Pesquisas da Embrapa apontam melhoria da qualidade do leite em Rondônia

Estudos iniciados em 2013 revelam que a qualidade do leite produzido no estado e entregue às indústrias lácteas deu um salto significativo: a conformidade dos tanques com o limite de contagem bacteriana do leite no período chuvoso subiu de 36% em 2015 para 72,6% em 2022.

Publicado por: MilkPoint

Publicado em: - 8 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Sem tempo? Leia o resumo gerado pela MilkIA
A pesquisa da Embrapa e parcerias com produtores e indústrias melhoraram significativamente a qualidade do leite em Rondônia, aumentando a conformidade de contagem bacteriana de 36% em 2015 para 72,6% em 2022. Fatores de risco foram identificados, como falhas na logística de refrigeração e manejo sanitário. Boas práticas adotadas resultaram em redução da carga bacteriana em mais de 95%. A bonificação por qualidade incentivou produtores a adotarem melhorias, beneficiando toda a cadeia produtiva.

Um esforço conjunto entre a pesquisa científica da Embrapa, produtores, técnicos e o setor industrial transformou a pecuária leiteira em Rondônia. Estudos iniciados em 2013 revelam que a qualidade do leite produzido no estado e entregue às indústrias lácteas deu um salto significativo: a conformidade dos tanques com o limite de contagem bacteriana do leite (CPP - contagem padrão em placas) no período chuvoso subiu de 36% em 2015 para 72,6% em 2022. Essa evolução é reflexo de uma redução significativa da média da contagem bacteriana, que caiu 69,1% no período das águas e 76,7% na seca. Na análise, foram avaliados 566 tanques em 2015 e 536 em 2022, localizados nas principais microrregiões do estado. 

Os dados indicam maior efetividade na execução do Programa Nacional da Qualidade do Leite (PNQL) com melhor adequação e conformidade de práticas e processos da cadeia produtiva leiteira para atendimento a requisitos higiênico-sanitários estabelecidos em normativas.

Segundo Juliana Alves Dias, a pesquisadora da Embrapa que coordenou os estudos, o avanço das ações foi motivado pela atualização da legislação, como as Instruções Normativas 76 e 77, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em 2019. Também é resultado de um processo de sensibilização de todos os elos da cadeia produtiva, aliado a ações integradas de transferência de tecnologias. “Nesse contexto, os estudos e as ações convergiram para dar subsídios ao estado. Trabalhamos na identificação dos principais desafios e no direcionamento de estratégias específicas, mostrando que a parceria entre o setor público e privado é o caminho para a efetividade das ações”, explica.

Pesquisas da Embrapa apontam melhoria da qualidade do leite em Rondônia

As pesquisas, que seguem em execução, geraram tanto dados sobre a CPP como diagnósticos. Apontaram fatores de risco e indicaram soluções para superar desafios e melhorar a qualidade do leite no estado, de modo a auxiliar gestores e produtores locais a atingirem os padrões sanitários exigidos pela legislação brasileira. Esse conjunto de resultados está descrito no documento técnico “Contribuições da pesquisa e transferência de tecnologia à execução do Programa Nacional de Qualidade do Leite (PNQL) em Rondônia”, publicado pela Embrapa. A iniciativa está alinhada ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável - ODS 12 proposto pela ONU, que visa garantir padrões sustentáveis de produção e consumo.

Pesquisas da Embrapa apontam melhoria da qualidade do leite em Rondônia

 Desafios logísticos e higiênico-sanitários

A cadeia produtiva do leite em Rondônia envolve aproximadamente 26 mil famílias, com predomínio de pequenos e médios produtores. O estado é o 11º maior produtor de leite no Brasil com uma produção, em 2024, de 619 milhões de litros, o que representa a maior produção da Região Norte, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Para realizar esses diagnósticos e mapear os fatores de risco reais no campo, a ciência saiu do laboratório. Os estudos epidemiológicos e de análise espacial consideraram indicadores higiênico-sanitários do leite: contagem bacteriana, contagem de células somáticas, patógenos da mastite bovina e a ocorrência de resíduos químicos. Tais estudos demonstraram que o maior desafio regional era o atendimento ao limite de contagem bacteriana por falhas na adoção de boas práticas de ordenha e na logística de refrigeração do leite.

