Foto 1: Grupo visita a LIC
Praticidade e objetividade sempre foram características conhecidas do neozelandês, tanto na forma de pensar quanto no agir. Na genética, não poderia ser diferente. No país que sempre pagou por quilos de sólidos e possui quase 40% do mercado de exportação de lácteos, ter leite com alto teor de proteína e gordura é fundamental.
O grupo também assistiu palestras relacionadas às pesquisas na atividade leiteira e debates comparando sistemas de produção na Dairy NZ, entidade de pesquisa e extensão rural. Segundo dados do relatório New Zealand Dairy Statistics, 2011-2012, produzido pela entidade, a raça Jersey dominou o rebanho leiteiro nacional até final dos anos 1960. Em 1970, Holstein-Friesian foi a raça leiteira predominante na Nova Zelândia e a partir de 2000, iniciou-se a criação do gado cruzado, o Kiwi Cross (Holstein-Friesian x Jersey). No gráfico 1 é possível visualizar a evolução da porcentagem de inseminação das principais raças leiteiras do país.
Gráfico 1: Histórico da porcentagem de inseminação entre raças
Fonte: New Zealand Dairy Statistics, 2011-2012
Nos últimos 5 anos, a porcentagem de inseminações de Holstein-Friesian aumentou para 54%, enquanto que para a raça Jersey houve declínio, atingindo agora 18%; o Kiwi Cross, por sua vez, atingiu 24% das inseminações, com leve aumento nos últimos anos.
Como a produção de leite se dá de forma sazonal no país, começando em julho e terminando em maio, a detecção de cio é facilitada pois a maioria dos produtores fazem a sincronização dos cios e partos de forma predominantemente natural (escolhe-se em qual cio deve inseminar). A inseminação artificial (IA) tem oscilado entre 72% (2009/10) e 76% (2007/08) para as últimas nove temporadas e o número de vacas que são inseminadas aumentou 4,3%, batendo um recorde 3,4 milhões em 2011/12.
Na maioria das vacas é utilizado o sêmen fresco, o qual tem viabilidade de 4 dias. Há toda uma logística montada no país para que, durante a época da inseminação, os inseminadores consigam receber a tempo as doses de sêmen. “Até horário de avião pode ser retardado se o motivo é receber uma carga preciosa dessas...”, explicou Trina Dunning, gerente de negócios da LIC.
Foto 2: Rebanho cruzado em uma das fazendas visitadas pelo grupo
Como 70% do leite que vai para a indústria é destinado à manufatura de lácteos, os neozelandeses responderam à essa demanda rapidamente valorizando raças produtoras de sólidos. Assim, o Kiwi Cross tornou-se a raça característica da Nova Zelândia, sendo bem aceita pelos produtores, devido às suas características de produção de leite aprimoradas com alto teor de sólidos, bons resultados reprodutivos, menores células somáticas, menores problemas de pernas e pés e maior longevidade, podendo uma vaca chegar até 12 - 13 anos. Os touros Kiwi Cross são 2% superiores em relação a fertilidade quando comparados aos sêmens Holstein-Friesian, ao passo que as fêmeas têm maior facilidade no parto.
As melhorias descritas são o resultado da heterose (ou vigor híbrido). Quando os animais de raças diferentes são cruzados, o desempenho do animal resultante, em média, pode ser maior do que o que é normalmente esperado a partir da média dos progenitores.
Tabela 1: Percentual de melhoria do desempenho da primeira cruza (Holstein Friesian x Jersey) na Nova Zelândia, atribuída ao vigor híbrido.
Os efeitos do vigor híbrido na produção de gordura, proteína e peso vivo estão incluídos no mérito genético estimado para cada vaca dentro do sistema New Zealand Animal Evaluation (A genética da Nova Zelândia não está incluída no InterBull). Mais forte no primeiro cruzamento entre raças puras, o efeito do vigor híbrido diminui, mas ainda mantém sua importância no cruzamento seguinte. Por exemplo, uma vaca fruto de um cruzamento (F1) com um reprodutor cruzado ainda vai reter 50% do vigor híbrido e benefícios associados. Importante lembrar que o vigor híbrido deve ser usado para complementar o ganho genético, e não substituí-lo.
Quando utiliza-se mais uma raça ao F1 (Tricross) - normalmente as raças vermelhas como a Sueca Vermelha ou Ayrshire são as preferenciais - o valor médio de retenção da heterose aumenta em relação à utilização do cruzamento simples com duas raças, mas por outro lado, apresenta mérito de eficiência menor, sendo muitas vezes desvantajoso economicamente. Em consequencia disso, os neozelandeses não veem mais vantagem em utilizar o Tricross.
Os caminhos da genética refletem também os sistemas de produção de leite. Como o foco do produtor é utilizar sempre raças que sejam rentáveis e adaptadas ao sistema de produção, há quem diga que seria viável, em um futuro não muito distante, a entrada mais maciça de genética para animais que comem no cocho. Um tema que foi levantado várias vezes durante as visitas às fazendas e instituições, foi a migração gradual de produtores para sistemas mais intensivos, com maior uso de suplementação e menor dependência de pastagens. Por esse motivo, utilizar genética voltada para sistemas estabulados poderá ganhar espaço.
