Fungos em silagens de milho: quais os riscos e impactos na saúde e economia da produção leiteira

Fungos em silagens de milho comprometem a qualidade nutricional, causam doenças em vacas leiteiras e impactam a rentabilidade da produção. Saiba mais!

Publicado em: - 3 minutos de leitura

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A silagem de milho é crucial na dieta de vacas leiteiras, mas a fermentação inadequada e a exposição ao oxigênio favorecem fungos deterioradores, comprometendo sua qualidade e gerando riscos à saúde animal. Os principais fungos são Fusarium, Penicillium e Aspergillus, que produzem micotoxinas prejudiciais. Contaminações resultam em redução da produção de leite, problemas de saúde e perdas financeiras significativas. Medidas preventivas, como boas práticas de ensilagem e monitoramento, são essenciais para mitigar esses riscos.

A silagem de milho é uma das forragens mais utilizadas na alimentação de vacas leiteiras devido ao seu alto rendimento por hectare e bom equilíbrio Nutricional. No entanto, a fermentação inadequada e a exposição ao oxigênio durante a abertura do silo favorecem o desenvolvimento de fungos deterioradores, comprometendo a qualidade higiênico-sanitária do alimento. Além da perda nutricional, a contaminação por micotoxinas representa risco para a saúde animal e segurança do leite produzido.

 

Fungos frequentes em silagens de milho

O que não é novidade, a presença de fungos tem aumentado nos últimos anos. Os principais fungos encontrados em silagens incluem:

  • Fusarium spp.: predominantes ainda no campo, antes da ensilagem. São responsáveis por toxinas como fumonisinas, zearalenona e deoxinivalenol.

  • Penicillium spp.: se desenvolvem principalmente após a abertura do silo, com produção de micotoxinas como a ocratoxina A e ácidos micofenólicos.

  • Aspergillus spp.: favorecidos por temperaturas elevadas e baixa umidade, podem produzir aflatoxinas em ambientes propícios.

Esses fungos competem com bactérias lácticas durante a fermentação, dificultando a acidificação rápida e favorecendo a deterioração aeróbica.

Além desses, outros fungos que podem ou não produzir micotoxinas tem sido encontrado com frequência. 

  • Ulocladium spp.: apresentando coloração marrom-oliva a preta, com aspecto aveludado, é considerado um fungo saprofítico, ou seja, vive sobre matéria orgânica em decomposição. Competidor da microbiota benéfica, favorecendo deterioração e perda de matéria seca. 

  • Alternária spp.: com coloração do marrom ao preto esverdeado e textura aveludada, favorece a decomposição do alimento reduzindo seu valor nutritivo e a palatabilidade. Produz micotoxinas em menor escala, mas de grande importância. 

 

Micotoxinas associadas às silagens contaminadas

As principais micotoxinas encontradas em silagens de milho para vacas leiteiras são:

Micotoxina

Fungo produtor

Efeito principal

Aflatoxina B1

Aspergillus flavus

Hepatotóxica, excreção de AFM1 no leite, imunossupressora.

Fumonisina B1

Fusarium verticillioides

Reduz microbiota ruminal, consumo de matéria seca e produção de leite repentina. 

Zearalenona

Fusarium graminearum

Afeta a reprodução causando retorno ao cio, infertilidade, abortos, etc. 

Deoxinivalenol (DON)

Fusarium spp.

Precursora da síndrome do intestino permeável, tem efeito antibiótico intestinal causando diarréias severas. 

     

Mesmo com alguma degradação ruminal, as vacas leiteiras são suscetíveis a efeitos crônicos de baixas doses.

 

Redução da qualidade nutricional da silagem

Fungos filamentosos, ou seja, esses bolores que aparecem na silagem, tem a função de reciclar nutrientes através da degradação de matéria orgânica. Biologicamente, eles têm uma função extremamente importante, e não se importam se o substrato será usado para alimentação animal ou se realmente é algum material que precisa ser degradado. Logo, a presença de fungos e suas enzimas deterioram os nutrientes da silagem de milho causando:

  • Decomposição de carboidratos solúveis e amido, reduzindo a energia disponível;

  • Destruição de proteínas e liberação de aminas biogênicas (putrescina, histamina), que afetam o consumo;

  • Aumento da temperatura e pH da silagem durante deterioração aeróbica;

  • Perda de matéria seca e digestibilidade;

Uma forma de detectar se o material está com focos de degradação fúngica, é quando a silagens está com mofo visível ou cheiro ácido/amoniacal. Isso indica degradação fúngica avançada.

 

Impactos na saúde e no desempenho das vacas leiteiras

A ingestão de silagens contaminadas por fungos e micotoxinas pode causar os seguintes sintomas:

  • Queda no consumo voluntário de matéria seca;

  • Redução da produção e qualidade do leite;

  • Mastites recorrentes, retenção de placenta e infertilidade;

  • Imunossupressão e maior suscetibilidade a doenças secundárias;

  • Alterações nos parâmetros hematológicos e bioquímicos;

  • Presença de aflatoxina M1 no leite acima dos limites legais;

 

Consequências econômicas da contaminação fúngica

A contaminação fúngica em silagens acarreta prejuízos diretos e indiretos:

  • Perda de produtividade: redução de até 20% na produção leiteira em casos crônicos;

  • Descarte de leite contaminado: multas, recolhimento e descarte por aflatoxinas;

  • Aumento nos custos veterinários: devido a imunossupressão e enfermidades secundárias;

  • Reprodução ineficiente: queda nas taxas de concepção e aumento do intervalo entre partos;

  • Redução da longevidade do rebanho

Estudos estimam perdas superiores a R$ 1500 por vaca/ano em propriedades com silagens mal conservadas.

 

Estratégias de prevenção e mitigação

  • Boas práticas de ensilagem: colheita no ponto ideal de matéria seca (32–35%), compactação eficaz e vedação adequada;

  • Monitoramento da silagem na abertura: uso de termômetro e avaliação visual e olfativa;

  • Análises laboratoriais periódicas: para detecção de micotoxinas e deterioração fúngica;

  • Uso de inoculantes homo e heterofermentativos

  • Inclusão de adsorventes de micotoxinas na dieta, formulados para ruminantes e com eficácia comprovada frente às toxinas presentes.

 

Conclusão

A presença de fungos e micotoxinas em silagens de milho representa um dos maiores riscos ocultos na nutrição de vacas leiteiras. Seus efeitos vão além da perda nutricional, impactando diretamente a saúde do rebanho e a rentabilidade da fazenda. O controle deve ser preventivo, envolvendo desde o manejo correto da lavoura e do processo de ensilagem até a análise e correção dos alimentos ofertados. A adoção de estratégias integradas é fundamental para garantir a sustentabilidade sanitária e econômica da produção leiteira.

Referências bibliográficas

Driehuis, F., et al. (2018). Silage review: Animal and human health risks from silage. Journal of Dairy Science.

Munkvold, G. P. (2017). Fusarium species and their associated mycotoxins. Animal Feed Science and Technology.

Fink-Gremmels, J. (2008). The role of mycotoxins in the health and performance of dairy cows. 

Kung Jr, L., & Shaver, R. (2021). Management and evaluation of silages for dairy cattle. Veterinary Clinics of North America: Food Animal Practice.

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