Um ponto crítico identificado foi a presença de “carretinhas” — transporte intermediário do leite do produtor até o tanque coletivo. Atrasos no resfriamento e falhas na higienização dos latões utilizados nesse trajeto elevaram a contagem bacteriana. Atualmente, 78% dos produtores de Rondônia estão vinculados a tanques coletivos. Como a pesquisa demonstrou que tanques com mais de cinco produtores apresentaram maior risco de contaminação, é preciso que a indústria reavalie essa estratégia.

Continua depois da publicidade

De acordo com Juliana Dias, falhas no manejo sanitário das propriedades aumentaram os riscos de mastite no rebanho. Um dado que chama a atenção é que rebanhos com maior grau de tecnificação — como aqueles que utilizam ordenha mecânica e animais especializados — apresentaram maior probabilidade de ocorrência de mastite bovina. O alerta é reforçado pelo monitoramento temporal da contagem de células somáticas (CCS) em leite de tanques vinculados às indústrias: a comparação entre os dados de 2015 e 2022 demonstrou uma tendência de aumento na média de CCS em todo o estado. “Esses resultados indicam que o setor enfrenta novos desafios que exigem ações mais efetivas de prevenção e controle da saúde do úbere, especialmente em rebanhos mais tecnificados”, destaca a pesquisadora. 

Para se chegar a esse diagnóstico, além do monitoramento temporal e espacial do leite de tanques da indústria, foram realizados dois estudos em nível de propriedades: em 2013, com a avaliação de 267 rebanhos de 11 municípios da microrregião de Ji-Paraná, e em 2018/2019, com 178 rebanhos vinculados às agroindústrias familiares de seis microrregiões do estado. 

Projeto piloto avalia impacto das boas práticas nas propriedades 

A pesquisa em Rondônia permitiu concluir que a adoção de práticas simples é a chave para a transformação da qualidade do leite no estado. Em 2017 e 2018, quatro propriedades que representavam as condições de produção prevalentes no estado foram selecionadas para o estudo de validação dos protocolos de higiene. Com base em estudos anteriores, chegou-se aos perfis dessa amostra, que inclui diferentes cenários: da ordenha manual em piquetes abertos ao sistema mecânico “balde ao pé”.

O objetivo, segundo a pesquisadora Juliana Dias, foi rastrear os principais pontos de contaminação por bactérias na ordenha, como baldes, latões, tetos, ordenhadeiras, água de uso e mãos dos ordenhadores, assim como propor práticas adaptadas às condições regionais. Ao implementar o conjunto de boas práticas — que inclui o preparo do úbere e a limpeza rigorosa de baldes, latões e equipamentos —, as propriedades alcançaram um resultado relevante: a carga bacteriana do leite total reduziu em mais de 95%, independentemente do nível tecnológico da propriedade.

Para que o conhecimento da pesquisa chegasse até o campo, vídeos educativos, documentos orientadores e notas técnicas foram elaboradas para auxiliar técnicos, produtores e indústrias na implementação dessas práticas no campo. Além disso, os resultados e as recomendações dos estudos foram apresentados em eventos como cursos, treinamentos, oficinas e palestras técnicas em todo o estado. Foram mais de cinco mil pessoas impactadas pelas ações de pesquisa, capacitações, oficinas e palestras realizadas em 42 municípios, ou seja, cerca de 80% dos municípios de Rondônia. 

A melhoria da qualidade do leite é atribuída a um conjunto de ações integradas, desde a estruturação laboratorial, o diagnóstico da situação da qualidade do leite, o direcionamento de recomendações e a implementação de boas práticas no campo. A pesquisadora afirma que a parceria com as indústrias lácteas foi fundamental para transformar os resultados de pesquisa em melhorias reais na qualidade do leite, atuando na análise estratégica de dados, na capacitação das equipes de campo e na comunicação direta com o produtor.

Além de laticínios, foram parceiros dos projetos a Secretaria de Agricultura de Rondônia (Seagri), a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-RO), a Agência de Defesa Sanitária Agrosilvopastoril de Rondônia (Idaron), a Fundação Rondônia de Amparo ao Desenvolvimento das Ações Científicas e Tecnológicas e à Pesquisa do Estado de Rondônia (Fapero), além do apoio de outras Unidades da Embrapa como a Gado de Leite, Agricultura Digital e Acre. As ações também contaram com o envolvimento de técnicos e produtores do Programa Balde Cheio, coordenado pela Embrapa Pecuária Sudeste. 

