À medida que o beef-on-dairy deixou de ser uma novidade e passou a se consolidar como um modelo de produção padrão nos Estados Unidos, produtores de leite, fazendas de bezerros e confinamentos passaram a atuar de forma mais integrada do que nunca. Essas parcerias fortaleceram a comunicação ao longo da cadeia, mas ainda persistem importantes desconexões.
Na MILK Business Conference de 2025, produtores de leite e gerentes de confinamentos se reuniram para discutir alguns desses pontos críticos. O diálogo evidenciou avanços relevantes, mas também deixou claro onde ainda há necessidade de maior alinhamento.
Manejo de colostro
Produtores de leite costumam enviar os bezerros beef-on-dairy para fora da fazenda rapidamente. No entanto, gerentes de confinamento destacam que as primeiras horas de vida do animal, ainda na fazenda leiteira, exercem impacto maior sobre a saúde e o desempenho a longo prazo do que qualquer manejo realizado posteriormente. A forma como o bezerro inicia a vida define se ele entrará no sistema de engorda com uma base imunológica sólida ou já em desvantagem.
“Uma das desconexões que eu vejo na indústria é o que acontece com aquele bezerro de um dia de vida”, afirma Eric Behlke, gerente geral da Blackshirt Feeders, em Nebraska.
Segundo ele, quando o bezerro não recebe colostro de alta qualidade, as consequências acompanham o animal até o final do ciclo produtivo — um problema difícil de ser revertido, especialmente para confinamentos que pagam valores elevados por esses bezerros.
“O principal indicador da saúde de um bezerro é a transferência passiva”, explica Behlke. “Esse animal recebeu colostro? Quando há falha na transferência passiva ou ausência de colostro, isso compromete diretamente a saúde.”
O que mais frustra os compradores é que a solução é simples. Tratar os bezerros beef-on-dairy com o mesmo nível de cuidado destinado às bezerras de reposição — garantindo colostro no momento adequado, protocolos consistentes e ambientes limpos — é a forma mais rápida de reduzir a lacuna de desempenho. Ainda assim, muitos bezerros continuam chegando aos confinamentos sem a imunidade básica necessária para prosperar.
Dois setores, duas linguagens
Outra desconexão está na forma como cada setor se comunica. Embora produtores de leite e confinamentos falem sobre o mesmo animal, a terminologia utilizada pode ser diferente o suficiente para dificultar o entendimento inicial.
Daniel Vander Dussen, produtor de leite no Novo México, relembra suas primeiras experiências na comercialização de bezerros beef-on-dairy.
“Quando comecei a vender beef-on-dairy, negociava alguns bezerros por vídeo e estávamos tentando fechar um contrato”, conta. “Eles falavam comigo sobre ajuste de peso em uma direção, em duas direções, peso base… e eu não fazia ideia do que aquilo significava. Eu precisava que explicassem de um jeito que eu entendesse.”
Conceitos, estruturas de preços e expectativas comuns no universo dos confinamentos muitas vezes são desconhecidos para produtores de leite que nunca participaram desse sistema de comercialização. Não é necessário que ambos utilizem exatamente o mesmo vocabulário, mas é fundamental que entendam claramente o que está sendo discutido para gerar valor conjunto.
“Sempre que eu tinha a chance de perguntar ‘por quê?’ ou ‘o que isso significa?’, eu perguntava”, diz Vander Dussen. “Era uma oportunidade de aprender.”
Seleção de touros
Os confinamentos também buscaram esclarecer a ideia de que todo bezerro beef-on-dairy precisa ser gerado a partir de genética Angus. Embora essa raça continue sendo uma escolha confiável, Tony Bryant, diretor de nutrição, pesquisa e análise da Five Rivers Cattle Feeding, reforça que o melhor touro é aquele que atende tanto às necessidades da fazenda leiteira quanto às exigências do comprador final.
“A cor é um dos fatores menos importantes na nossa grade”, afirma. “Existe o equívoco de que todos precisam ser pretos, mas isso não é verdade. Há vantagens importantes em outras raças.”
No centro dessas discussões está a expectativa e o nível de investimento envolvido.
Ser adaptável
Os confinamentos vêm investindo valores recordes em bezerros beef-on-dairy, o que eleva significativamente o risco e torna a colaboração entre os elos da cadeia ainda mais essencial.
“Alguns meses atrás, esses bezerros custavam US$ 1.650. É um investimento enorme”, afirma Tony Lopes, produtor de leite da Califórnia. “Se eles vão gastar tudo isso, precisamos sentar à mesa com a mente aberta.”
Para Lopes, isso significa estar disposto a reavaliar práticas tradicionais, como fornecedores de genética, estratégias de uso de sêmen sexado ou convencional, a proporção de sêmen de corte e até mesmo a raça utilizada.
Segundo ele, os confinamentos buscam parceiros, não apenas fornecedores. Produtores dispostos a fazer perguntas, compreender os objetivos do sistema de terminação e ajustar manejos quando possível tendem a construir relações mais duradouras
“Eu diria aos produtores que estejam dispostos a reavaliar a forma como as coisas sempre foram feitas para garantir que a parceria seja bem-sucedida”, reforça. “Faça tudo o que estiver ao seu alcance para ser um bom parceiro e manter esse relacionamento.”
O caminho à frente
O beef-on-dairy se consolidou como um modelo de produção padrão, criando novas oportunidades e desafios tanto para fazendas leiteiras quanto para confinamentos. O sucesso de ambos depende de comunicação clara e disposição para adaptação.
Do cuidado inicial com o bezerro às expectativas comerciais e decisões genéticas, cada etapa conta. Produtores que priorizam flexibilidade e parcerias tendem a entregar animais mais saudáveis, com melhor desempenho, e a manter competitividade no longo prazo. Já aqueles que resistem às mudanças correm o risco de perder espaço em um mercado cada vez mais exigente.
As informações são do Dairy Herd Management, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.