Os dois municípios que mais produzem leite no Brasil estão nos Campos Gerais, no Paraná. Castro e Carambeí somaram, em 2024, quase 800 milhões de litros, o equivalente a 2,2% da produção nacional, estimada em 35 bilhões de litros, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM 2024), do IBGE.
Esse desempenho está diretamente ligado à força das cooperativas da região. Castrolanda, Frísia e Capal, sediadas nos Campos Gerais, formam o chamado Pool Leite, junto com Witmarsum e Coamig. Em 2024, o grupo alcançou um marco histórico: 1 bilhão de litros de leite produzidos.
Esse volume é resultado do trabalho de mais de 560 produtores, distribuídos por municípios dos Campos Gerais e algumas cidades do interior paulista. Entre eles está a Fazenda Frísia, em Carambeí, uma das propriedades que se destacam pela escala e pela eficiência produtiva.
A fazenda é comandada por Bauke Dijkstra, associado à cooperativa Frísia. Em 2025, a propriedade ultrapassou a marca de 13 milhões de litros de leite, produzidos por um plantel médio de pouco mais de 900 vacas da raça holandesa. Na prática, isso representa uma média diária de 36 mil litros, volume que coloca a fazenda entre as 10 maiores do Paraná e entre as 35 maiores do Brasil.
A produtividade média é de 40 litros por animal por dia, cerca de seis vezes acima da média nacional e mundial, estimada em 6,5 litros. Alguns animais, no entanto, superam com folga esse número e chegam a produzir até 80 litros diários. Para Bauke, esse resultado não vem de um único fator. “São basicamente três fatores: conforto animal, qualidade da forrageira e genética. São os três pilares. Um sem o outro, não funciona. Não adianta ter genética e não ter conforto, não adianta ter conforto e não ter genética. E é trabalho de longo prazo, de rotina”, detalha.
A ordenha acontece três vezes ao dia, a cada oito horas, em um sistema totalmente mecanizado e sem contato humano. A sala de ordenha recebe 40 vacas por vez, e cada animal tem sua produção monitorada individualmente por equipamentos que analisam volume e qualidade do leite. “Esse serviço tem que ser bem feito por dia, com qualidade. Então, é muito treinamento, o pessoal tem que ser muito responsável”, diz Dijkstra.
Todo o leite segue diariamente para a Unidade de Beneficiamento de Leite (UBL) da Unium, em Ponta Grossa, a menos de 10 quilômetros da fazenda. Ainda assim, a propriedade conta com capacidade própria de armazenamento de até 60 mil litros.
Uma vocação construída ao longo de mais de um século
A força dos Campos Gerais na produção de leite é resultado de uma história que começou há mais de 100 anos, com a colonização holandesa, e foi sendo aprimorada ao longo do tempo. Clima, altitude e tradição ajudaram a consolidar a região como referência nacional. “Está, digamos assim, no DNA da região. As famílias já produziam leite há muito tempo, e aí começou a crescer. Então eu acho que a região é muito apta. Essa altitude em que nós estamos aqui, de mil metros, permite a gente ter um clima mais ameno; e produção de forrageira de inverno, como o azevém, é possível aqui, e em outras regiões não”, acrescenta Dijkstra.
No caso da família Dijkstra, essa ligação com o leite atravessa gerações. Bauke tem raízes holandesas tanto do lado materno quanto do paterno. Seu avô, Hendrik Harms, foi um dos fundadores da Cooperativa Hollandeza de Laticínios, que deu origem à Frísia. Seu pai, Auke Dijkstra, chegou ao Brasil em 1947, após a Segunda Guerra Mundial.
“Meu pai era pecuarista de leite de berço, meu avô era pecuarista de leite e eu acho que meu bisavô era também. Então, está no DNA. Em 1953, 1954, foi comprada essa propriedade, ele começou aqui em 1955 com 15 vacas, naquele tempo, com ordenha manual ainda”, explica.
Bem-estar animal como base da produtividade
O cuidado com os animais é tratado como parte central do sistema produtivo — e não apenas como um conceito. “O bem-estar animal é uma questão econômica, sem dúvida, porque um animal que não está feliz, que não se sente bem, não vai responder. E é uma questão de amor pelos animais também, porque a gente não quer maltratar os bichos que a gente gosta deles”, reforça Dijkstra.
Nos galpões, a ventilação é constante, com grandes ventiladores para reduzir o calor. Em dias mais quentes, as vacas passam por uma sala de resfriamento, com água pulverizada para baixar a temperatura corporal antes da ordenha. A tecnologia complementa o manejo: colares digitais monitoram sinais de estresse ou mal-estar em tempo real.
“O bem-estar aqui está na forma como a gente tem as camas delas, o conforto delas. Está no sistema de resfriamento, para evitar que elas passem por estresse calórico. São esses colares digitais, que estão no pescoço das vacas, que registram qualquer mal-estar ou estresse que o animal tenha”, pontua.
Diversificação da produção
Além da pecuária leiteira, a Fazenda Frísia desenvolve outras atividades em uma área total de 430 hectares. A propriedade mantém a produção de leitões, com cerca de 3 mil animais destinados à Cooperativa Aurora, além do cultivo de grãos e forrageiras. Ao todo, mais de 70 colaboradores trabalham na fazenda.
Fora do Paraná, Bauke também atua no Tocantins, onde a cooperativa Frísia iniciou sua expansão há cerca de uma década. Nessa unidade, o foco está na agricultura e na pecuária de corte.
Na própria fazenda, a produção de milho para silagem é estratégica. No início do ano, são produzidas cerca de 20 mil toneladas, armazenadas sem oxigênio por aproximadamente 90 dias. Essa silagem é uma das principais fontes de alimento ao longo do ano. Cada vaca consome cerca de 40 quilos de alimento por dia, com dieta baseada em silagem de milho e azevém, além de caroço de algodão, farelo de soja, milho moído e uma ração personalizada formulada pelas cooperativas.
Qualidade como diferencial e planos para crescer
Mais do que volume, a região entrega leite de alta qualidade. Bauke lembra que o Pool Leite se antecipou às exigências legais brasileiras ainda no início do programa. “Quando o Pool Leite começou, ele se antecipou a todas as leis brasileiras de qualidade de leite, tanto que muita gente se revoltou, disse que ‘o mercado nem está pedindo isso e tal, mas vocês estão exigindo’, e foi um excelente negócio, porque que todo mundo se adequou. Então, hoje a gente tem leite com células somáticas baixas, com contagem bacteriana baixa, por isso todo e qualquer laticínio gosta de comprar nosso leite”, disse Bauke, explicando que os índices de gordura e proteína da propriedade também estão acima da média.
Com a expansão da UBL em Ponta Grossa e o início das operações da Queijaria Unium, os planos agora são de crescimento e entrega de produtos com a máxima qualidade. “Queremos crescer mais um pouco nesse ramo, que é a nossa especialidade. Queremos crescer até uns 50 mil litros de leite por dia, por enquanto, nesta propriedade, e depois vamos rever se vamos ampliar em outro lugar, se continuamos ampliando aqui mesmo, ou se vamos fazer recria em outro lugar, para concentrar só com vaca aqui. Mas até 50 mil litros a gente consegue nessa, a gente nunca para”, conclui o produtor.
As informações são do Jornal da Manhã, adaptadas pela equipe MilkPoint.