos e bioquímicos;
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Presença de aflatoxina M1 no leite acima dos limites legais;
Consequências econômicas da contaminação fúngica
A contaminação fúngica em silagens acarreta prejuízos diretos e indiretos:
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Perda de produtividade: redução de até 20% na produção leiteira em casos crônicos;
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Descarte de leite contaminado: multas, recolhimento e descarte por aflatoxinas;
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Aumento nos custos veterinários: devido a imunossupressão e enfermidades secundárias;
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Reprodução ineficiente: queda nas taxas de concepção e aumento do intervalo entre partos;
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Redução da longevidade do rebanho
Estudos estimam perdas superiores a R$ 1500 por vaca/ano em propriedades com silagens mal conservadas.
Estratégias de prevenção e mitigação
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Boas práticas de ensilagem: colheita no ponto ideal de matéria seca (32–35%), compactação eficaz e vedação adequada;
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Monitoramento da silagem na abertura: uso de termômetro e avaliação visual e olfativa;
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Análises laboratoriais periódicas: para detecção de micotoxinas e deterioração fúngica;
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Uso de inoculantes homo e heterofermentativos
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Inclusão de adsorventes de micotoxinas na dieta, formulados para ruminantes e com eficácia comprovada frente às toxinas presentes.
Conclusão
A presença de fungos e micotoxinas em silagens de milho representa um dos maiores riscos ocultos na nutrição de vacas leiteiras. Seus efeitos vão além da perda nutricional, impactando diretamente a saúde do rebanho e a rentabilidade da fazenda. O controle deve ser preventivo, envolvendo desde o manejo correto da lavoura e do processo de ensilagem até a análise e correção dos alimentos ofertados. A adoção de estratégias integradas é fundamental para garantir a sustentabilidade sanitária e econômica da produção leiteira.
Referências bibliográficas
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Munkvold, G. P. (2017). Fusarium species and their associated mycotoxins. Animal Feed Science and Technology.
Fink-Gremmels, J. (2008). The role of mycotoxins in the health and performance of dairy cows.
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