Leite em pó domina preferência no Nordeste

Publicado por: MilkPoint

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O Nordeste foi a região que reduziu com maior rapidez o consumo de leite pasteurizado no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Leite Longa Vida (ABLV). O hábito do consumo do leite em pó, abriu caminho para a invasão do longa vida (que tem características semelhantes de durabilidade e logística), estreitando a fatia do pasteurizado, que praticamente desapareceu do mercado. Para se alinhar à nova tendência, as indústrias regionais trataram de mudar de nicho e as gigantes do setor se apressaram em investir para preencher a lacuna deixada pelo pasteurizado no Nordeste.

Se por um lado a ABLV espera um crescimento de 10% ao ano na Região, as indústrias de leite em pó também têm planos ousados. É o caso da mineira Embaré, que detém a marca Camponesa e comercializa 80% da sua produção mensal de três mil toneladas no Nordeste. O diretor-superintendente, Haroldo Antunes, destaca que a empresa investiu R$ 32 milhões no final de 2000 para ampliar a capacidade de produção da indústria de 350 mil para 800 mil litros/dia.

"Nossa expectativa é aumentar o market share no Nordeste de 8% para 12% nos próximos três anos", revela Antunes. Para encampar a estratégia, a Embaré vai investir 2,5% da receita anual (R$ 120 milhões) na Região, em ações de marketing.

Com 41 anos de atuação no mercado nordestino, a empresa aparece em terceiro lugar no ranking de vendas de leite em pó (8,2%), depois da suíça Nestlé (41,4%) e da Itambé (20,1%), segundo última sondagem do Instituto AC Nielsen. "Mas na embalagem sachê (200g) somos líderes com 20,7%, seguidos pela Itambé (16,3%)", comemora.

Antunes adianta que a Embaré vai apostar na tradição consolidada no Nordeste de consumo de leite em pó para conquistar fatia deixada pelo pasteurizado e cobiçada pelo longa vida. Para se ter uma idéia, o leite em pó representa 70% do consumo na Região, enquanto o longa vida tem 12% de participação e o restante é distribuído entre pasteurizado e in natura.

Apesar de afirmar que existe espaço para todos os segmentos, o executivo diz que o longa vida terá que investir em qualidade e divulgação para disputar mercado. "Nosso argumento para crescer será a praticidade e a garantia ao consumidor de que ele está levando para casa um leite puro, que não foi submetido a altas temperaturas e mantém seu sabor", comenta.

Competição

Não se pode dizer que existe, na prática, uma disputa entre longa vida e em pó porque algumas empresas estariam competindo com elas mesmas. "O que existe é uma adaptação da indústria para atender à mudança de hábito do consumidor", observa o gerente nacional de vendas da Valedourado, Frederico Sampaio.

O executivo diz que, desde 1997, a empresa desistiu do produto pasteurizado, principalmente por causa da complexa logística. Segundo Sampaio, o transporte do pasteurizado em caminhões refrigerados, encarecia os custos entre 25% e 30%.

Atualmente, a Valedourado tem o longa vida como carro chefe, sendo responsável por 30% do faturamento anual de R$ 150 milhões, enquanto o leite em pó responde por 20%. "A vantagem do leite em pó é que o mercado é mais estável. O longa vida está mais suscetível ao sobe e desce da cotação, chegando a ser comercializado abaixo do preço de custo quando ocorre importação de leite de outros estados", analisa, frisando que esse mercado ainda não está maduro e vive um período de desorganização. Hoje a produção média de longa vida da indústria é de 5 milhões de litros/mês.

Na Itambé, a composição do mix sofre uma inversão. A indústria reduziu em 28% a produção de longa vida, em 2001, para se tornar mais agressiva nos nichos de leite em pó e refrigerados, como iogurte e requeijão.

Em Pernambuco, a Parmalat, que iniciou suas operações produzindo apenas leite em pó, nos últimos três anos ampliou o mix para produzir pasteurizado, mas logo em seguida reduziu a fabricação para apostar no longa vida.

Preço ainda é o maior problema

O avanço das indústrias de leite no Nordeste não se reflete em benefícios para os pequenos pecuaristas. O "barriga mole" (saquinho de um litro) foi expulso das gôndolas pela praticidade da caixinha do longa vida, fazendo com que os produtores perdessem poder de barganha junto aos supermercados. O preço continua sendo a maior barreira para o retorno dos lucros.

