Os anos 90 mergulharam a bacia leiteira do Nordeste numa crise sem precedentes. O surgimento de novas tecnologias, visando aprimorar processos de industrialização, fez a produção crescer ao ritmo de 5% ano, mas não se converteu em aumento de renda para o pecuarista, situado no início da cadeia produtiva. Além disso, o leite longa vida avançou e se consolidou na década passada, ocupando os espaços dos concorrentes, ditando um novo hábito de consumo. Mas o tiro de misericórdia aconteceu com a abertura de mercado, em 1991. De lá para cá, vieram os desajustes no setor e os produtores não conseguiram, até hoje, se adaptar à nova realidade.
Depois de 46 anos de vigência, a portaria que dava aos governos estaduais o papel de balizador de preços na cadeia produtiva do leite, cedeu espaço ao livre mercado. "Foi aí que a atividade começou a declinar, principalmente no Nordeste. A interferência do Governo assegurava ao produtor até 60% do preço final de varejo, enquanto hoje essa remuneração não passa de 25%", compara o vice-presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), Pio Guerra.
Guerra, que também é produtor, recorda que o criador nordestino conseguia preços 20% superiores aos do Centro-Sul, em função dos custos de produção mais elevados. "O calor do semi-árido reduz a produtividade, a água e as pastagens são escassas. Não temos matéria-prima disponível para a ração dos animais", diz. Com a ausência de uma política leiteira, os preços pagos ao produtor da região despencaram de US$ 0,38 para US$ 0,11; figurando entre as remunerações mais baixas do mundo.
Alagoas, que há dez anos ocupava o primeiro lugar no ranking nordestino, perdeu posições e vive uma de suas piores crises. O aumento dos insumos nos últimos cinco anos, as dívidas inegociáveis com os bancos e a queda no preço do leite contribuíram para formar o quadro atual. Hoje, 350 propriedades da bacia leiteira correm o risco de ir a leilão para quitar débitos com o Banco do Nordeste.
Na Bahia, maior produtor da região, 2,1 milhões de litros/dia, a perda de espaço do pasteurizado foi um dos principais determinantes para o fechamento de cerca de 50 microusinas nos últimos cinco anos. Somente na região do Recôncavo foram cinco.
Para tirar os produtores da crise, só com iniciativas como as em execução no Rio Grande do Norte. Lá, o Programa do Leite, uma iniciativa do Governo do Estado, fez a produção saltar de 60 mil para 700 mil litros/dia entre 1995 e 2001. O Governo, garante a compra de 130 mil litros/dia ao preço de até R$ 0,35. "Pode parecer assistencialismo, mas vem dando certo", diz um produtor da região do Seridó.
O fato é que, na maioria dos estados faltam políticas para o setor, levando o Nordeste a amargar acelerado processo de empobrecimento rural. Na atividade há 30 anos, o produtor pernambucano Walfidro Corvelo sabe bem o que é isso. Ele diz que o livre mercado dificultou a competitividade do leite nordestino. "O setor desorganizou-se com a privatização da Cilpe (Companhia Industrial de Leite de Pernambuco) em 1994, somada a fatores como longos períodos de estiagem e a disputa com os produtores do Centro-Sul que têm melhores condições de infra-estrutura".
Corvelo lembra que a sua produção despencou cerca 40% nos últimos seis anos, caindo de 1.200 litros/dia, em 1994, para os atuais 700 litros/dia. "O produtor do Agreste permanece na atividade por paixão e por falta de alternativas viáveis", desabafa.
A concorrência com as grandes indústrias estimulou a migração de laticínios de pequeno porte para a informalidade. O leite in natura, que há dez anos representava 30% da oferta nacional, ocupa hoje 40% do mercado. Na Região, esse percentual chega a 50%.
"É no mercado paralelo onde o produtor consegue melhor remuneração, vendendo para queijarias e laticínios de pequeno porte dos municípios", observa o diretor do Sindicado dos Produtores de Leite de Pernambuco, Estênio Galvão.