Pesquisas da Embrapa apontam melhoria da qualidade do leite em Rondônia

Qualidade do leite se converte em renda

Uma bonificação pela qualidade do leite estimula ainda mais os produtores rurais a adotarem as boas práticas. O Laticínio Joia, um dos parceiros da Embrapa Rondônia, começou a pagar, em 2015, um valor adicional por litro de leite que atingisse os padrões de qualidade previstos no Programa Nacional de Qualidade do Leite (PNQL). Com uma matéria-prima de melhor qualidade, a produtividade da agroindústria aumentou, resultando numa relação de ganha-ganha. 

Continua depois da publicidade

“Valorizamos o trabalho do produtor rural que queira se adequar e, quando o leite chega com qualidade à indústria, nós temos uma maior rentabilidade em quilo de massa de queijo produzido. Se antes eu precisava de dez litros de leite para produzir um quilo de queijo, hoje produzo um quilo de queijo com 9,2 litros de leite. Isso em escala, por dia, impacta muito. É uma parceria em que todos se beneficiam”, afirma Alessandro Rodrigues, proprietário do Laticínio Joia. 

Atualmente, 92,5% do leite processado em Rondônia é proveniente de indústrias sob o Serviço de Inspeção Federal (SIF), segundo dados do IBGE. Isso assegura que o leite captado seja fiscalizado antes de chegar ao consumidor. 

“Durante a pesquisa também avaliamos a qualidade do leite de rebanhos vinculados a 85% das agroindústrias familiares do estado que possuem o Selo de Inspeção Estadual. Capacitamos 52 fiscais agropecuários e 57 técnicos da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater/RO) para serem multiplicadores das boas práticas em qualidade do leite para esse perfil de produtor”, informa Dias.

Boas práticas melhoram qualidade e produtividade 

A integração entre pesquisa e extensão em Rondônia confirmou que boas práticas elevam diretamente a lucratividade. Segundo Abner Guimarães (foto),  técnico do Balde Cheio,  a capacitação focada na qualidade do leite é uma das ações de maior impacto, porque é prioritário para o retorno financeiro do produtor. “A abordagem técnica permitiu aos produtores a compreensão do quanto a mastite pode ser economicamente importante dentro de uma propriedade; assim, incentivou a adoção de práticas de higiene e o uso correto de antimicrobianos”, destaca Guimarães.

Para o produtor Ademir Reolon, de Vilhena (RO), as orientações técnicas reduziram a CPP e CCS do leite, gerando bonificações industriais. "A partir das orientações, começamos a realizar o monitoramento da mastite subclínica e a adoção da linha de ordenha, em vez de realizar o tratamento com antibióticos", observa.

Na avaliação do médico veterinário da Emater/RO Samuel Borges, a aplicação dos protocolos adequados e as avaliações realizadas em tempo real motivaram a adoção das boas práticas nas propriedades visitadas com a equipe da Embrapa. “Quando a mastite clínica é diagnosticada, o leite deve ser descartado, pois é impróprio para consumo. Isso gera prejuízos na atividade, além de gastos com medicamentos para tratar o animal”, explica. “Quando a mastite é subclínica, ou seja, não é aparente, a vaca tem aspecto sadio. Dependendo do grau de infecção do rebanho, a queda na produção de leite pode chegar a 18%. Esse é um prejuízo difícil de mensurar, mas é uma realidade. E, por fim, pode chegar ao ponto de descarte dos animais”, complementa Borges. 

Pesquisas da Embrapa apontam melhoria da qualidade do leite em Rondônia

As informações são da Embrapa, adaptadas pela equipe MilkPoint.

Vale a pena ler também:

Fazenda Avelan mira 10 mil litros por dia e reforça o potencial da pecuária leiteira sergipana

Rio Grande do Sul sedia treinamento internacional da FAO sobre resistência a carrapaticidas

QUER ACESSAR O CONTEÚDO? É GRATUITO!

Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no MilkPoint.

Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 0

Publicado por:

Foto MilkPoint

MilkPoint

O MilkPoint é maior portal sobre mercado lácteo do Brasil. Especialista em informações do agronegócio, cadeia leiteira, indústria de laticínios e outros.

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?