Dono de um sítio no município de Valentim Gentil, no noroeste de São Paulo, Valdeci das Neves é produtor de leite e possui um rebanho de 160 animais. Graças ao regime de confinamento, ele consegue produzir 3,8 mil litros por dia, o que significa 23,75 litros por vaca. Mas a alta produtividade tem um custo. Para compor a ração, Neves compra 20 toneladas de farelo de soja por mês. "É um dos insumos mais adequados", disse.
Desde meados do ano, esse farelo é vendido pela Cargill e financiado pela Dairy Partner Americas (DPA), joint venture entre a suíça Nestlé e a neozelandesa Fonterra. Fornecedor da Nestlé há sete anos, Neves faz parte do convênio "Clube de Compras" da empresa.
Funciona assim: Neves compra o farelo da Cargill, mas só paga 40 dias depois. Isso porque é a DPA quem acerta com a Cargill e desconta o valor na hora de pagar o leite ao produtor. Pelo convênio, o produtor tem mais prazo (a média de mercado é 30 dias), crédito pré-aprovado pela DPA e preços mais baixos. Segundo Neves, o desconto fica entre 3% e 5%. As empresas não confirmam o percentual.
"Queremos facilitar o acesso dos produtores ao maior número de fornecedores", afirmou o gerente de originação de leite da DPA, Marcel Barros. Até abril de 2004, a DPA pretende contar com fornecedores de farelo de soja, milho, sal mineral, medicamentos, equipamentos de limpeza para ordenhadeiras e inseminação artificial. Esse tipo de financiamento também é uma maneira de tornar os produtores mais fiéis à empresa. "Esperamos que o produtor veja isso como um diferencial", admitiu Barros. "No longo prazo, nossa cadeia de suprimentos será mais competitiva".
A Cargill é a primeira parceira da DPA. Iniciado no fim do primeiro semestre, o convênio atende a 100 dos mil produtores que fornecem leite para a fábrica da Nestlé em Araçatuba (SP). Eles compram o farelo produzido pela Cargill em Três Lagoas (MS), próxima à divisa com São Paulo. Até o final de 2004, as empresas esperam ampliar o projeto para todo o País e atender entre 60% e 70% dos seis mil fornecedores de leite da DPA. Nas contas da Cargill, isso pode significar duas mil toneladas de farelo por mês.
"Há uma vinculação geográfica entre as fábricas", explicou o assistente comercial do complexo soja da Cargill, Osvaldo Pimentel Filho. Em outubro, serão cadastrados os produtores que atendem às fábricas da DPA em Minas Gerais, situadas em Ituitaba e Ibiá. Ambas as unidades estão próximas da esmagadora da Cargill em Uberlândia. O projeto deve chegar a Goiás em 2004. Serão atendidos os produtores que fornecem para a unidade de Goiânia por meio da futura planta da Cargill em Rio Verde. A última etapa é a Bahia. A DPA tem uma fábrica em Itabuna e a Cargill, uma esmagadora em Barreiras.
Segundo o gerente comercial da Cargill no complexo soja, Ingo Kalder, "o convênio acaba com o risco de crédito da empresa, garante volume e pode significar oportunidades comerciais". A pecuária de leite tem pouca importância para o mercado de farelo de soja brasileiro e para os negócios da Cargill. A atividade representa entre 10% e 15% das 7,5 milhões de toneladas de farelo de soja que devem ser consumidas no Brasil na safra 2002/03. Segunda maior esmagadora do país, a Cargill responde por 14% das 25,8 milhões de toneladas de soja processadas na safra passada. A empresa destina 40% do farelo para o mercado interno.
Fonte: Valor On Line (por Raquel Landim), adaptado por Equipe MilkPoint
Produtor compra insumos através da DPA
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