Enquanto isso, as vendas de leite de vaca começam a se recuperar após um longo período de queda. Os consumidores estão voltando à bebida, vista por muitos como uma opção mais acessível e também mais saudável. As bebidas vegetais ganharam espaço na década de 2010, em parte porque eram percebidas como uma alternativa mais sustentável ao leite de vaca. A Oatly, fabricante sueca, afirma que, na Grã-Bretanha, sua bebida de aveia tem um impacto climático equivalente a apenas um terço do leite de vaca.
Mas a queda nos preços do leite em 2023, somada ao aperto financeiro sentido por muitos consumidores no período pós-pandemia, ajudou a trazer parte desse público de volta ao leite de vaca. Ao mesmo tempo, a crescente preocupação com alimentos ultraprocessados e a maior atenção aos rótulos fizeram com que ingredientes como gomas, óleos, açúcares e aromatizantes presentes em algumas bebidas vegetais passassem a ser mais questionados.
Vale destacar que o leite de vaca contém de três a quatro vezes mais proteína do que a bebida de aveia. Na Arla, maior cooperativa de laticínios da Europa, a receita gerada por produtos ricos em proteínas, como quark e skyr, cresce 25% ao ano desde 2024.
Os fabricantes de bebidas vegetais, por sua vez, também estão apostando cada vez mais no apelo à saúde. Zoe Gardner, chefe de marketing da Alpro, marca de bebidas vegetais da Danone no Reino Unido, afirma que a estratégia de crescimento da empresa passa pela fortificação dos produtos com cálcio, proteína, iodo e vitaminas. Na América do Norte, as novas bebidas e iogurtes de soja Silk Protein, da empresa francesa, destacam no rótulo ter “50% menos açúcar do que o leite de vaca comum”. Entre fabricantes menores, a MALK aposta em outro argumento: seus produtos são rotulados como “sem goma”.
John Crawford, da Circana, compara os consumidores que adotaram as bebidas vegetais aos apreciadores de coca-cola diet. Muitos deles, segundo ele, são “completamente fiéis” ao produto e passaram a enxergá-lo como uma bebida com sabor e características próprias, e não simplesmente como uma substituta do leite.
Essa fidelidade pode ajudar a explicar por que algumas bebidas criadas para reproduzir o sabor do leite de vaca não conseguiram se firmar. Tanto a Arla quanto a Danone já descontinuaram marcas que apresentaram baixo desempenho. Para os fabricantes de bebidas vegetais, porém, a inovação pode estar justamente no caminho contrário: deixar de tentar ser apenas uma alternativa ao leite de vaca.
Bryan Carroll, gerente-geral da Oatly na Grã-Bretanha e na Irlanda, afirma que uma simples “alternativa ao leite de vaca” já não é suficiente. Segundo ele, novos sabores vêm ganhando espaço, especialmente entre os consumidores mais jovens.
Pipoca e matcha estão entre as apostas. O sabor matcha, feito com o popular pó de chá verde, tornou-se o produto saborizado mais vendido da Oatly desde seu lançamento, em 2025. Na Alpro, Gardner afirma que o sucesso da bebida sabor rolinho de canela levou a empresa a apostar em uma nova estratégia baseada em sabores sazonais. Enquanto isso, bebidas vegetais à base de pistache, noz-pecã e cevada começam a chegar às prateleiras dos supermercados. A Tastewise, empresa que analisa conversas nas redes sociais, identificou um aumento expressivo do interesse por esses produtos no último ano. Na direção oposta, caiu o interesse por bebidas de aveia, amêndoa e castanha de caju.
Talvez o futuro das bebidas vegetais esteja, portanto, menos em disputar espaço com o leite de vaca e mais em criar uma categoria própria. Nesse cenário, os novos sabores podem conquistar justamente o público que os tradicionais não conseguiram.
As informações são do Economist, traduzidas pela Equipe MilkPoint.
Que tal ler também?
Do matcha latte ao smoothie: como o leite ganhou novas formas de consumo entre a geração Z