Uso de análises laboratoriais para reduzir perdas por mastite subclínica e melhorar a qualidade do leite na propriedade

O laudo só gera resultado quando vira ação. Veja como transformar dados laboratoriais em estratégias práticas dentro da propriedade.

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A mastite subclínica é uma doença silenciosa que afeta a produção de leite, aumentando a Contagem de Células Somáticas (CCS) e resultando em perdas financeiras para os produtores. Exames laboratoriais, como CCS e Contagem Bacteriana Total (CBT), ajudam na identificação precoce da doença e na tomada de decisões de manejo. O controle efetivo pode melhorar a qualidade do leite e os rendimentos na indústria de queijos. O uso de análises laboratoriais é essencial para otimizar a gestão e a rentabilidade das propriedades leiteiras.

A mastite subclínica é uma doença silenciosa que causa grandes prejuízos nas fazendas leiteiras. Ela não altera visivelmente o leite, muitas vezes não causa inchaço no úbere e passa despercebida no dia a dia. Mesmo assim, é hoje uma das principais causas de descarte de leite e queda de produção, impactando diretamente o bolso do produtor. A boa notícia é que os exames laboratoriais estão cada vez mais acessíveis e podem ser usados como ferramentas práticas de gestão para reduzir perdas e melhorar a qualidade do leite.

A mastite subclínica aumenta a Contagem de Células Somáticas (CCS) do leite, diminui o rendimento industrial e interfere na coagulação, especialmente na fabricação de queijos. Esse problema ocorre sem sintomas aparentes, fazendo com que o produtor continue ordenhando vacas infectadas sem perceber o prejuízo diário. A utilização de exames como CCS, CBT, cultura microbiológica e PCR permite identificar o problema precocemente e orientar decisões simples de manejo.

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Para ilustrar de forma clara essa diferença entre o úbere saudável e o úbere com mastite subclínica, apresenta-se a Figura 1, na qual é possível observar que, mesmo sem alteração visível no leite, há importantes mudanças internas, como o aumento da Contagem de Células Somáticas (CCS) e a presença de microrganismos associados à infecção. 

Figura 1. Comparação entre úbere saudável e úbere com mastite subclínica e seus efeitos sobre a CCS do leite.


Fonte: dos autores, 2026.

Um dos pontos mais importantes é a relação entre a CCS e o pagamento por qualidade. Muitas indústrias adotam tabelas de bonificação e penalização baseadas nos níveis de células somáticas. Quanto mais alta a CCS, maior o risco de mastite no rebanho e menor o valor pago pelo litro de leite. Assim, acompanhar a CCS não é apenas um dado técnico, mas sim uma ferramenta direta de renda. A Tabela 1 apresenta faixas típicas de CCS e seus possíveis efeitos no preço do leite, ilustrando como o controle de mastite subclínica pode se transformar diretamente em ganho financeiro na propriedade.

Tabela 1. Faixas de Contagem de Células Somáticas (CCS) e possíveis impactos no pagamento do leite ao produtor

Faixa de CCS (x1.000 células/mL)

Situação do rebanho

Possível impacto no pagamento

< 200

Excelente controle de mastite

Bônus por qualidade

200 – 400

Situação intermediária

Preço base, sem bônus

400 – 750

Alto risco de mastite subclínica

Possível redução no preço

> 750

Problema sanitário importante

Penalização e maior descarte de leite

Fonte: dos autores, 2026.

Além da CCS, a Contagem Bacteriana Total (CBT) é outro indicador essencial. Valores elevados indicam falhas de higiene na ordenha, limpeza inadequada do equipamento, problemas no resfriamento do leite ou uso incorreto de água e detergentes. Um simples gráfico de barras comparando CBT antes e depois de ajustes de manejo pode mostrar ao produtor como mudanças práticas trazem resultados rápidos.

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As análises microbiológicas permitem identificar quais microrganismos estão causando a mastite. De forma simples, podemos dizer que existem agentes ambientais, ligados a cama, barro e fezes, e agentes contagiosos, transmitidos principalmente durante a ordenha. Saber quem está presente no rebanho muda o tipo de controle; em alguns casos é preciso melhorar a higiene do ambiente; em outros, separar animais infectados e ajustar a rotina de ordenha.

Para melhor visualização de como as análises laboratoriais se traduzem em decisões práticas na fazenda, a Figura 2 apresenta um fluxograma simples do processo. Ele mostra que o caminho começa na coleta correta do leite, passa pela etapa de análise em laboratório, segue para a identificação do agente causador da mastite e, por fim, chega à decisão de manejo, que pode envolver tratamento ou descarte do leite. Esse passo a passo evidencia que a análise não é apenas um papel com números, mas uma ferramenta direta para orientar ações que reduzem perdas e melhoram a qualidade do leite.

Figura 2. Fluxograma do monitoramento e manejo da mastite subclínica


Fonte: dos autores, 2026.

O tema da resistência antimicrobiana também merece atenção. O uso repetido e incorreto de antibióticos aumenta a chance de falhas de tratamento. Os testes de sensibilidade realizados em laboratório ajudam o veterinário a escolher o medicamento mais eficaz, evitando gastos desnecessários e diminuindo o descarte de leite. Não é preciso entrar em detalhes técnicos, o importante é entender que tratar “no escuro” costuma sair mais caro.

