Acidentes ofídicos em rebanho leiteiro, o que fazer?

Acidentes ofídicos em bovinos exigem ação rápida. Saiba como identificar sinais, evitar agravamentos e garantir o atendimento veterinário adequado ao rebanho.

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Acidentes ofídicos são picadas de serpentes peçonhentas que injetam veneno, causando inchaço e dor, e podem ser graves sem tratamento rápido. As principais serpentes envolvidas são Bothrops spp. (jararaca), Crotalus durissus (cascavel) e Lachesis spp. (surucucu). Fatores de risco incluem vegetação densa e períodos de chuva. Sinais clínicos variam com a serpente, e o tratamento envolve soro antiofídico e cuidados veterinários. Prevenções incluem manter pastagens limpas e evitar manejo em horários de alta atividade das serpentes.

O que são acidentes ofídicos? 

São acidentes causados pela picada de serpentes peçonhentas, que injetam veneno através das presas (aparelho inoculador). Esse veneno provoca alterações no local da picada, como inchaço e dor, além de causar efeitos no organismo do animal, que podem ser bastante graves se não houver tratamento rápido. É uma situação relevante na pecuária leiteira, especialmente em regiões de pastagem. As principais serpentes envolvidas nesses acidentes são: 

Bothrops spp. (jararaca) – a mais comum nos bovinos, responsável pela maioria dos casos 

Figura 1

Crotalus durissus (cascavel) – menos frequente, mas com quadros mais graves 

Figura 2

Lachesis spp. (surucucu) – ocorrência rara, porém com alta gravidade. 

Figura 3

 

Fatores de risco 

Os acidentes ofídicos em bovinos estão diretamente relacionados às condições do ambiente e ao manejo. Áreas de pastagem com vegetação alta, acúmulo de pedras, troncos, entulhos ou madeira oferecem abrigo ideal para serpentes, aumentando o risco de acidentes.

Além disso, os períodos de chuva, associados a temperaturas mais elevadas, favorecem a atividade e o deslocamento das serpentes, que saem em busca de alimento e locais secos, aumentando a chance de contato com os animais. Sistemas de criação extensivos, onde há menor presença de pessoas no manejo diário, também estão mais sujeitos à ocorrência desses acidentes, pela dificuldade de detectar precocemente a presença de serpentes e de observar rapidamente sinais nos animais. 

 

Sinais clínicos 

Os sinais clínicos dos acidentes ofídicos variam conforme a espécie de serpente envolvida. Nos casos causados pela jararaca (Bothrops), é comum observar edema (inchaço) acentuado no local da picada, geralmente em membros ou na região da cabeça, além de hemorragias espontâneas, que podem ocorrer nas narinas, mucosas e fezes. Os animais apresentam também apatia, fraqueza, anemia e, nos casos mais graves, podem permanecer decúbito (deitados) e evoluir para óbito se não forem tratados rapidamente.

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Já nos acidentes provocados pela cascavel (Crotalus), os sinais tendem a ser mais neurológicos e musculares, com tremores musculares, ataxia (dificuldade de locomoção) e salivação intensa. Um sinal muito característico é a urina avermelhada escura (mioglobinúria), que indica destruição muscular severa. 

Após identificação de picada de serpentes, há medidas e cuidados que devem ser tomados. Nos acidentes ofídicos, reconhecer a serpente agressora é fundamental para agilizar o diagnóstico, o tratamento e consequentemente, a utilização correta do antiveneno. É importante ressaltar que animais peçonhentos não devem ser tocados, mesmo que possam parecer mortos, sendo essa uma regra importante para evitar problemas maiores. 

 

Mas caso você esteja a campo despreparado, quais medidas tomar? 

O primeiro passo é observar os sinais clínicos no animal. Normalmente, o acidente ocorre quando o animal é picado em regiões mais expostas, como:

  • membros,
  • focinho,
  • face
  • úbere.

O produtor deve ficar atento a sintomas como inchaço repentino, dor intensa no local da picada, sangramento, mancar, dificuldade para se locomover, salivação excessiva, olhos parados, apatia, recusa alimentar e, em casos mais graves, urina escura ou sinais de paralisia. 