Isso porque as chances de figurar nas gôndolas dos supermercados ficaram ainda mais distantes com a introdução do longa vida, que rompeu a barreira da durabilidade e atingiu em cheio o pequeno produtor. Como competir com um produto cujo processo de produção garante vida de seis meses ao leite, diante da oferta cíclica e perecível do pasteurizado?
Criado em 1972, o longa vida teve que esperar quase duas décadas para marcar sua posição no mercado. "A interferência do Governo dificultava a competitividade porque os preços eram tabelados e a diferença de valor entre o pasteurizado e o longa vida era grande", explica o presidente da Associação Brasileira de Leite Longa Vida (ABLV), Almir Meireles. Para se ter uma idéia do rápido avanço do produto, em 1991 a produção nacional foi de 204 milhões de litros, enquanto no ano passado fechou em 3,9 bilhões.
Em 2002, a expectativa da ABLV é que a produção avance para 4,2 bilhões de litros. Para desespero dos produtores nordestinos, a associação espera ampliar em pelo menos 10% ao ano as vendas na Região, onde o longa vida representa apenas 12% do mercado, contra os 56% de participação nacional. "O leite em pó continua liderando o consumo nordestino com 70% das vendas", observa Meireles. "Mas, se o Sudeste trocou o pasteurizado pelo longa vida, porque o Nordeste não vai desistir do produto em pó?", questiona.
O presidente do Sindleite/PE, Paulo Correia, tem a resposta: "Além da durabilidade do produto, o uso do leite em pó no Nordeste tem razão social. Há pelo menos três décadas a população carente usa o produto em subdosagens para alimentar seus filhos", explica.
Ceará amarga perda de competitividade
No Ceará, praticamente inexiste convergência nas ações e interesses dos principais atores da bacia leiteira - pecuaristas e laticínios. Também não se vê políticas públicas consistentes para o setor - que, excetuando estratégias pontuais de sucesso, vem perdendo competitividade e importância econômica nos últimos anos.
De acordo com a Federação da Agricultura do Ceará (Faec), o Estado já ocupou a liderança de produção no Nordeste e hoje caiu para a quarta posição no ranking. O Ceará produz hoje cerca de 600 mil litros de leite/dia, dos quais 35% são direcionados à indústria de laticínios.
Conforme o diretor da Faec, Flávio Saboya, os produtores rurais são o elo mais fraco e prejudicado dessa cadeia - cuja desagregação se expressou de forma enfática na segunda quinzena de fevereiro, quando o Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados (Sindlaticínios), rompendo um "acordo de cavalheiros", decidiu reduzir a cotação do produto, de R$ 0,35 para R$ 0,31.
Segundo ele, o combinado entre produtores e indústria é de que a cotação do leite "extra-cota" seria discutida entre as partes na primeira semana de março. "Eles unilateralmente e de forma cartelizada, decidiram o novo preço. Estamos pensando em levar a questão para o Serviço Especial de Defesa Comunitária (Decom)", afirmou.
Saboya, que também é presidente do Sindicato dos Produtores de Leite do Estado do Ceará (Sindleite), diz que normalmente se garante a compra por um preço fixo do volume constante entregue ao longo do ano e se aplica uma cotação menor apenas para o excedente da época chuvosa (extra-cota). "Nesse caso, o sindicato dos laticínios baixou indistintamente a cotação de ambas situações", reclama.
Poucos produtores escaparam da redução de preço - que na prática nivelou por baixo a cotação do leite. "Tiveram consideração conosco, porque somos fornecedores tradicionais e temos custos muito elevados", pondera Francisco Carneiro Lima, sócio-diretor da fazenda Canafístula, em Quixeramobim, a 200 quilômetros de Fortaleza.
