A claudicação continua sendo um dos maiores desafios econômicos e de bem-estar nos rebanhos leiteiros modernos. O casqueamento do gado leiteiro é frequentemente realizado como manutenção de rotina, mas o Dr. Gerard Cramer, pesquisador líder em claudicação da Universidade de Minnesota, argumenta que a questão deve ser encarada de forma diferente.
“Gosto de pensar na apara de cascos como uma intervenção. E há dois objetivos, certo? O objetivo é prevenir a claudicação ou tratá-la”, disse Cramer no podcast “The Dairy Health Blackbelt ”. “Quando penso em programas de casqueamento, quero ter certeza de que os baseamos em dados, mas também de que estamos fazendo algo que seja bom do ponto de vista preventivo, do ponto de vista econômico e de bem-estar.”
Embora o casqueamento rotineiro seja uma ferramenta comprovada para reduzir a incidência de claudicação, ele não é isenta de riscos. O aparo excessivo pode causar danos aos tecidos moles. Entender o momento certo e os procedimentos corretos para aparar os cascos das vacas são fatores importantes para manter a saúde dos cascos.
Principais objetivos do casqueamento:
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Remover o crescimento excessivo para restaurar a sustentação adequada do peso e reduzir pontos de pressão;
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Promover uma distribuição mais uniforme da carga sobre os cascos;
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Prevenir ou tratar lesões;
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Facilitar a detecção precoce de problemas nos cascos.
“Quando projetamos um programa de casqueamento, queremos garantir que os benefícios superem os custos”, afirma Cramer. “Sempre que levamos uma vaca para a área de casqueamento, há um custo econômico envolvido, mas também um custo em termos de estresse para o animal.”
Ele explica a matemática por trás dos programas preventivos e por que eles podem não ser vantajosos para todos os rebanhos.
Se cada casqueamento custa cerca de US$ 20 por vaca, tratar 100 animais saudáveis significa um investimento de US$ 2.000. Considerando que o custo médio de um caso de claudicação chega a US$ 300, a fazenda precisaria evitar de seis a sete novos casos para atingir o ponto de equilíbrio.
Pesquisas indicam que o retorno pode ser limitado. Em vacas de primeira lactação, o casqueamento reduz a incidência de novos casos em apenas 1% — ou seja, apenas um caso a cada 100 vacas. Em vacas mais velhas, o efeito tende a ser um pouco maior, mas ainda longe dos seis ou sete casos necessários para compensar os custos totais.
Estratégia em vez de rotina
Em vez de realizar casqueamentos preventivos em todo o rebanho, Cramer recomenda que produtores e veterinários pensem em intervalos de intervenção: quantas oportunidades existem para colocar uma vaca na baia de casqueamento? E, principalmente, quais animais oferecem maior retorno quando recebem esse cuidado?
“Quero ter certeza de que estou colocando as vacas certas no espaço de casqueamento”, explica. “Não devo ocupar esse espaço com um casqueamento preventivo quando ali deveria estar uma vaca já manca.”
Essa mudança exige equilibrar programas de rotina com intervenções direcionadas. Cramer ainda apoia o casqueamento no período seco e em casos crônicos, mas alerta que a prática preventiva e generalizada pode consumir tempo e mão de obra que seriam mais bem aplicados em animais de risco.
Encontrando os animais certos
Para que a estratégia funcione, a fazenda precisa ter sistemas confiáveis de detecção precoce de claudicação.
“Isso só funciona em propriedades dispostas a dedicar recursos para identificar vacas mancas”, ressalta Cramer. “Podemos recorrer à tecnologia — que ainda não está 100% acessível — ou contar com mão de obra.”
Ele sugere a criação de rotinas de observação: por exemplo, visitas semanais aos currais, estruturadas de modo que a observação seja feita em períodos curtos e consistentes. As vacas podem ser avaliadas enquanto caminham pelos corredores de retorno da ordenha, o que facilita a identificação de alterações na marcha ou na postura.
Equilibrando bem-estar, trabalho e custos
Além da matemática, há aspectos práticos e éticos no manejo dos cascos. Manipular vacas para o casqueamento gera estresse; por outro lado, aparar sem necessidade pode retirar material em excesso e predispor os animais a problemas.
Ao serem seletivos, os produtores conseguem usar a mão de obra de forma mais eficiente e reduzir o tempo de baia ocupado.
“É preciso um nível diferente de gestão para implementar isso”, reforça Cramer. “Mas assim temos uma solução que é melhor tanto para o animal quanto para a fazenda, do ponto de vista econômico.”
A mensagem central é clara: o casqueamento deve ser direcionado, não automático. Quando aplicado nos momentos certos e aos animais certos, melhora o bem-estar, reduz a duração da claudicação e garante melhor aproveitamento de tempo e recursos.
As informações são do Dairy Herd, traduzidas pela equipe MilkPoint