A nutrição das vacas leiteiras tem avançado para além do simples fornecimento de nutrientes, passando a atuar de forma mais direcionada sobre o microbioma. Os pós-bióticos surgem como a terceira categoria dessa estratégia. Diferentemente dos probióticos, que fornecem microrganismos vivos, e dos prebióticos, que ofertam substratos para esses microrganismos, os pós-bióticos consistem nos compostos benéficos produzidos pelos micróbios, sem a presença dos organismos vivos.
Essa abordagem ganha relevância porque vacas leiteiras de alta produção operam dentro de margens metabólicas estreitas. O estresse do período de transição, as rápidas mudanças na demanda energética e a instabilidade da fermentação ruminal podem comprometer a integridade intestinal e o equilíbrio do sistema imune. Os pós-bióticos permitem influenciar esses processos mesmo quando as populações microbianas estão sob estresse, apresentam inconsistência ou demoram a se estabilizar.
Os pós-bióticos são produtos microbianos não vivos que interagem com o rúmen e com o sistema imunológico. De modo geral, incluem produtos de fermentação de leveduras, metabólitos de bactérias ácido-láticas e bactérias inativadas. Esses compostos podem contribuir para o fortalecimento da barreira intestinal, o apoio à sinalização imune, o estímulo à resiliência de microrganismos fermentadores de fibra e a redução dos impactos da disbiose associada ao estresse. Diferentemente dos probióticos, não dependem da sobrevivência durante o peletizado, do armazenamento ou da passagem pelo rúmen, o que representa uma vantagem prática no ambiente de fazenda.
Evidências em sistemas leiteiros
Em bezerros leiteiros, a inclusão de produtos de fermentação de levedura no sucedâneo de leite resultou em maiores ganhos médios diários e maior peso corporal após o desmame, mesmo com ingestão alimentar semelhante. Esses animais também apresentaram melhor absorção ruminal, evidenciada pelo aumento das concentrações plasmáticas de ácidos graxos voláteis, além de maior resposta imune à estimulação por lipopolissacarídeos no momento do desmame.
Durante o período de transição, pós-bióticos contendo produtos de fermentação de levedura demonstraram melhorar o desempenho de lactação e o estado metabólico de vacas leiteiras. A suplementação esteve associada à redução da inflamação e à melhora da função metabólica hepática, resultando em maior teor de gordura no leite e maior produção de leite corrigido para energia.
Em vacas leiteiras em lactação, estudos avaliaram a incorporação de produtos de fermentação de levedura na prevenção e no controle da dermatite digital. Os resultados indicaram redução do risco de ocorrência de lesões ulcerativas e ativas, além de desaceleração na progressão negativa das lesões.
Em casos de mastite, a administração de um pós-biótico contendo Lactococcus lactis inativado por calor mostrou-se tão eficaz quanto a utilização da bactéria viva para estimular uma resposta imune localizada. Os animais tratados com pós-bióticos apresentaram resposta de interleucina-8 igualmente intensa e taxas de cura, baseadas na contagem de células somáticas, semelhantes às observadas com o uso de probióticos vivos. Esses achados são relevantes para sistemas que enfrentam limitações relacionadas à estabilidade e à vida útil de microrganismos vivos.
Orientação prática na fazenda
A incorporação de pós-bióticos ao sucedâneo de leite pode apoiar o desenvolvimento adequado do rúmen e do intestino grosso, contribuindo para uma transição mais eficiente no pós-desmame. Esses compostos também podem ser utilizados de forma estratégica para apoiar o sistema imune em situações de estresse, como ondas de calor, mudanças de lote ou baia e períodos de vacinação.
É fundamental verificar as informações de rótulo, uma vez que doses e duração de uso variam conforme o produto e a fase produtiva. Por serem menos sensíveis às condições ambientais do que os probióticos, os pós-bióticos podem apresentar maior adaptabilidade às rotinas da fazenda.
Apesar do potencial, os pós-bióticos ainda são relativamente recentes na nutrição de ruminantes. Pesquisas mais amplas ainda estão em andamento, e as combinações de metabólitos mais eficientes podem não estar totalmente definidas. Além disso, os efeitos ao longo de múltiplas lactações permanecem pouco claros. O uso como ferramenta de precisão, e não como aditivo de aplicação generalizada, tende a ser uma abordagem mais consistente.
A adoção deve priorizar os momentos de maior risco, como a fase inicial de vida dos bezerros e o período de transição das vacas, nos quais os benefícios demonstrados são mais consistentes. A escolha de produtos com fonte microbiana e método de processamento claramente especificados é essencial, já que a simples indicação de “produto de fermentação” não garante transparência sobre sua composição.
Os pós-bióticos devem atuar de forma complementar ao manejo e não como substitutos. Práticas como pedilúvio, higiene de ordenha, acesso adequado à alimentação e manejo de cocho continuam sendo determinantes para os resultados produtivos e sanitários. Por fim, em períodos de menor estresse, é recomendável reavaliar a necessidade de suplementação contínua e seu retorno econômico.
As informações são do Dairy Herd Management, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.