Genética na Nova Zelândia: rentabilidade alinhada à demanda

Raças e Genética: Recentemente, o MilkPoint e a Caep levaram 22 pessoas para uma viagem técnica na Nova Zelândia. O grupo pode observar de perto a produção de leite e as suas vacas produtoras de sólidos (gordura e proteína). Foi possível ver também os animais cruzados nas fazendas visitadas, assim como ouvir dos especialistas da LIC Livestock Improvement, a maior central do país, mais informações a respeito da genética da NZ. Por Bia Ortolani

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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Recentemente, o MilkPoint e a Caep levaram 22 pessoas para uma viagem técnica na Nova Zelândia. O grupo pode observar de perto a produção de leite e as suas vacas produtoras de sólidos (gordura e proteína). Foi possível ver também os animais cruzados nas fazendas visitadas, assim como ouvir dos especialistas da LIC Livestock Improvement, a maior central do país, mais informações a respeito da genética da NZ.


Foto 1: Grupo visita a LIC

Praticidade e objetividade sempre foram características conhecidas do neozelandês, tanto na forma de pensar quanto no agir. Na genética, não poderia ser diferente. No país que sempre pagou por quilos de sólidos e possui quase 40% do mercado de exportação de lácteos, ter leite com alto teor de proteína e gordura é fundamental. 

O grupo também assistiu palestras relacionadas às pesquisas na atividade leiteira e debates comparando sistemas de produção na Dairy NZ, entidade de pesquisa e extensão rural. Segundo dados do relatório New Zealand Dairy Statistics, 2011-2012, produzido pela entidade, a raça Jersey dominou o rebanho leiteiro nacional até final dos anos 1960. Em 1970, Holstein-Friesian foi a raça leiteira predominante na Nova Zelândia e a partir de 2000, iniciou-se a criação do gado cruzado, o Kiwi Cross (Holstein-Friesian x Jersey). No gráfico 1 é possível visualizar a evolução da porcentagem de inseminação das principais raças leiteiras do país.

Gráfico 1: Histórico da porcentagem de inseminação entre raças

Fonte: New Zealand Dairy Statistics, 2011-2012

Nos últimos 5 anos, a porcentagem de inseminações de Holstein-Friesian aumentou para 54%, enquanto que para a raça Jersey houve declínio, atingindo agora 18%; o Kiwi Cross, por sua vez, atingiu 24% das inseminações, com leve aumento nos últimos anos.

Como a produção de leite se dá de forma sazonal no país, começando em julho e terminando em maio, a detecção de cio é facilitada pois a maioria dos produtores fazem a sincronização dos cios e partos de forma predominantemente natural (escolhe-se em qual cio deve inseminar). A inseminação artificial (IA) tem oscilado entre 72% (2009/10) e 76% (2007/08) para as últimas nove temporadas e o número de vacas que são inseminadas aumentou 4,3%, batendo um recorde 3,4 milhões em 2011/12.

Na maioria das vacas é utilizado o sêmen fresco, o qual tem viabilidade de 4 dias. Há toda uma logística montada no país para que, durante a época da inseminação, os inseminadores consigam receber a tempo as doses de sêmen. “Até horário de avião pode ser retardado se o motivo é receber uma carga preciosa dessas...”, explicou Trina Dunning, gerente de negócios da LIC.


Foto 2: Rebanho cruzado em uma das fazendas visitadas pelo grupo

Como 70% do leite que vai para a indústria é destinado à manufatura de lácteos, os neozelandeses responderam à essa demanda rapidamente valorizando raças produtoras de sólidos. Assim, o Kiwi Cross tornou-se a raça característica da Nova Zelândia, sendo bem aceita pelos produtores, devido às suas características de produção de leite aprimoradas com alto teor de sólidos, bons resultados reprodutivos, menores células somáticas, menores problemas de pernas e pés e maior longevidade, podendo uma vaca chegar até 12 - 13 anos. Os touros Kiwi Cross são 2% superiores em relação a fertilidade quando comparados aos sêmens Holstein-Friesian, ao passo que as fêmeas têm maior facilidade no parto.

