A matemática, a genética e a "pureza" racial
Quando cruzamos animais das duas raças obtemos cordeiros que com exatamente 50% de genes de uma raça e 50% de genes da outra. No entanto, quando cruzarmos o animal "meio sangue" Santa Inês x Dorper com um outro Dorper "puro" dizemos que o resultado é um ¾ Doper, ou seja, um animal com 75% de sangue Dorper. Sim, mas não exatamente. Porquê? Porque os genes também se separam aleatoriamente e assim, o animal meio sangue pode passar mais genes de uma das duas raças que de outra e o resultado é, não exatamente, mas na média, 75% Dorper e 25% Santa Inês. Poderia ser qualquer coisa entre 50% Santa Inês e 100% Dorper!
Publicado em: - 3 minutos de leitura
Pegue 20 pedaços de papel e escreva a letra B.
Se você pegar a metade dos papeis com letra A e metade dos papéis com letra B e juntá-los você terá, obviamente, um grupo de vinte papéis, 10 com letra A e 10 com letra B.
Agora, sem olhar, tire desse grupo de papéis misturados, 10 papéis. Você poderá tirar 10 papéis com a letra A, nove com A e um com B, oito com A e dois com B, e assim por diante. Será mais fácil obter algo próximo de cinco A e cinco B.
Se você tivesse tempo e paciência de fazer essa brincadeira com milhares de papeizinhos, suponhamos 3000, você tiraria aleatoriamente algo próximo de 1500 A e 1500 B, mas muito dificilmente conseguiria exatamente 1500 de cada. Poderia ocorrer de você tirar 1352 As e 1648 Bs por exemplo, e isso não seria nenhum absurdo.
Bem, vocês devem estar pensando: o Octávio endoidou de vez! O que é que isso tem a ver com melhoramento ou com genética de ovinos?
Tem tudo a ver com uma prática muito usual no nosso dia a dia de criadores. Faça de conta que os papéis com a letra A sejam os genes de um animal da raça Santa Inês e os com a letra B sejam, por exemplo, da raça Dorper. Quando cruzamos animais das duas raças obtemos cordeiros que com exatamente 50% de genes de uma raça e 50% de genes da outra. No entanto, quando cruzarmos o animal "meio sangue" Santa Inês x Dorper com um outro Dorper "puro" dizemos que o resultado é um ¾ Doper, ou seja, um animal com 75% de sangue Dorper. Sim, mas não exatamente. Porquê? Porque os genes também se separam aleatoriamente e assim, o animal meio sangue pode passar mais genes de uma das duas raças que de outra e o resultado é, não exatamente, mas na média, 75% Dorper e 25% Santa Inês. Poderia ser qualquer coisa entre 50% Santa Inês e 100% Dorper!
Para quê tanta volta? Bem, para mostrar que é uma grande bobagem achar que precisamos de várias gerações de cruzamentos absorventes para considerar os produtos P.O. Na terceira geração de cruzamentos absorventes, por exemplo, o animal chamado 7/8 terá, em média 87,5% da raça que absorve e 12,5% da raça absorvida. Na quarta geração, o 15/16, será 93,75% da raça que absorve e 6,25% da absorvida. Note-se que, depois da primeira geração todos são "em média" ou "aproximadamente" esses valores.
Isto faz com que os animais 7/8 sejam muito próximos dos 15/16 e estes muitíssimo próximos dos 31/32. Para mim, eles são iguais. É muito mais razoável atingir o status de P.O. no sistema aceito para as raças ovinas nativas, o que acontece na 5ª geração, que no exigido para as exóticas, o que acontece na 9ª geração! Na 9ª geração o animal é um 511/512 ou 99,8% de pureza... ora, tenha paciência!
Para reforçar o que estou falando, afirmo, baseado em constatações científicas, que não existe raça pura! Primeiro porque raça é uma classificação baseada no fenótipo, ou seja, na aparência. Segundo, porque para que houvesse a tal pureza, os animais de uma determinada raça deveriam ser idênticos, ou seja, deveriam ser clones uns dos outros. Só assim poderíamos afirmar que um indivíduo, com 6,25% de genes diferentes desses clones, não pertenceria a essa "raça".
Com as possibilidades que se tem hoje de clonar indivíduos é possível que algum louco esteja por aí pensando em formar uma raça de clones, mas aí é preciso ter consciência do seguinte: se não houver variação genética não há como melhorar nada geneticamente. Seria como pegar bolas de sinuca para escolher qual é a mais redonda.
Por outro lado, a matemática louca dos registros genealógicos admite certos malabarismos estranhos. Um carneiro ProvI acasalado com uma ovelha ProvI, gera um produto ProvII, um ProvII com outro ProvII, geram um ProvIII. Como é que um indivíduo com um grau de sangue acasalado com outro com o mesmo grau geram um terceiro com um grau maior??? É o mesmo que querer que um indivíduo ¾ com outro ¾ gerem um 7/8. É até possível, mas é bem pouco provável. Tente obter isso usando os papeizinhos...
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Material escrito por:
Octávio Rossi de Morais
Melhoramento Genético de Caprinos e Ovinos - Embrapa
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PRAIA GRANDE - SÃO PAULO
EM 30/12/2017

POMERODE - SANTA CATARINA - ESTUDANTE
EM 29/01/2015
Obrigado
BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PESQUISA/ENSINO
EM 14/02/2012

NATAL - RIO GRANDE DO NORTE - PRODUÇÃO DE CAPRINOS DE CORTE
EM 14/02/2012
PS: Sou apenas um leitor em busca de conhecimento para futuramente comprar meus primeiros animais, provavelmente um reprodutor Dorper com algumas fêmeas Santa Inês. Objetivo: ovino de corte.
Parabéns pelo artigo.
BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PESQUISA/ENSINO
EM 22/09/2008
ARAÇAS - BAHIA
EM 09/09/2008
A ARCO poderia se atualizar no assunto e fazer mudança.
Salete.

TRÊS PALMEIRAS - RIO GRANDE DO SUL - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS
EM 28/08/2008
BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - PESQUISA/ENSINO
EM 27/08/2008

PORTO VELHO - RONDÔNIA
EM 26/08/2008
BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL
EM 25/08/2008
Parabéns Dr. Octávio. Mais um artigo interessante que põe mais lenha na fogueira do melhoramento genético.
abraços