Ele argumenta que a Canafístula, com cerca de 1,25 mil vacas em lactação e produção de 13,4 mil litros/dia, tem custo fixos elevados. "Na época da estiagem, somos forçados a manter o gado em confinamento, com elevados gastos com ração", ressalta. Apesar de não ter sido atingindo com a redução do preço do leite, ele diz que mesmo assim a situação é desfavorável, por causa da reduzida margem de lucro do setor.
Alagoanos dependem dos grandes laticínios para vender produto
Dez anos após ocupar o 1o lugar no ranking de produção de leite no Nordeste, Alagoas vive uma de suas maiores crises. O aumento dos insumos nos últimos cinco anos, as dívidas inegociáveis dos financiamentos para o fomento da atividade e a queda do preço do produto foram os principais fatores para a configuração do quadro atual.
A Bacia Leiteira alagoana possui dezenas de laticínios mas depende das grandes indústrias para comercializar o que produz. Ela é composta em sua imensa maioria - aproximadamente 90% - por pequenos produtores, que se concentram principalmente na região do Sertão, onde basicamente não há outra alternativa agrícola para amenizar a dependência da produção leiteira.
Essa dependência e a super-oferta de leite no mercado interno registrada no último ano são atualmente, de acordo com o presidente da Cooperativa dos Produtores de Leite de Alagoas (CPLA), Ricardo Barbosa, os principais agentes da crise vivida pelo setor. "O produtor de leite em Alagoas está presenciando a decadência de sua atividade e isso não acontece apenas com os pequenos. Os grandes sofrem as conseqüências dos exorbitantes custos de produção, já que utilizam uma tecnologia mais sofisticada", explica Barbosa.
Ações como o estabelecimento de um preço mínimo para cobrir o aumento superior a 200% nos custos de produção, ocorrido nos últimos seis anos, e a adesão de prefeituras e Governo à compra do leite produzido no Estado, são apontadas como importantes para reverter o quadro negativo. Hoje, os pecuaristas reclamam da ausência de poder de barganha para negociar com as indústrias.
O segmento vem travando uma verdadeira batalha com os grandes laticínios nos últimos meses, inclusive com a proposta de instauração de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar uma possível cartelização de mercado.
"De uns dois anos pra cá, as indústrias fecharam um acordo para manter o preço num patamar muito baixo. Entramos no vermelho e agora não há o que fazer. Isso está esfacelando o produtor. O que acontece aqui em Alagoas é o reflexo do que está acontecendo no Brasil", diz Ricardo Barbosa. De acordo com o presidente da cooperativa, há dez anos a margem de lucro do produtor em relação ao preço final do leite girava em torno de 50% a 60%. Hoje, essa margem caiu bruscamente para cerca de 20%.
No início do Plano Real, os pecuaristas recebiam pelo litro de leite R$ 0,40. Esse valor foi caindo ano a ano até chegar a R$ 0,28 no ano passado. No último mês, os produtores conseguiram negociar um aumento com as indústrias para comercializar o leite por R$ 0,32 e, a partir de 1o de abril (dependendo de como o mercado se comportar) a R$ 0,34.
Segundo o presidente da Valedourado - uma das líderes do mercado com unidades industriais em Alagoas, Minas Gerais e Bahia -, Ricardo Sampaio, é impossível conceder o aumento exigido pelos produtores. "Não podemos desconsiderar o cenário econômico em que estamos inseridos e fazer um aumento sem prever possíveis prejuízos. É impossível um aumento de preço sem que o consumidor sofra com isso", explica o empresário, refletindo o posicionamento da indústria local e dando pistas de que, pelo menos por agora, essa questão não deve ser resolvida.
O avanço da clandestinidade na Bahia
Nem longa vida, nem pasteurizado, muito menos em pó. O cenário de comercialização de leite na Bahia ainda é dominado pelo leite in natura, produto clandestino que responde por mais da metade das vendas. Do total de 800 milhões de litros anuais produzidos no Estado, estima-se que cerca de 448 milhões não contam com garantia de procedência.
