O presidente da Nestlé do Brasil, Ivan Zurita, contestou ontem os dados utilizados pela Secretaria de Direito Econômico (SDE) do Ministério da Justiça, no processo que analisa a compra da Garoto pela companhia suíça. Segundo o executivo, o levantamento feito pela AC/Nielsen utilizado como base pelo Ministério da Fazenda na análise da fusão encaminhada à SDE, não abrange todo o mercado. Pelo estudo, a Nestlé passaria a concentrar 89,9% do mercado brasileiro de chocolates.
Segundo Zurita, "o percentual é correto, dentro de uma interpretação incorreta do mercado". Ele contra-argumenta baseado nos dados da entidade do setor, a Abicab, que confere à Nestlé e à Garoto 45% do mercado, contra 30% da principal concorrente, a Lacta, da Kraft Foods. "A pesquisa AC/Nielsen não considera os produtos artesanais e sazonais, como ovos de páscoa", afirma. O presidente da companhia diz que, baseado no levantamento detalhado sobre o setor, o Conselho de Defesa Econômica (Cade), que julgará a legalidade da fusão, "dificilmente imporá restrições" à concretização do negócio.
O Cade ainda não definiu se seguirá a divisão de mercado proposta pela Nestlé ou pelo Ministério da Fazenda. O órgão pode optar ainda por uma terceira divisão.
Segundo a AC/Nielsen, o mercado tem volume de 173 mil toneladas anuais. Para a Abicab, que inclui ovos de páscoa e pequenos fabricantes, a cifra sobe para 220,6 mil toneladas. Deste total, 26% são ocupados pela Nestlé, 19% pela Garoto e 30% pela Lacta. A AC/Nielsen declara que, de fato, não cobre todo o mercado, mas a pesquisa atinge 87,7% da população e 90% do mercado potencial de consumo.
Sobre o pedido de informações feito pela Lacta para a SDE, Zurita considerou a reação natural. "Como uma empresa que perdeu a oportunidade de investir no País e abriu espaço para a Nestlé, é compreensível a insatisfação", alfineta. Em comunicado oficial, a Kraft Foods declara que "acompanha com grande interesse o desenrolar do processo, confiando na atuação das autoridades brasileiras na defesa da livre concorrência no País".
A SDE concedeu dez dias, a partir de hoje, para concorrentes, clientes e consumidores se manifestarem sobre a compra da Garoto pela Nestlé. Embora não confirme, a Kraft Foods deverá se opor à compra dentro desse prazo.
Sem esperar pelo desfecho do processo, a Nestlé já deu início ao projeto de expansão da Garoto. Sediada no Espírito Santo, a empresa servirá de base para a Nestlé crescer no Estado, com vistas também ao mercado do Nordeste. A prioridade para a Garoto será o aumento da produção atual de 67 mil toneladas para 100 mil toneladas até o fim do ano. O foco será a exportação. "Queremos dobrar as vendas externas, que hoje são de 10,5 mil toneladas anuais", diz Zurita. A Garoto já exporta para 40 países.
Sobre a gestão, o presidente da empresa garante que será totalmente independente da Nestlé, tanto que os principais executivos da Garoto foram mantidos. O que muda é o acompanhamento direto da presidência da multinacional na operação.
Agora que possui unidade industrial no Espírito Santo, a Nestlé quer reduzir os custos de toda a companhia no País, utilizando benefícios do governo para exportar via porto de Vitória. Além disso, vai investir R$ 5 milhões no setor de sorvetes, no qual sua participação é insignificante na região, em relação à Kibon, da Lacta. "A Garoto é parte dos planos para o Espírito Santo, dentro da estratégia de regionalização que a Nestlé quer aprofundar no País", diz Zurita.
Fonte: Valor On Line (por Arnaldo Comin e Juliano Basile), adaptado por Equipe MilkPoint
Nestlé contesta números da SDE no caso Garoto
Publicado por: MilkPoint
Publicado em: - 2 minutos de leitura
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