"Pelo menos 80% do lucro do longa vida é distribuído entre as multinacionais, indústrias de embalagem e redes de supermercados", reclama o ex-produtor pernambucano Francisco Cardoso Filho, que há cinco meses desistiu da atividade para abrir um restaurante. Segundo ele, a embalagem de caixinha custa cerca de R$ 0,25 (quase o mesmo preço pago ao produtor pelo litro do leite, estimado hoje em R$ 0,28). "As indústrias deveriam vender a caixa vazia, já que ela parece ter mais importância que o produto", alfineta, frisando que as indústrias apostam num produto de maior valor agregado e o pecuarista não se beneficia.

Cardoso conta que investiu cerca de R$ 160 mil para ingressar na pecuária leiteira, em 1995, e que sua propriedade chegou a ser unidade de referência de produção para a Parmalat em Pernambuco. "Investi em genética, infra-estrutura e equipamentos para qualificar meu rebanho e acabei acumulando prejuízo", observa, dizendo que as perdas somaram R$ 80 mil. "Só consegui recuperar o investimento no rebanho, porque vendi os animais por um bom preço".

O ex-pecuarista lembra que atingiu produção diária de 700 litros de leite, com um plantel de 30 vacas em lactação. "Ingressei na atividade recebendo US$ 0,33 da Parmalat pelo litro do leite e, quando saí, esse preço já estava em US$ 0,12", compara.

Fornecedor da Parmalat desde 1994, José Alípio admite que a relação com a indústria não é das melhores, mas também não encontra outra saída. "Não temos opção. É vender para a multinacional ou ficar sem mercado", desabafa. Com um rebanho de 50 matrizes, o pecuarista fornece toda a sua produção diária de 520 litros para a empresa.

Portaria obriga a adoção de sistemas de refrigeração

A realidade da cadeia produtiva do leite no Nordeste começa a ganhar novos contornos a partir do Regulamento Técnico de Produção, Identidade e Qualidade, a chamada Portaria 56 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Apesar de ainda não ter sido publicada no Diário Oficial da União, a nova norma sobre acondicionamento e transporte do produto já vem sendo discutida e implementada por parte dos produtores.

Entre outros pontos, a medida determina que, até 2004, os pecuaristas nordestinos devem introduzir a refrigeração do leite nas propriedades, com acondicionamento em tanques de expansão a uma temperatura de quatro graus e no tempo máximo de três horas após a ordenha.

A portaria é resultado de discussões sobre a qualidade do leite travadas desde 1996. A partir daquele ano foram iniciados estudos visando modificar a legislação brasileira sobre a produção de leite, reunindo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), instituições de ensino, produtores, indústrias de laticínios e órgãos de defesa do consumidor.

Uma das determinações mais importantes da portaria é que o leite tipo C não poderá mais ser comercializado a partir de 1o de julho deste ano. Também passa a ser compulsório o transporte do produto a granel, através do uso de veículos com tanques isotérmicos. Na área industrial, fica proibido o uso de pasteurização lenta pelas usinas de leite.

Para o coordenador do núcleo de Agronegócios da Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC) e especialista em higiene e qualidade do leite, o veterinário Guilherme Vieira, a medida que obriga a adoção do processo de granelização vai contribuir para a profissionalização do setor e, principalmente, para a garantia de qualidade do produto consumido no País. "Só vai sobreviver neste mercado quem tiver eficiência e qualidade na produção, como acontece em relação a outros produtos", prevê. Vieira reconhece que a medida pegou o produtor desprevenido e descapitalizado, mas acredita que toda a cadeia deverá se adequar à norma.

Entrave

A necessidade de investimentos elevados para aquisição dos equipamentos exigidos é o principal entrave para que os produtores atendam à Portaria 56. Os tanques de resfriamento têm um preço médio de R$ 5 mil a R$ 12 mil, dependendo do tamanho e sem considerar a parte de obras civis, que varia de R$ 300 a R$ 3 mil, segundo as condições de cada propriedade rural. Já os caminhões-tanque custam R$ 40 mil cada.

O presidente da Associação de Usinas e Micro Usinas do Estado da Bahia (Amil), Tarcísio Oliveira, acredita que, por outro lado, o investimento em granelização para o sistema de transporte pode contribuir para melhoria do preço pago pelo produto. "Quem investiu em caminhões-tanque e resfriadores já está conseguindo receber R$ 0,32 pelo litro de leite, valor superior à média de remuneração do Estado", aponta.

Para o presidente da Cooperativa Central de Laticínios da Bahia (CCLB), Almir Fernandes, a nova norma pode resultar em redução de custos de frete para transporte do leite das fazendas até as indústrias, pois reduzirá o número de viagens.