Ao suspeitar de uma picada de cobra, o ideal, se possível, é separar imediatamente o animal afetado do restante do rebanho. Deve-se colocá-lo em um local tranquilo, limpo e com sombra, de preferência onde possa repousar sem se movimentar muito, já que o esforço físico pode agravar os efeitos do veneno, acelerando sua circulação pelo organismo. 

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É muito importante que o produtor evite tratamentos caseiros. Não se deve fazer torniquetes com cordas ou elásticos, cortar o local da picada ou tentar sugar o veneno. Essas práticas não ajudam, podendo ainda agravar o quadro do animal. Também não se deve administrar medicamentos por conta própria sem a devida orientação, pois pode haver risco de reações adversas ou piora da condição. 

A prioridade deve acionar o médico-veterinário o quanto antes. Ao entrar em contato, o produtor deve explicar tudo o que observou:

  1. onde o animal foi picado,
  2. quanto tempo passou desde o ocorrido,
  3. como ele está se comportando
  4. se foi possível ver a cobra.

Qualquer detalhe visual da serpente — como cor, tamanho ou som de chocalho — pode ajudar o veterinário a determinar o tipo de veneno envolvido e o tratamento mais adequado. 

 

Tratamento

Nos casos confirmados ou fortemente suspeitos de acidente ofídico, o tratamento correto envolve a aplicação do soro antiofídico, que deve ser feito exclusivamente por um profissional capacitado. O soro será escolhido conforme o tipo de serpente (botrópico para jararaca, crotálico para cascavel, laquético para surucucu), ou, na dúvida, pode-se utilizar o soro polivalente. Além disso, o veterinário poderá administrar medicamentos para controle da dor, antibióticos para prevenir infecções secundárias e, em casos mais graves, realizar fluidoterapia. 

Quando não for possível o atendimento veterinário imediato, o produtor pode tomar algumas medidas de suporte: manter o animal bem hidratado, fornecer alimento de fácil mastigação e lavar a ferida com água limpa e sabão neutro, se houver acesso. No entanto, essas ações não substituem o tratamento profissional, e a busca por ajuda especializada deve ser feita o quanto antes. 

Por fim, vale destacar que, em algumas regiões, é possível adquirir o soro antiofídico polivalente em farmácias agropecuárias com autorização legal. Caso o produtor opte por manter uma dose na propriedade, o soro deve ser armazenado sob refrigeração adequada e nunca utilizado sem orientação veterinária, pois exige aplicação intravenosa e acompanhamento clínico. 

Em seguida, inicia-se a terapia de suporte, que inclui: 

  • Anti-inflamatórios (como flunixim) para aliviar dor e reduzir a inflamação. 
  • Antibióticos, para prevenir infecções secundárias causadas pela necrose no local da picada. 
  • Fluidoterapia, se houver sinais de desidratação ou comprometimento circulatório.
  • Vitaminas do complexo B e C, como apoio à recuperação. 

O local da picada deve ser limpo com antisséptico, e, se houver necrose, pode ser necessário fazer desbridamento cirúrgico (procedimento médico que envolve a remoção cirúrgica de tecido necrótico ou danificado de uma ferida para promover a cicatrização e prevenir infecções). Pomadas cicatrizantes e repelentes também ajudam a proteger a ferida. 

O animal deve ser monitorado nos dias seguintes para avaliar a recuperação e prevenir complicações. A ação rápida e o acompanhamento veterinário são fundamentais para garantir a vida do animal e evitar perdas no rebanho. 

Como medida de prevenção, recomenda-se que o produtor mantenha as áreas de pasto bem roçadas, evite deixar restos de alimento ou entulho ao redor das instalações e evite o manejo dos animais no início da manhã, fim da tarde ou à noite, períodos em que as serpentes estão mais ativas. Ter uma relação próxima com um médico-veterinário ou com a defesa agropecuária da região também é essencial para garantir a segurança do rebanho.

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Material escrito por:

Djeison Lutier Raymundo

Djeison Lutier Raymundo

Professor Adjunto da Universidade Federal de Lavras

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Heloisa Ferreira Prock

Heloisa Ferreira Prock

Aluna de graduação do curso de medicina veterinária da Universidade Federal de Lavras

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Rafaela de Toledo da Silva

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Oderman Oliveira Lima
ODERMAN OLIVEIRA LIMA

ITAPETINGA - BAHIA - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 12/08/2025

Bom artigo. Resumido mas direto ao ponto.
Qual a sua dúvida hoje?