Entre os leites fluidos legalizados, o longa vida ou UHT representa 90% das vendas, segundo estimativas da Associação de Usinas e Micro Usinas do Estado da Bahia (Amil). A entidade calcula que apesar do avanço do UHT, cerca de 80% das 260 agroindústrias existentes no Estado seguem trabalhando com leite pasteurizado, enquanto o número de empresas que adotaram o longa vida não ultrapassa cinco em toda a Bahia.
Não há dados sistematizados sobre o consumo e produção de leite em pó, concentrada em apenas três indústrias - a unidade da Nestlé em Itabuna, a Valedourado de Itapetinga e a Cooperativa Central de Laticínios da Bahia (CCLB). Esta última beneficia uma média diária de 20 mil quilos de leite em pó. Já a Nestlé processa uma média diária de 200 mil litros de leite fluido para produção do leite em pó.
De acordo com o coordenador do Programa de Recuperação da Pecuária Leiteira da Bahia (Pró-Leite), Cândido Vasconcelos, o leite em pó responde por aproximadamente 70% dos 200 milhões de litros importados anualmente pela Bahia junto a outros estados. "A exemplo do que acontece em todo o Nordeste, na Bahia o consumo de leite em pó é alto, estimulado por fatores como durabilidade", aponta.
O volume de leite em pó produzido no Estado ainda está muito distante da demanda, segundo Vasconcelos. "O problema é que o processo de secagem exige equipamentos caros, distantes da capacidade financeira das empresas baianas", justifica o presidente da Amil, Tarcísio Oliveira.
Primeiro produtor de leite do Nordeste, com uma participação de 38%, a Bahia registra consumo interno de 1 bilhão de litros por ano, para uma população de cerca de 13 milhões de habitantes. O Estado ocupa a sétima posição em produção no Brasil, que produziu 21 bilhões de litros de leite em 2001.
De acordo com a Amil, a perda de espaço do pasteurizado determinou o fechamento de cerca de 50 microusinas na Bahia, ao longo dos últimos cinco anos. Somente na região do Recôncavo foram cinco a encerrar as atividades.
"Quem permaneceu na atividade produz hoje pequena quantidade de pasteurizado e investe na fabricação de derivados como saída para a perda de mercado", relata Oliveira. A empresa de sua propriedade é uma das que optaram por esta estratégia. Nos últimos 10 anos, as vendas do leite pasteurizado na JL Agro Pecuária Ltda caíram 50%. A solução foi passar a investir em derivados a partir de 1994. A empresa, situada em Candeias, na Região Metropolitana de Salvador, produz iogurte, queijo frescal, ricota, creme de leite e está lançando os queijos mussarela, lanche e coalho e também manteiga. "Conseguimos recuperar a renda perdida com o pasteurizado, mas o custo de produção de derivados é maior, o processo é mais difícil e as embalagens são caras, por isso a maior parte dos produtores não tem condições de aderir aos derivados", explica.
Oliveira acredita que a tendência do leite pasteurizado é de desaparecer se não houver uma campanha intensa de divulgação do produto, o que já vem acontecendo em São Paulo, numa iniciativa da Associação Brasileira das Indústrias de Leite Pasteurizado (ABILP).
Fonte: Gazeta Mercantil (por Mariana Carneiro, Darlan Moreira, Adriana Guarda, Aloísio Pontes e Milena Andrade), adaptado por Equipe MilkPoint
Uma década de crise na bacia leiteira do Nordeste
Publicado por: MilkPoint
Publicado em: - 12 minutos de leitura
QUER ACESSAR O CONTEÚDO?
É GRATUITO!
Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no MilkPoint.
Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!
Publicado por:
MilkPoint
O MilkPoint é maior portal sobre mercado lácteo do Brasil. Especialista em informações do agronegócio, cadeia leiteira, indústria de laticínios e outros.