Debate opõe pasteurizado e longa vida

Publicado por: MilkPoint

Publicado em: - 6 minutos de leitura

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O crescimento da participação do leite longa vida nos últimos anos no mercado brasileiro desencadeou uma guerra entre produtores. De um lado estão os produtores de leite pasteurizado, o leite fresco, que deve ser refrigerado, e de outro os de leite longa vida, que pode ser estocado por até seis meses sem refrigeração.

A briga pelo mercado levanta questões sobre a qualidade do leite vendido ao consumidor, independentemente do processo de produção. Em debate que o jornal Folha de São Paulo promoveu na semana passada sobre o assunto, uma nova batalha dessa guerra foi travada. O principal argumento das associações dos produtores de leite pasteurizado é que o leite longa vida, em seu processo de industrialização, perde valor nutricional.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Leite Pasteurizado (Abilp), Benedito Pereira Vieira, o processo de ultrapasteurização, conhecido também como processo UHT (Ultra High Temperature, ou temperatura ultra-alta, em inglês), utilizado na fabricação de leite longa vida, diminui o valor nutricional do produto. Segundo ele, no processo, o leite perde grande parte das vitaminas C e B6 que detém e é privado dos lactobacilos, microrganismos importantes para o bom funcionamento da flora intestinal.

O diretor do Centro de Tecnologia em Laticínios do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), Ayrton Vialta, diz que, de fato, o processo de ultrapasteurização reduz o valor nutricional do leite. "A ultrapasteurização é um processo no qual o leite é aquecido a temperaturas muito altas, acima de 140oC. A essa temperatura, praticamente todos os microrganismos presentes no leite são eliminados, mas, com eles, algumas vitaminas e outros nutrientes também são perdidos", diz.

O contra-argumento utilizado pela indústria de leite longa vida, nas palavras da veterinária e gerente de informação ao consumidor da Associação Brasileira de Leite Longa Vida (ABLV), Daniela Rodrigues Alves, é que essas perdas não são relevantes. Segundo ela, a perda de vitaminas e lactobacilos causada pelo processo de ultrapasteurização não é significativa, pois o leite não é considerado fonte primordial desses nutrientes. "O leite é considerado fonte de outras coisas, como cálcio e proteínas. A perda de vitaminas e lactobacilos não é importante", diz ela. Ou seja, mesmo que esses componentes sejam perdidos no processo, isso não alteraria o valor nutricional real do longa vida.

O aquecimento a altas temperaturas no processo UHT é realizado para acabar com todas as bactérias e os microrganismos presentes no leite. Isso torna possível a armazenagem do produto sem refrigeração, desde que em embalagens apropriadas, por cerca de seis meses. Já na pasteurização o aquecimento necessário, em princípio para eliminar apenas agentes causadores de doenças, é mais brando: entre 72oC e 75oC.

Segundo o professor José Alberto Bastos Portugal, do Instituto de Laticínios Cândido Tostes (ILCT), em Juiz de Fora (MG), por causa do processo térmico menos agressivo utilizado na pasteurização, o leite assim processado de fato conserva a maior parte de seus nutrientes naturais. "O leite pasteurizado, pelas características do processo ao qual é submetido, tem realmente mais nutrientes que o longa vida", diz Portugal. "Isso, porém, não significa que ele seja nutricionalmente melhor que o UHT. Na verdade, um é tão bom quanto o outro".

Equivalentes

Em sua defesa, a ABLV apresentou documentos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e da FAO (Organização de Alimentos e Agricultura, na sigla em inglês), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS). O ministério afirma que as perdas nutricionais decorrentes da ultrapasteurização não são relevantes. "O nível de determinadas vitaminas do leite é essencialmente o mesmo na matéria-prima submetida à pasteurização ou a tratamento UHT", diz seu parecer.