As melhorias descritas são o resultado da heterose (ou vigor híbrido). Quando os animais de raças diferentes são cruzados, o desempenho do animal resultante, em média, pode ser maior do que o que é normalmente esperado a partir da média dos progenitores.

Tabela 1: Percentual de melhoria do desempenho da primeira cruza (Holstein Friesian x Jersey) na Nova Zelândia, atribuída ao vigor híbrido.


Os efeitos do vigor híbrido na produção de gordura, proteína e peso vivo estão incluídos no mérito genético estimado para cada vaca dentro do sistema New Zealand Animal Evaluation (A genética da Nova Zelândia não está incluída no InterBull). Mais forte no primeiro cruzamento entre raças puras, o efeito do vigor híbrido diminui, mas ainda mantém sua importância no cruzamento seguinte. Por exemplo, uma vaca fruto de um cruzamento (F1) com um reprodutor cruzado ainda vai reter 50% do vigor híbrido e benefícios associados. Importante lembrar que o vigor híbrido deve ser usado para complementar o ganho genético, e não substituí-lo.

Quando utiliza-se mais uma raça ao F1 (Tricross) - normalmente as raças vermelhas como a Sueca Vermelha ou Ayrshire são as preferenciais - o valor médio de retenção da heterose aumenta em relação à utilização do cruzamento simples com duas raças, mas por outro lado, apresenta mérito de eficiência menor, sendo muitas vezes desvantajoso economicamente. Em consequencia disso, os neozelandeses não veem mais vantagem em utilizar o Tricross.

Os caminhos da genética refletem também os sistemas de produção de leite. Como o foco do produtor é utilizar sempre raças que sejam rentáveis e adaptadas ao sistema de produção, há quem diga que seria viável, em um futuro não muito distante, a entrada mais maciça de genética para animais que comem no cocho. Um tema que foi levantado várias vezes durante as visitas às fazendas e instituições, foi a migração gradual de produtores para sistemas mais intensivos, com maior uso de suplementação e menor dependência de pastagens. Por esse motivo, utilizar genética voltada para sistemas estabulados poderá ganhar espaço.
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Material escrito por:

Maria Beatriz Tassinari Ortolani

Maria Beatriz Tassinari Ortolani

Médica Veterinária (UEL), Mestre em Medicina Veterinária (UFV), e coordenadora de conteúdo e analista de mercado do MilkPoint.

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Rodrigo Cervi
RODRIGO CERVI

CUIABÁ - MATO GROSSO - REVENDA DE PRODUTOS AGROPECUÁRIOS

EM 11/02/2014

Bom dia Eduardo,

Soube do trabalho realizado com o Brahmolando e gostaria de obter mais informações, se puderes me enviar fotos e resultados desta nova opção de cruzamento fico grato.



Meu e-mail cervi.rodrigo@hotmail.com





Rodrigo Cervi.

Medico Veterinario
carlos eduardo de lima queiroz
CARLOS EDUARDO DE LIMA QUEIROZ

SILVA JARDIM - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 24/04/2013

olá,

  

  eu produzo leite nesse mesmo sistema de produção á pasto, algo muito proximo ao que se faz na nova zelandia, minha base de gado e o jersolando em variados graus de sangue, gostaria de saber onde posso encontrar esses alimentadores de bezerras mostrados em outras matérias no site , mesmo aqueles alimentadores mais simples, pois hoje tenho 114 bezerras na creche e o manejo delas tem sido complicado , desde já agradeço a aqueles que possam me ajudar .
euler andres ribeiro
EULER ANDRES RIBEIRO

ENTRE RIOS DE MINAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/04/2013

Muito bom Eduardo. Precisamos de animais que sejam eficientes no pasto.

