Na avaliação do profissional, a orientação técnica e as trocas de experiências estabelecidas durante o acompanhamento das fazendas podem modificar não apenas o espaço físico e produtivo das propriedades, mas também o contexto social das pessoas envolvidas. Os impactos, inclusive, ultrapassam os limites da porteira. “Entender que o aumento da produção e da rentabilidade envolve habilidades que vão além do conhecimento técnico torna esse profissional um dos principais elos da cadeia produtiva. Ele é o elemento-chave que conecta a ciência e a realidade do campo”, destaca.
Essa visão amplia a responsabilidade da assistência técnica. Mais do que conhecer os processos produtivos, é necessário desenvolver a capacidade de interpretar diferentes realidades e identificar como o conhecimento disponível pode contribuir para cada situação. Para Raul, é justamente essa habilidade de transformar ciência em soluções aplicáveis que determina o potencial de contribuição do profissional para o desenvolvimento da atividade leiteira.
Mais de uma década para transformar a sanidade do rebanho
Ao olhar para sua trajetória, Raul destaca duas realizações que considera especialmente importantes. A primeira está relacionada a um trabalho de mais de uma década voltado à erradicação da brucelose e da tuberculose no rebanho. O resultado exigiu um esforço prolongado e o comprometimento das pessoas envolvidas, além de recursos e disciplina estratégica. Trata-se de um exemplo de como os avanços na produção de leite dependem não apenas de conhecimento e orientação, mas também de continuidade, planejamento e engajamento para que os objetivos sejam alcançados.
A segunda realização está ligada à expansão da fronteira do conhecimento em sua área de atuação: a sanidade animal. Nesse caso, o destaque foi o desenvolvimento de pesquisas interdisciplinares que aproximam a medicina veterinária da ciência de dados. O trabalho busca contribuir para a construção da base teórica necessária à automação do diagnóstico da mastite subclínica bovina, aproximando diferentes áreas do conhecimento para desenvolver novas possibilidades de aplicação na pecuária leiteira.
As duas experiências, embora tenham naturezas distintas, deixaram um aprendizado em comum para o profissional: a importância do empenho para alcançar resultados consistentes. “As duas experiências me ensinaram que o tamanho do sucesso é proporcional ao esforço que empregamos”, afirma.
A falta de mão de obra acelera a busca por automação
Quando analisa os principais desafios da produção de leite brasileira, Raul aponta questões sanitárias que continuam exigindo atenção, como a mastite e a tuberculose bovina. São problemas conhecidos pelo setor, mas que ainda demandam trabalho contínuo de prevenção, controle e acompanhamento técnico. Há também fatores externos que afetam diretamente a atividade e fogem ao controle dos produtores. Entre eles, o profissional cita a relação entre os conflitos internacionais, a elevação dos preços dos fertilizantes e a escassez desses insumos no mercado.
Entretanto, na sua avaliação, um dos maiores desafios para os próximos anos está relacionado às mudanças demográficas brasileiras e às transformações nas relações de trabalho: a escassez de mão de obra no campo. O problema atinge produtores de diferentes perfis e representa uma pressão importante sobre os sistemas produtivos. Ao mesmo tempo em que gera dificuldades para manter a rotina das propriedades, essa realidade também impulsiona a necessidade de buscar alternativas para tornar a atividade menos dependente da disponibilidade de trabalhadores.
Nesse cenário, Raul enxerga a automação como um caminho que tende a ganhar ainda mais importância. A dificuldade de encontrar mão de obra pode funcionar como um fator de pressão para acelerar a adoção de tecnologias nos sistemas produtivos e ampliar o desenvolvimento de pesquisas relacionadas à automação.
Assim, um desafio que hoje compromete a organização de muitas propriedades também evidencia uma oportunidade para o avanço tecnológico da pecuária leiteira. A pesquisa e a inovação terão papel importante na construção de alternativas que permitam manter a eficiência dos sistemas diante das novas condições de trabalho no campo.
O produtor que evolui está atento ao que vem pela frente
Para Raul, uma das características que diferenciam os produtores que conseguem evoluir continuamente é a capacidade de olhar além das demandas imediatas da propriedade. Esses produtores, segundo ele, procuram antecipar situações e identificar necessidades futuras. Em alguns casos, contam com o acompanhamento de profissionais que conseguem perceber problemas antes que eles se tornem limitações importantes para o sistema produtivo.
Outro ponto decisivo é a atenção ao desenvolvimento tecnológico do setor. A disposição para conhecer novas ferramentas, rever práticas e experimentar alternativas contribui para que as propriedades mantenham ou ampliem sua produtividade. Mais do que seguir modelos estabelecidos, esses produtores demonstram abertura para fazer diferente e inovar quando identificam oportunidades de melhoria. “Os produtores que evoluem de forma mais consistente, normalmente, tentam enxergar além da demanda atual ou são assistidos por profissionais capazes de antever problemas futuros e estão atentos ao desenvolvimento tecnológico do setor”, explica.
Essa postura também reforça a importância da assistência técnica como parceira do produtor. Ao acompanhar as transformações do setor e identificar possibilidades de aplicação das novas tecnologias, o profissional pode ajudar a propriedade a se preparar para desafios que ainda não se manifestaram completamente.
O conhecimento técnico precisa caminhar junto com outras habilidades
Para os profissionais que estão começando na assistência técnica em propriedades leiteiras, Raul deixa um conselho: desenvolver habilidades que ultrapassem o conhecimento técnico. Isso porque a relação entre técnico e produtor não deve ser entendida como uma via de mão única. O trabalho envolve uma troca mútua de experiências, fundamental para que o profissional compreenda as particularidades de cada propriedade e consiga oferecer orientações adequadas à sua realidade.
Conhecer a técnica é indispensável, mas saber ouvir, estabelecer relações e compreender o contexto de quem está à frente da produção também faz parte da construção de uma assistência de qualidade. Além disso, a atualização profissional precisa ser permanente. A pecuária leiteira passa por transformações tecnológicas, e acompanhar esse movimento é essencial para identificar novas possibilidades e entender como elas podem ser aplicadas no campo.
Raul reforça que cabe ao técnico fazer essa conexão entre o conhecimento produzido e as necessidades das propriedades, transformando descobertas e avanços em soluções práticas. “Desenvolva outras habilidades que vão além do conhecimento técnico porque essa relação é de troca mútua de experiências e fundamental para compreender a realidade de cada produtor. Mantenha-se atualizado e atento ao desenvolvimento tecnológico da pecuária leiteira, pois será você que irá transformar as novas descobertas em soluções práticas.”
A mensagem sintetiza a visão de Raul sobre o papel da assistência técnica no desenvolvimento da cadeia leiteira: combinar conhecimento científico, capacidade de relacionamento e atenção às mudanças do setor para construir soluções que façam sentido na realidade de cada propriedade.
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"Um bom técnico não chega com todas as respostas, mas faz as perguntas certas"