Mercado internacional de lácteos: situação difícil, tendendo a melhorar em 2013

Artigos especiais: Desde o início de 2011, os preços do leite em pó integral vêm caindo de forma quase constante, ainda que alguns ensaios de reação tenham ocorrido. Só nesse ano, de janeiro até junho os preços cairam cerca de 20%. E o que explica esse comportamento? Por Bia Ortolani (analista de mercado MilkPoint) e Marcelo Carvalho (coordenador MilkPoint)

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Publicado em: - 3 minutos de leitura

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Desde o início de 2011, os preços do leite em pó integral vêm caindo de forma quase constante, ainda que alguns ensaios de reação tenham ocorrido. Só nesse ano, de janeiro até junho os preços cairam cerca de 20% (Gráfico 1). E o que explica esse comportamento?

Gráfico 1: Histórico de preços de leite em pó integral
Figura 1

O indício mais forte responsável pela baixa nos preços é a excepcional oferta de leite em todo o mundo.

Esse aumento de produção na maioria dos países aconteceu devido aos altos preços que estavam sendo praticados no campo (Gráfico 2), clima favorável em boa parte do globo e expansão de cotas na Europa, que permitiram que diversos países aumentassem sua oferta sem o pagamento de penalizações.

Gráfico 2: Preço pago ao produtor em diversos países
Figura 2

O aumento no volume produzido pelas regiões exportadoras não conseguiu colocação no mercado e uma parcela deixou de ser absorvida, pois os países importadores também tiveram aumento de produção, tornando-se menos dependentes (Quadro 1). É importante lembrar que o mercado internacional representa apenas 5 a 7% do total produzido, de modo que um aumento de oferta nos países exportadores pode ser suficiente para desequilibrar o mercado.

Quadro 1: Produção de leite nos principais países exportadores e importadores
Figura 3

(e):estimado
*: milhões de litros
**: mil toneladas
Fonte: Clal

A crise econômica que abalou mais fortemente a Europa vem resultando em um alto número de desempregados, estagnação de salários e desconfiança de investidores. Como consequência, houve menor crescimento do consumo. Muitos economistas passaram então a revisar suas projeções de crescimento dos países, entre eles a China, maior importador mundial e que vem paralelamente recuperando sua produção interna após os problemas com a melamina em 2008. De janeiro a maio de 2011 a China já havia importado 190.483 toneladas de leite em pó integral, e durante o mesmo período de 2012, foram 161.198 toneladas, ou seja, redução de 15,37% na comparação entre os anos.

Dados da consultoria Clal, da Itália, apontam queda de 1,13% nas importações mundiais de leite em pó integral.

O resultado desse processo é o aumento dos estoques nos Estados Unidos, e uma queda generalizada nas cotações. A queda nos preços pagos na fazenda pode ser observada nos últimos meses do gráfico 2. A própria Fonterra, cooperativa de leite da Nova Zelândia e maior exportadora mundial de lácteos, sinalizou baixa de preços aos seus fornecedores para a estação de 2012/13, com valores 13% mais baixos que os pagos em 2011/12.

Para agravar a situação no campo, o produtor viu suas margens cada vez mais reduzidas pelo aumento nos custos de produção. Os preços do milho e da soja vem apresentando constantes altas desde o final do ano passado (Gráficos 3 e 4).

Gráfico 3:Preços do milho na bolsa de Chicago
Figura 4

Gráfico 4: Preços da soja na bolsa de Chicago
Figura 5

E quais são as perspectivas daqui para frente?

A forte seca que vem abatendo os EUA, tem projetado os preços dos grãos para cima. Com isso, os produtores de leite ficam menos estimulados a investir na produção. O Rabobank estima que o crescimento da produção nos próximos seis meses seja menor do que o primeiro semestre, algo em torno de 1,2% contra 3,2%.

Na outra ponta, não menos importante, está a demanda que deve continuar fraca devido ao desaquecimento econômico. O Rabobank estima um aumento no consumo de apenas 1% no segundo semestre.