Já segundo a FAO, os dois tipos de leite são "equivalentes". "O leite tratado à temperatura ultraelevada goza de todas as vantagens do leite pasteurizado ou esterilizado em forma convencional e não tem nenhum de seus inconvenientes", diz o relatório.

Dieta

O presidente da Associação Brasileira do Leite Tipo A, Lair Antonio de Souza, argumenta que, em uma dieta, o leite é apenas um dos componentes. Assim, mesmo que a quantidade de nutrientes presentes no leite pasteurizado não seja alta, ela existe, e isso faz dele um alimento mais apropriado que o leite longa vida.

Segundo ele, por conta do tratamento, o valor alimentício de uma porção de leite pasteurizado é maior que o de uma porção equivalente de leite longa vida. "No leite que você toma no café da manhã existe uma porção de vitaminas que vão compor sua dieta para satisfazer as necessidades do seu corpo. Então o leite longa vida não é melhor nem pior, ele só tem menor valor alimentício que o leite pasteurizado", disse Souza.

Nova regulamentação vai acabar com o tipo C

Tanto os produtores de leite pasteurizado quanto os de longa vida concordam em um ponto: a solução para os problemas do setor é a aprovação da portaria 56, que modifica a regulamentação do mercado leiteiro nacional. A nova lei, elaborada em 1998, mas que até agora não foi assinada, estipula a criação de um programa de melhoria da qualidade do leite produzido no País.

Segundo o texto da nova regulamentação, serão criados novos padrões de qualidade para o leite no País, envolvendo, principalmente, os métodos de resfriamento pós-coleta. Quanto mais tempo leva para o leite ser resfriado, maior é a proliferação de bactérias.

A portaria 56 estipula que o padrão oficial passará a ser de no máximo 40 mil bactérias por mililitro de leite. Isso, na prática, determina o fim do leite tipo C, que pode ter até 150 mil bactérias por mililitro. Essas mudanças devem seguir um cronograma gradual com fim previsto para 2008.

Tanto a Abilp quanto a ABVL, antagônicas quanto à qualidade dos tipos de leite brasileiros, acreditam que aprovar a lei determinaria um avanço na cadeia produtiva do leite.

Matéria-prima do leite longa vida é questionada

Uma das características do leite longa vida mais atacadas pelos produtores de leite pasteurizado é a qualidade da matéria-prima utilizada para sua fabricação. Eles alegam que esse leite é de qualidade inferior, produzido em zonas que se dedicam, relativamente, há pouco tempo à pecuária, principalmente na região Centro-Oeste. O leite utilizado, tipo C, é o mais barato e o que segue os padrões de produção menos rigorosos.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Leite Tipo A, o longa vida é feito com leite produzido em região chamada de fronteira, que tem preço mais baixo. Segundo ele, porém, o leite utilizado é de baixa qualidade mesmo para um tipo C. "Como o leite lá é mais barato e de má qualidade, eles fabricam o longa vida, que é mais prático para ser vendido nos grandes centros. De outra forma esse leite estragaria no caminho", diz.

A ABLV defende-se afirmando que o leite utilizado na produção do longa vida está em conformidade com a regulamentação do governo para o produto. "O leite que utilizamos passa por análises técnicas para verificar se está dentro dos padrões determinados pela lei", diz a gerente de informação ao consumidor da ABLV.

Segundo o professor Portugal, a qualidade do leite utilizado no processo UHT realmente poderia ser um problema. "A qualidade do leite utilizado na fabricação do longa vida é uma das coisas que poderiam ser questionadas", diz. "Mas a utilização de leite de má qualidade no processo UHT estraga as máquinas utilizadas. E nenhuma empresa em sã consciência iria querer estragar suas próprias instalações, que, dado o grau de tecnologia envolvido, são muito caras", completa.




Fontes: Mapa, ABVL e Abilp

Fonte: Agrofolha/ Folha de S.Paulo (por José Sérgio Osse), adaptado por Equipe MilkPoint
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