O impacto da mastite subclínica não fica apenas na fazenda. Na indústria de queijos, o leite com CCS elevada apresenta alterações na composição, com redução de caseína e problemas na coagulação. Isso leva a menor rendimento, defeitos de textura e dessoragem mais difícil, prejudicando a qualidade do produto final. Assim, o controle de mastite também é uma estratégia para valorizar queijarias artesanais e industriais.

Para o produtor, o grande desafio é transformar o laudo de laboratório em decisão prática. Um caminho simples é acompanhar os resultados ao longo do tempo, identificar vacas com CCS consistentemente elevada, revisar rotina de ordenha e discutir os resultados com o veterinário. Os laudos podem ser usados em conjunto com planilhas simples ou aplicativos de manejo. A Figura 3 mostra desde a coleta correta do leite, passando pelo envio ao laboratório e obtenção do laudo, até a identificação do agente causador e a decisão de manejo. Essa sequência reforça que cada etapa no caminho que transforma a informação do laboratório em ação dentro da fazenda é importante. Assim, o produtor consegue sair do “papel com números” e chegar a medidas práticas, como tratamento, segregação de vacas ou ajustes na ordenha, reduzindo perdas e melhorando a qualidade do leite.

Figura 3. Fluxograma do monitoramento e manejo do leite


Fonte: dos autores, 2026.

Ao final, recomenda-se que o produtor utilize um checklist prático para organizar as ações de controle. Itens como manutenção do equipamento de ordenha, treinamento de ordenhadores, higiene do ambiente, segregação de vacas com CCS alta e coleta correta de amostras fazem grande diferença. O uso de análises laboratoriais não deve ser visto como algo distante ou técnico, mas como um aliado diário na gestão da propriedade. Quando realizadas de forma rotineira e bem interpretadas, elas permitem ações preventivas e corretivas que impactam diretamente a saúde do rebanho, a qualidade do leite e a rentabilidade da atividade (Figura 4).

Figura 4. Benefícios das análises laboratoriais no leite


Fonte: dos autores, 2026.

Portanto, a integração entre as análises laboratoriais e as práticas de manejo constitui uma abordagem moderna, prática e fundamentada em evidências, que permite ao produtor tomar decisões mais precisas, reduzir perdas, melhorar a qualidade do leite e otimizar o uso de medicamentos. Ao conectar diagnóstico, identificação de agentes infecciosos e estratégias de manejo, aumentam-se a eficiência produtiva, o rendimento na fabricação de derivados e, consequentemente, a sustentabilidade técnica e econômica das propriedades leiteiras.

Agradecimentos

Os autores agradecem às instituições que contribuíram diretamente para a execução desse trabalho, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais - Instituto de Laticínios Cândido Tostes (EPAMIG-ILCT).

Referências bibliográficas

Referências 

BRASIL. [Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento]. Instrução Normativa nº 76, de 26 de novembro de 2018. Aprova os Regulamentos Técnicos de Identidade e Qualidade que devem apresentar o leite cru refrigerado, o leite pasteurizado e o leite pasteurizado tipo A. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, p. 9, 30 nov. 2018.

Correia, H. F. (2025). Analise da contagem de células somáticas como ferramenta de predicação da mastite subclínica em cabras saanen, 2025.

Dos Santos, C. M., De Souza, Y. A., Freitas, J. S., Da Silva, B. M. A., Freitas, E. G., Lima, E., ... & Dantas Filho, J. V. (2025). Plano de Intervenção para Modernização Sustentável e Higiene em uma Propriedade Leiteira Familiar: Um Relato de Experiência em Monte Negro-RO. Revista Amazônica de Ciências Médicas e Saúde, 1(2), 12-20.

Viana, A. D., Andrade, C. D. C., Santos, D. L. R., & Sales, J. A. F. (2025). Avaliação do impacto da mastite subclínica na qualidade do leite e na produtividade de rebanhos bovinos, 2025.

Silva, M. T. D. S. (2025). Perfil de sensibilidade antimicrobiana de bactérias gram-positivas isoladas de vacas com mastite na região sudoeste maranhense. 2025.

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Material escrito por:

Tatiane Teixeira Tavares

Tatiane Teixeira Tavares

Bolsista de pesquisa nível I do Instituto de Laticínios Cândido Tostes - EPAMIG-ILCT.

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Juliana de Cássia Gomes Rocha

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Clarice Coimbra Pinto

Clarice Coimbra Pinto

Mestre em Ciência e Tecnologia do Leite e Derivados - Universidade Federal de Juiz de Fora.

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Rafaela Teixeira Rodrigues do Vale

Rafaela Teixeira Rodrigues do Vale

Eng. de Alimentos (UFCG), Mestre e Doutora em C&TA (UFV-DTA), Profª coordenadora do Núcleo de Estudos em Queijos (NEQue) do IF Sudeste MG Rio Pomba.

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Claudety Barbosa Saraiva

Claudety Barbosa Saraiva

Claudety Barbosa Saraiva - Professora Dra. e Pesquisadora do Instituto de Laticínios Cândido Tostes/EPAMIG.

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José Antônio de Queiroz Lafetá Junior

José Antônio de Queiroz Lafetá Junior

Professor/pesquisador do Instituto de Laticínios Cândido Tostes - EPAMIG-MG.

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