É um grande desperdício transformar um ruminante em monogástrico
Eduardo Fonseca Portugal
EDUARDO FONSECA PORTUGAL

MARECHAL CÂNDIDO RONDON - PARANÁ - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 15/04/2013

Oi maria,mt bom seu artigo!



Aqui no Pr,mas precisamente em Marechal cândido Rondom,iniciamos a 2 anos o Projeto Tambo Verde,com foco no EST ,através da base genética Brahmolando,onde utilizamos Doadoras de Oócitos Brahmann com fertilização "in vitro" com HVB Kian(sexado),primeiro touro vermelho milionário no mundo! Pela capacidade de transformar fibra em leite e carne,a heterose do Brahmann se junta a capacidade produtiva do Holandês.Próximo passo o( tree-Cross) com a raça Sueca Vermelha! Penso que o modelo de propriedades rurais no Brasil tem como base o pasto,o que leva a certeza deste caminho que a pouco se inicia.Não podemos esquecer do aproveitamento do macho,que tem grande valor comercial,além do conforto térmico e resistência a ectoparasitas. Sds,Portugal.
euler andres ribeiro
EULER ANDRES RIBEIRO

ENTRE RIOS DE MINAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/04/2013

A grande vantagem do gado à pasto, que é a economia energética ( o leite que vc bebe hoje,  ha poucos dias fazia parte do sol), vai por água abaixo com a intensificação. Em nome de uma produtividade maior, logo vão precisar de subsídios diretos como os Europeus, ou indiretos como Americanos e Canadenses.
Maria Beatriz Tassinari Ortolani
MARIA BEATRIZ TASSINARI ORTOLANI

PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 10/04/2013

Caros,

Agradeço os comentários!



Prezado Evandro, imagino q a "intensificação", como vc diz, provocará mudanças graduais na genética, mantendo sempre a preocupação de aliar a necessidade à rentabilidade.



Prezado Romulado, vc poderá ver mais fotos da viagem em nossa fan page no facebook, acesse: http://www.facebook.com/media/set/?set=a.557331117631691.1073741825.107241665973974&type=3



Abraços.
Murilo Afonso da Silva
MURILO AFONSO DA SILVA

UBERABA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 10/04/2013

Parabéns Bia por este artigo interessante. Demonstrando sistemas eficientes de produção de leite a baixo custo e rentável.
edson luiz hacker
EDSON LUIZ HACKER

CANOINHAS - SANTA CATARINA

EM 09/04/2013

É importante esse intercâmbio de produtores para conhecer outras realidades e se possível adaptá-las em nossas propriedades. Gostaria de participar desses eventos.
Hélio Araújo Silva
HÉLIO ARAÚJO SILVA

BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL - MÍDIA ESPECIALIZADA/IMPRENSA

EM 09/04/2013

A política leiteira, é feita por especialistas.Mas o Mercado?
Romualdo Martins De Paula
ROMUALDO MARTINS DE PAULA

UBERLÂNDIA - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 09/04/2013

Formidável a matéria. Tenho tido ganhos importante sobre o seguimento acompanhando os trabalhos e reportagens realizados por vocês. Esta e mais uma nota 10 que lhe dou. Parabéns... Gostaria de receber mais informações , fotos, detalhes de manejo sobre esta reportagem. E possível  ? Dra. Maria Beatriz Tassinari Ortolani.
Evandro Hoffamnn Pereira
EVANDRO HOFFAMNN PEREIRA

LAGOA VERMELHA - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/04/2013

E na "intensificação", que aumenta o custo, ainda continuará sendo este modelo de animal(cruzado)?
delmiro dantas neto
DELMIRO DANTAS NETO

JABOATÃO DOS GUARARAPES - PERNAMBUCO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/04/2013

Excelente artigo, Maria Beatriz!
Qual a sua dúvida hoje?