Consumo de pasteurizado poderia ser bem maior no RN

Palco de um bem sucedido programa governamental de estímulo à produção leiteira, o Rio Grande do Norte poderia ter um mercado consumidor mais voltado ao produto local não fosse a concorrência com os leites longa vida e em pó.

Embora o consumo do leite pasteurizado, em queda livre na maioria dos estados, tenha permanecido estável no Rio Grande do Norte, o presidente da Federação da Agricultura do Estado e Sindicato das Indústrias de Laticínios, Leônidas Ferreira de Paula, revela que o produto em pó ainda é consumido por 60,8% das famílias.

Ele se baseia em pesquisa realizada, em 2000, nos três maiores centros consumidores, Natal, Grande Natal e Mossoró, com um universo de 800 famílias. Neste universo, o consumo semanal de leites fluidos in natura, pasteurizado e longa vida, chegava a 2.337 litros contra 2.532 litros de leite pó.

"Embora não tenhamos ainda dados estatísticos precisos, a tendência é de que este quadro tenha se revertido, principalmente em relação ao leite em pó", afirma Leônidas de Paula. O sindicalista avalia que o alto consumo de leite em pó é provocado pela distribuição do produto pelas prefeituras, nos programas de merenda escolar, e pelo fato de ser um dos componentes da cesta básica.

Em relação ao leite longa vida, Leônidas Ferreira afirma que a principal dificuldade na concorrência é o preço. Ele explica que o litro de leite em Goiás, por exemplo, custa em média R$ 0,18 e que a embalagem sai por algo entre R$ 0,25 e R$ 0,30, dependendo da tecnologia industrial. "Mesmo computando os preços de frete e logística de distribuição, o produto chega ao consumidor potiguar por preços entre R$ 0,90 e R$ 1,30", afirma. No Rio Grande do Norte o preço pago ao produtor varia entre R$ 0,30 e R$ 0,43, dependendo da qualidade e localização do produtor.

Segundo pesquisas do sindicato, do total de leite produzido no Estado, 130 mil litros diários são destinados ao Programa do Leite, 50 mil litros são exportados para o Estado da Paraíba e calcula-se que outros 100 mil litros diários sejam produzidos e distribuídos de maneira informal. O restante vai para as indústrias e chega ao mercado pasteurizado ou em forma de derivados.

Longa vida

"É preciso esclarecer a população que o processo de esterilização utilizado pelo longa vida, com uso de temperatura de 145 graus centígrados, significa perda de lactobacilos e vitaminas, enquanto o pasteurizado mantém estas características, graças à temperatura de 75 graus, que elimina apenas as bactérias ruins". A afirmação é do presidente da Amil (Associação de Usinas e Micro Usinas do Estado da Bahia), Tarcísio Oliveira, preocupado com a perda de espaço que o leite pasteurizado vem tendo no mercado.

O presidente da Amil reconhece, entretanto, a vantagem da maior durabilidade do longa vida (UHT). "O problema é que a longa vida é para o leite e não para as pessoas", ironiza. De acordo com Oliveira, países como Inglaterra e Estados Unidos já atentaram para o problema. "Em cada 200 americanos apenas um consome longa vida e na Inglaterra o hábito não existe", cita.

Coordenador do núcleo de Agronegócios da Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC) e especialista em higiene e qualidade do leite, o veterinário Guilherme Vieira diz que, em termos técnicos, não existe nenhuma comprovação de perda nutricional do longa vida. "O UHT veio facilitar a vida do consumidor porque tem durabilidade de até seis meses, representando uma verdadeira revolução no mercado lácteo", defende.

Vieira aponta o associativismo como uma das saídas para que os produtores possam se adequar à nova realidade de mercado e buscar melhoria de qualidade do produto.Uma das poucas indústrias a investir no longa vida no Estado, a Cooperativa Central de Laticínios da Bahia (CCLB) beneficia hoje uma média diária de 160 mil litros do produto, e ainda 20 mil quilos de leite em pó e produtos como achocolatados e creme de leite, que levam a marca Catuí. A CCLB reúne sete cooperativas totalizando 6,2 mil mini e pequenos produtores, que captam 450 mil litros de leite por dia. Criada há 33 anos tem um faturamento mensal de R$ 2,5 milhões.

Na avaliação do presidente da entidade, Almir Fernandes, a principal vantagem do longa vida é proteger o produtor contra as perdas geradas pela perecibilidade do produto. "A embalagem custa quase o mesmo preço do leite, mas dá ao produtor um prazo de quatro meses para comercialização".

Fonte: Gazeta Mercantil (por Adriana Guarda e Mariana Carneiro), adaptado por Equipe MilkPoint
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