A expectativa é que, no mercado internacional, o fundo do poço já tenha sido atingindo, mas há dúvidas se a recuperação virá ainda em 2012 ou somente em 2013, quando a oferta e demanda se ajustarão novamente. Vale lembrar que há diversas variáveis afetando esse cenário, entre elas o início da safra da Nova Zelândia e Austrália. Após 2 anos de clima muito favorável, um início de safra mais fraco pode resultar em elevação dos preços ainda em 2012.
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Material escrito por:

Maria Beatriz Tassinari Ortolani

Maria Beatriz Tassinari Ortolani

Médica Veterinária (UEL), Mestre em Medicina Veterinária (UFV), e coordenadora de conteúdo e analista de mercado do MilkPoint.

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Marcelo Pereira de Carvalho

Marcelo Pereira de Carvalho

Fundador e CEO da MilkPoint Ventures.

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RAUL LARA RESENDE DE CARNEIRO
RAUL LARA RESENDE DE CARNEIRO

SERTÃOZINHO - SÃO PAULO

EM 28/09/2012

Excelentes artigo e comentário.

Bem conectado a este assunto foi o texto do Marcelo sobre a palestra do Rabobank durante o Interleite 2012 em Uberlândia. Definitivamente há uma série de variáveis pairando sobre o mercado do leite no Brasil e no mundo.

O Brasil está frente a desafios e oportunidades. Em todos os âmbitos, a melhoria da eficiência tem sido cada vez mais necessária se desejarmos nos posicionar como importantes player no mercado ou mesmo reduzirmos nossas susceptibilidades às variações do mesmo.
Marcello de Moura Campos Filho
MARCELLO DE MOURA CAMPOS FILHO

CAMPINAS - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 07/08/2012

Prezados Marcelo e Maria Beatriz

Parabens pelo artigo.

Se não houver uma reversão na queda de preços ao produtor e uma sinalização de uma elevação sensivel até o final de setembro, penso que a oferta de leite para 2013 no Brasil poderá ficar bastante comprometida.

O produtor está preocupado com a queda de consumo de leite que está acontecendo, e que pode se agravar, em função da crise econômica mundial. E a sinalização é que essa crise econômica se extenderá por todo 2013.

A elevação do custo com concentrado, que já vinha acontecendo, se acentuou puxada pela disparada do preço da soja, e a perspectiva é que os preços continuem altos em 2013.

No momento que estará preparando a reserva de volumoso para a entresafra de 2013, com um aumento de preços de adubo, sementes e defensivos que já atinge cerca de 17%, com o aumento que vem ocorrendo na mão de obra e deve se elevar a partir de janeiro e com o aumento de combustiveis que fatalmente virá em breve face ao prejuizo da Petrobrás no primeiro semestre, o produtor do Sudeste tem a perspectiva de um aumento no custo da silagem para a entresafra de 2013 de 20% a 25%.

Dessa forma se não houver uma sinalização de reversão da tendência de queda de preços ao produtor até setembro acredito que a oferta de leite no Brasil em 2013 ficará bastante comprometida, tendendo a elevar bastante as importações para evitar desabastecimento no mercado interno.

E isso poderá ser agravado, pois o produtor, sem recursos, poderá que ter que vender vacas para o gancho para fazer caixa, pois numa situação dessa a procura por vaca de leite é extremamente reduzida.

Pode ser que o diabo não seja tão feio como está me parecendo, mas com certeza sempre é melhor prevenir do que remediar.

Por isso é bom que na próxima reunião da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Leite e Derivados, no dia 14 de agosto, essa questão seja debatida, e se necessário criada uma Comissão para analisar em mais profundidade o problema e e apresentar proposta para serem implementadas que possam, se não evitar, pelo menos minimizar uma crise na pecuária leiteira nacional com consequências a longo prazo.

Abraço

Marcello de Moura Campos Filho
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