Ganho genético: usar apenas os melhores touros garante a evolução do rebanho?
É comum ouvir produtores afirmarem: "Eu uso apenas os melhores touros do mercado. Meu rebanho está melhorando muito mais rápido que os outros."
Mas será que isso é verdade?
A resposta pode surpreender muita gente: utilizar sêmen dos melhores touros é importante, mas, sozinho, não garante o máximo ganho genético. Se fosse assim, todos os produtores que utilizassem os mesmos reprodutores teriam rebanhos praticamente iguais após alguns anos. E sabemos que isso não acontece.
Basta observar propriedades de uma mesma região, que trabalham com sistemas semelhantes de produção, possuem manejo parecido, instalações equivalentes e utilizam touros de alto mérito genético. Ainda assim, alguns rebanhos evoluem muito mais rapidamente em produção de leite, sólidos, fertilidade, longevidade , saúde e conformação. O que explica essa diferença?
A resposta está nas decisões de seleção.
O verdadeiro ganho genético acontece quando o produtor escolhe, geração após geração, quais animais serão responsáveis pela próxima geração. O touro é uma parte importante dessa equação, mas as fêmeas selecionadas para produzir as futuras bezerras têm peso igualmente decisivo. É a combinação dessas escolhas que determina a velocidade e intensidade com que um rebanho evolui.
Afinal, o que é ganho genético?
Chamamos de ganho genético, ou progresso genético, a melhoria que um rebanho apresenta de uma geração para outra. Essa evolução não acontece por acaso nem depende exclusivamente da compra de um bom sêmen. Ela é resultado de uma série de decisões tomadas dentro da fazenda: quais vacas permanecem produzindo, quais novilhas serão recriadas, quais animais serão descartados, quais touros serão utilizados e como os acasalamentos serão planejados.
Quando essas decisões são tomadas com base em informações genéticas confiáveis, o progresso ocorre de forma consistente e acumulativa. Ao longo dos anos, pesquisadores identificaram quatro fatores que determinam a velocidade desse avanço. Entender esses componentes ajuda o produtor a enxergar que genética vai muito além da escolha do touro.
1. Confiabilidade das informações: escolher certo é mais importante do que simplesmente escolher
A primeira pergunta que todo produtor deveria fazer é bastante simples: eu realmente sei quais são os melhores animais do meu rebanho? Durante muito tempo, essa resposta era baseada apenas na produção de leite ou na aparência das vacas. Hoje, felizmente, temos ferramentas muito mais precisas para identificar o potencial genético dos animais.
As informações podem ser obtidas por diferentes caminhos. O pedigree fornece uma estimativa baseada na média genética dos pais. As avaliações genéticas incorporam o desempenho produtivo dos animais e de seus parentes. Mais recentemente, a genômica passou a permitir estimativas muito mais precisas ainda em animais jovens, enquanto novas ferramentas de inteligência artificial começam a ampliar a capacidade de análise dessas informações.
Quanto maior a confiabilidade dessas avaliações, maior será a probabilidade de selecionar animais que realmente transmitirão superioridade genética para seus descendentes.
Também é importante lembrar que essa confiabilidade varia conforme a característica analisada. Características de produção, como leite, gordura e proteína, apresentam herdabilidade moderada e costumam responder mais rapidamente à seleção. Já características relacionadas à fertilidade, saúde e longevidade possuem herdabilidade menor, exigindo avaliações ainda mais criteriosas e seleção contínua ao longo do tempo.
Por isso, conhecer a genética das fêmeas é tão importante quanto escolher bons touros. Utilizar um excelente reprodutor em vacas geneticamente inferiores limita consideravelmente o potencial de ganho do rebanho.
2. Intensidade de seleção: quem realmente deve produzir a próxima geração?
O segundo componente diz respeito à intensidade de seleção, ou seja, ao rigor utilizado para escolher quais animais produzirão as futuras bezerras.
Na prática, muitos produtores ainda recriam praticamente todas as novilhas disponíveis e descartam apenas animais com problemas reprodutivos, sanitários ou produtivos. Embora isso seja necessário, não é suficiente para acelerar o progresso genético.
