Em um painel recente no IDFA Dairy Forum, dedicado ao tema imigração e mercado de trabalho, lideranças do setor discutiram uma questão que deixou de ser apenas pauta legislativa e passou a impactar diretamente a continuidade dos negócios e a segurança alimentar do país.
O debate contou com Shannon Douglass (California Farm Bureau), Rick Naerebout (Idaho Dairymen’s Association), James O’Neill (American Business Immigration Coalition) e Julie Myers Wood (Guidepost Solutions LLC). A conversa evidenciou um setor diante de mudanças nas prioridades federais de fiscalização e da necessidade de ajustes estruturais na legislação.
Diferenças regionais na percepção de risco
O impacto das políticas migratórias varia conforme o estado e seu ambiente regulatório. Douglass, representando a Califórnia, relatou que episódios recentes geraram apreensão entre trabalhadores rurais.
“Em junho, especificamente nas lavouras de morango do sul da Califórnia, os trabalhadores estavam receosos”, afirmou Douglass. “Chegamos a ver até 60% da força de trabalho não comparecer por causa de rumores sobre agentes do U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) na região.”
Essa instabilidade afeta não apenas os trabalhadores, mas também a cadeia produtiva. Na região de Los Angeles, foram necessárias quase duas semanas para que as equipes recuperassem o volume de trabalho após um período curto de incerteza. Para muitos produtores, o impacto operacional decorrente de rumores pode ser tão desafiador quanto uma fiscalização formal, sobretudo em momentos críticos da colheita.
Já em Idaho, segundo Naerebout, o contexto tem sido diferente. Ele mencionou uma entrevista ao The New York Times na qual o presidente Donald Trump afirmou ter orientado o ICE a não priorizar fiscalizações em setores agrícolas.
“Temos observado um ambiente mais previsível sob esta administração”, comentou Naerebout. “Mas sabemos que as diretrizes podem mudar. Por isso, seguimos defendendo uma solução permanente.”
Fiscalização administrativa e impactos indiretos
Julie Myers Wood destacou que a ausência de grandes operações públicas não significa redução da fiscalização. Segundo ela, as ações têm ocorrido de forma mais administrativa e direcionada.
“O ICE continua realizando auditorias em empresas terceirizadas de mão de obra”, explicou. “Produtores e processadores muitas vezes enfrentam desafios por meio dessas empresas.”
Ela também apontou maior atenção a questões relacionadas a vistos no transporte rodoviário, inclusive envolvendo motoristas que cruzam fronteiras. Embora menos visíveis, essas medidas podem gerar interrupções logísticas no curto prazo e reforçam o debate sobre a competitividade da força de trabalho no país.
A especificidade do setor leiteiro
Um dos pontos centrais discutidos foi a particularidade da produção de leite. Diferentemente de frutas e hortaliças, que podem utilizar o programa de visto sazonal, a atividade leiteira exige mão de obra contínua ao longo de todo o ano. “Precisamos de duas políticas de alto nível: um caminho para a regularização da força de trabalho atual e um programa de visto viável para trabalho anual no futuro. Esse é o pedido há duas décadas”, afirmou Naerebout.
Ele relatou ainda um episódio em que uma ocorrência policial resultou em uma operação dentro de uma fazenda leiteira, afetando significativamente a equipe da propriedade. Segundo ele, situações como essa reforçam a necessidade de maior previsibilidade regulatória. “Produtores menores sentem dificuldade para expandir diante desse cenário. Precisamos encontrar soluções estruturais”, afirmou.
Mão de obra e preço dos alimentos
Para James O’Neill, a discussão pode ganhar espaço ao ser conectada ao tema dos preços dos alimentos.
“O aumento do custo da mão de obra está entre os fatores que pressionam o custo dos alimentos, e a limitação de acesso à força de trabalho contribui para isso”, afirmou.
Ele mencionou que propostas como o Dignity Act e o Farm Workforce Modernization Act foram reapresentadas, mas dependem de um ambiente bipartidário favorável para avançar. A proposta é tratar a questão migratória sob a ótica da estabilidade econômica e da previsibilidade para o setor produtivo.
O que vem pela frente
O painel indicou um sentimento de cautela. Há maior reconhecimento público da relação entre disponibilidade de mão de obra e estabilidade dos preços dos alimentos. Ao mesmo tempo, o setor permanece sensível a mudanças regulatórias e à dinâmica política em Washington.
Como destacou Douglass, o debate envolve não apenas indicadores econômicos, mas também as realidades enfrentadas por produtores e comunidades rurais. Independentemente do posicionamento político dos estados, a mensagem apresentada no fórum foi clara: para manter competitividade global e garantir estabilidade na produção de alimentos, o setor leiteiro dos Estados Unidos busca maior segurança jurídica e previsibilidade na política de trabalho.
As informações são do Dairy Herd Management, traduzidas pela Equipe MilkPoint.