Nestlé, Itambé e Mococa já demostram mudanças na sua relação com os fornecedores de sua principal matéria-prima. Em Goiás o contrato com anúncio antecipado de preços já virou lei e será efetivado, no máximo, em 90 dias.

O usual no Brasil é o produtor entregar o leite e só ficar conhecendo o preço que receberá 30 dias depois. Muitas vezes sem garantia que a empresa captará todo o leite produzido. O resultado foi instabilidade e grandes oscilações nas cotações. Em 2001, os produtores ganharam R$ 0,40 por litro em abril e depois passaram quase seis meses recebendo a metade.
Para os pecuaristas que investem em qualidade essa relação é ruim, pois beneficia quem atua no mercado "spot". Por isso, eles insistiram, quando da criação das CPI's do leite em seis estados, pela antecipação do anúncio do valor pago e contratos de fornecimento de longo prazo. Estão conseguindo.
Cooperativas como a mineira Itambé começaram o processo. No segundo semestre do ano passado a Nestlé, maior captadora de leite do País, com 1,5 bilhão de litros por ano e 10 mil produtores, passou a anunciar preços com antecedência. "É uma mudança muito saudável porque permite melhorar o planejamento nas fazendas", diz o pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP), Leandro Ponchio.
Na semana passada saiu a primeira intervenção estadual. O governo de Goiás definiu que o laticínio beneficiado com incentivos fiscais do programa Fomentar terá de firmar contratos com os produtores e anunciar, no dia 25 de cada mês, o preço a ser pago. As próprias indústrias estão considerando as medidas benéficas. "Teremos muita disputa no setor, mas é uma coisa que deveria se estender para todo o Brasil", diz o presidente do Sindicato das Indústrias de Laticínios de Goiás, Domingos Villefort. "O mercado continuará guiando os preços, mas esperamos variações menores".
Um passo mais longo na mudança está sendo dado pela Mococa. Com problemas de abastecimento no início de 2002, o laticínio, pertencente ao grupo holandês Royal Numico, fixou contratos de preço por um ano com alguns fornecedores. Até junho a meta é ter 180 mil dos 350 mil litros que a empresa capta vinda de produtores com contratos de um ano. O produtor se compromete a entregar volume e qualidade pré-estabelecidos e sabe qual o preço a ser recebido nos próximos doze meses. "A falta de contratos provocava grande incerteza no produtor e na indústria. O produtor fica com medo de investir e o laticínio pode ter problemas com o fornecimento", diz o diretor financeiro da Mococa, Marcos Alvarez.
O presidente da Leite Brasil, associação que representa os produtores, Jorge Rubez, considera os novos contratos um avanço, mas frisa que é só o começo e ainda há muito o que mudar para o amadurecimento do setor.
Fonte: Valor On Line (por Giuliano Ventura), adaptado por Equipe MilkPoint
