RJ: Crise na pecuária leiteira se agrava com recepção menor de leite

Publicado por: MilkPoint

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A Cooperativa Central de Produtores de Leite (CCPL) é um bom exemplo do aprofundamento da crise na pecuária leiteira no Estado do Rio de Janeiro. A Cooperativa - maior da Região Metropolitana do Rio de Janeiro-, está sem capital de giro para honrar seus compromissos e, em razão disso, reduziu a um quinto sua capacidade diária de recepção de leite: de 500 mil litros para algo entre 80 mil e 100 mil. São negados, porém, os rumores de que vá paralisar a captação de leite. "Não vamos parar, mas de fato estamos em dificuldades", informou o diretor jurídico da CCPL, Mário de Camargo Andrade Neto.

No momento, o passivo da CCPL com suas 25 cooperativas associadas varia entre R$ 3,5 milhões e R$ 3,8 milhões. Em alguns casos, o atraso no pagamento já chega a 60 dias.

A direção da CCPL encontra apenas uma saída para reduzir o grau de dificuldades: tenta negociar, desde o governo Garotinho e sem sucesso, a autorização para que possa usar o estoque de ICMS em prol do pagamento das cooperativas associadas. A CCPL atende 60 mil pequenos produtores no Estado e busca disponibilizar R$ 5 milhões retidos em crédito de ICMS. "O direito de compensação é líquido e certo, mas não foi autorizado até agora por razões políticas", reclama o diretor jurídico.

Apesar da reação recente do preço do litro do leite e às vésperas de iniciar a entressafra da produção leiteira, entre maio e setembro, a crise da CCPL não é um fato isolado. Na verdade, atinge todo o setor de pecuária leiteira, já que um número crescente de produtores começa a reduzir o plantel em virtude do quadro negativo.

A crise na pecuária leiteira fluminense é recorrente desde 1991, quando da liberalização dos preços do litro do produto em âmbito nacional, mas de fato aprofundou-se no ano passado, apesar das medidas de proteção ao setor, reconhece o presidente da Federação de Agricultura do Estado do Rio de Janeiro (Faerj), Rodolfo Tavares.

Em 2001 o governo federal, por exemplo, adotou alíquotas mais salgadas para o leite importado, a fim de recuperar a cotação do produto no mercado doméstico. A medida não deu resultados plenos porque a produção nacional apresentou uma alta de 10% no ano passado, fazendo o preço de remuneração do produtor permanecer muito próximo aos custos operacionais. Até recentemente, o preço do litro pago ao produtor estava na faixa de R$ 0,25, longe da média histórica de R$ 0,42 a R$ 0,46. Este mês o preço reagiu, passando para R$ 0,40, mas o pagamento efetivo ao produtor só ocorrerá em maio.

Em razão disso, boa parte dos produtores decidiu afastar-se da atividade, por meio da migração de seu plantel leiteiro para a pecuária de corte. Em casos mais extremos, há quem já colocou à venda a infra-estrutura destinada à produção de leite, como máquinas de resfriamento ou ordenhadeiras mecânicas, afirma Tavares.

Na Cooperativa de Barra Mansa, o número de associados é de exatos 1.680, mas, na prática, apenas 980 ainda entregam leite à cooperativa. Por esse motivo, a captação diária caiu de 125 mil litros, em fevereiro, para 95 mil, a partir deste mês, informa o presidente da Cooperativa de Barra Mansa, Cláudio Martini Meirelles.

A queda de captação pode inviabilizar a meta da cooperativa de obter uma receita equivalente à registrada no ano passado, de R$ 40 milhões, dos quais R$ 32 milhões apenas com leite.

A descapitalização ou desistência dos produtores está afetando também os negócios de venda de implementos agrícolas. Na Agropecuária Futuro Campos Ltda, revendedora instalada em Friburgo e representante da fabricante Westfalia no Rio de Janeiro, as vendas de ordenhadeiras mecânicas caíram mais de 50% entre março e abril (nas três primeiras semanas), comparativamente aos mesmos meses do ano passado.

"Existe uma retração forte neste momento, mas ainda não dá para dizer se vai ou não se aprofundar. Até porque o grosso das vendas de equipamentos ocorre entre maio e outubro, período em que o produtor está mais capitalizado, em razão da alta de preço do produto na entressafra", informa a sócia-gerente da empresa, Maria Helena Futuro Campos.

O presidente da Federação de Agricultura considera a venda de produtos de maior valor agregado como uma alternativa para melhorar a rentabilidade dos produtores. O ideal seria que as cooperativas tivessem condições de não só resfriar e pasteurizar o leite, mas também de desenvolver outros produtos, como leite com sabor modificado e iogurtes, por exemplo.

O Rio responde pela produção de 480 milhões de litros de leite, o que representa 20% do consumo estadual, mas tende a elevar a importação de outros estados, devido ao aprofundamento da crise. O mais recente fator de desestímulo é o atraso do governo estadual em pagar a fatura do programa regional "Leite nas Escolas". Só a CCPL tem a receber R$ 230 mil.

Fonte: Gazeta Mercantil (por Vagner Ricardo), adaptado por Equipe MilkPoint
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