O ganho aumenta quando apenas os indivíduos geneticamente superiores permanecem como pais da próxima geração. Isso exige conhecer profundamente o próprio rebanho e responder a perguntas importantes: quais são as melhores vacas para o meu sistema de produção? Quais novilhas realmente merecem ser recriadas? Quais animais apresentam menor mérito genético e podem ser direcionados para cruzamentos com raças de corte, dentro da estratégia de beef on dairy? Quais fêmeas justificam investimentos em programas de transferência de embriões?
Quanto maior for o diferencial genético entre os animais escolhidos para reprodução e a média do rebanho, maior será a velocidade do ganho genético obtido ao longo dos anos.
Nos reprodutores (sêmen), funciona da mesma maneira, será que estou realmente comprando (selecionado) os melhores para as características que preciso melhorar no meu rebanho ou seja, se quero melhorar produção de leite (PTALeite), eu estou comprando o melhor 20% ou 10% melhor touro no mercado para acasalar os animais?
3. Variação genética: a matéria-prima do melhoramento
A seleção genética só é possível porque existem diferenças entre os animais.
Sempre haverá vacas e touros superiores para produção de leite, sólidos, fertilidade, conformação, saúde do úbere ou longevidade. É justamente essa variabilidade genética que permite identificar indivíduos mais eficientes (superiores) e utilizá-los para produzir a próxima geração.
Sem essas diferenças, todos os animais seriam geneticamente iguais e não haveria possibilidade de progresso.
Algumas características evoluem mais rapidamente porque possuem maior herdabilidade, enquanto outras exigem mais tempo e persistência. Ainda assim, todas podem apresentar avanços quando são incorporadas de forma consistente aos objetivos do programa de seleção.
Mais importante do que buscar um único indicador é definir quais características realmente agregam valor ao sistema de produção da fazenda e construir um programa de seleção coerente com esses objetivos. Uma forma interessante é você usar índices na qual você tem várias características mesmo local. Exemplo: Índice de Seleção Genética Brasileiro da Raça Holandesa (ISG/BRA_RH), Total Performace Índice ( TPI), e outros existentes. Outra orientação importante é também dar prioridade até no máximo 5 características a ser selecionado, tendo-se em vista que a resposta a seleção será maior.
4. Intervalo entre gerações: o tempo também faz diferença
O quarto fator é o intervalo entre gerações, que corresponde ao tempo médio entre o nascimento dos pais e o nascimento de seus filhos. Quanto menor esse intervalo, mais rapidamente o ganho genético acumulado aparece no rebanho.
A genômica revolucionou esse processo ao permitir que touros muito jovens chegassem ao mercado com alta confiabilidade genética, reduzindo significativamente o tempo necessário para incorporar novos avanços ao rebanho.
O mesmo raciocínio vale para as fêmeas. Quando o produtor identifica precocemente suas melhores novilhas e as utiliza mais cedo como mães da próxima geração, acelera o progresso genético de forma consistente.
Orientando: o verdadeiro diferencial está no programa de seleção
Comprar sêmen dos melhores touros continua sendo uma excelente decisão. Mas acreditar que isso, por si só, garante um rebanho superior é um equívoco.
O verdadeiro ganho genético acontece quando o produtor conhece profundamente a genética de suas fêmeas, utiliza informações confiáveis para tomar decisões, seleciona com rigor os animais que produzirão a próxima geração, realiza acasalamentos planejados e reduz o intervalo entre gerações sempre que possível.
Em outras palavras, genética não é apenas comprar bons touros. É construir, ano após ano, um programa consistente de seleção.
O melhor touro do mundo não consegue corrigir um processo de seleção mal conduzido. Por outro lado, quando boas decisões são tomadas de forma contínua, os resultados aparecem de maneira cumulativa, transformando o rebanho em um sistema cada vez mais produtivo, eficiente, rentável e competitivo.
Essa é, talvez, a principal mensagem: o ganho genético não acontece por acaso. Ele é consequência direta da qualidade das decisões tomadas pelo produtor em cada nova geração.
Altair Valloto. Fonte: Altair Valloto.