O produtor José Mancilha, de Caçapava, a 110 quilômetros de São Paulo, está há 51 anos no negócio do leite. Todo esse tempo investiu em eficiência, tanques de resfriamento, ordenha mecânica e gado puro holandês com alta produtividade em sistema de confinamento, que lhe garante até oito mil litros por dia com alta qualidade. Mancilha está trabalhando no vermelho desde maio de 2001. Muitos de seus vizinhos, com menos estrutura, não aguentaram e estão se desfazendo dos plantéis.
Várias dessas vacas leiteiras vendidas em São Paulo estão indo para cidades como Orizona, no sudeste de Goiás, onde José Absalão dos Reis tem uma pequena propriedade que produz 320 litros de leite/dia com gado criado a pasto. Ao contrário de Mancilha, ele aumentou seu plantel, comprou uma ordenhadeira e compartilha com alguns colegas de cooperativa um tanque de resfriamento.
Assim como Absalão, mais 300 agricultores da pequena cidade apostaram na produção de leite na última década. Eles têm financiamento do governo de Goiás e já começam a ver crescer o número de indústrias de laticínios no Estado. A diferença de qualidade entre o leite da fazenda de Mancilha, em São Paulo, e a de Absalão dos Reis, em Goiás, existe. Mas ela diminuiu nos últimos anos. Hoje os grandes laticínios aceitam leite de ambos sem grande diferencial de preço. Há meses em que a diferença de remuneração não chega a 20%.
"A grande questão está nos custos", diz o especialista Luiz Fernando Laranja, da USP. O sistema confinado, gado puro e alimentação de alta qualidade faz cada litro de leite custar R$ 0,41 a Mancilha, com pequena variação durante o ano. Hoje ele recebe entre R$ 0,35 e R$ 0,36 por litro de leite B. Pouco melhor que os R$ 0,33 que vinha recebendo ano passado. Já na fazenda de Absalão, no sistema a pasto, mão-de-obra e terra são mais baratas, o leite custa R$ 0,18/litro durante a maior parte do ano e pode cair a R$ 0,15 na época das chuvas.
Produzir leite com gado confinado foi mais rentável até os anos 80, quando o leite resfriado não podia viajar grandes distâncias. Na década de 90, a popularização do consumo do longa vida permitiu que o leite vindo de regiões distantes dos grandes centros consumidores, como Goiás, competissem nas mesmas prateleiras com o leite mais caro dos paulistas, do sul de Minas e de parte do Paraná.
A disputa entre os dois modos de produção resultou no forte aumento da oferta de leite no País e também numa crise histórica nos pólos tradicionais em 2001. Os fazendeiros do Centro-Oeste aumentaram tanto a produção (mais de 10% em um ano), que a baixa de preços foi generalizada e novos patamares foram impostos. "Quem não se adaptar aos novos custos, sairá da atividade", acredita o professor Sebastião Teixeira Gomes, um especialista em leite da Universidade de Viçosa (MG).
As grandes empresas, como Parmalat, já passaram a incentivar seus produtores a utilizar o sistema a pasto, com menores custos e gado mestiço. A produtividade é menor, mas os animais são mais bem adaptados às condições locais. A Nestlé, tradicional captadora do leite de gado confinado em São Paulo e sul de Minas, hoje capta boa parte de sua produção em Goiás, Mato Grosso e Bahia.
Captar leite a baixo custo foi a saída encontrada pelos grandes laticínios para arcar com valores mais baixos dos lácteos no varejo. Desde o início do Plano Real, o preço relativo de boa parte dos lácteos caiu cerca de 40% nas prateleiras, segundo a professora Elizabeth Farina, do Programa de Estudo dos Negócios do Sistema Agroindustrial (Pensa/USP). No mesmo período, a redução do preço médio ao produtor também foi de 40%, de R$ 0,43 para R$ 0,26 em valores deflacionados, de acordo com análise do Cepea/USP.
Isso indica que o produtor teve que arcar com os custos, enquanto o resto da cadeia manteve suas margens. "Não há dúvida que a disputa ficou desigual", diz Farina. Para ela, os pecuaristas, extremamente pulverizados, tiveram seu poder de barganha reduzido ante a força dos grandes laticínios e dos supermercados.
O fortalecimento do cooperativismo é apontado por ela como a solução mais duradoura. Parte da cadeia acredita que melhorias para todos, a curto prazo, podem vir com as exportações. Lideranças do setor pedem ao governo a inclusão do leite na política de garantia de preços mínimos e acompanham as CPIs de vários estados para estabelecer relações mais justas.
Enquanto isso não acontece, já existe quem esteja mudando de sistema de produção, mesmo em regiões tradicionais. Maurício Silveira Coelho, de Passos (MG), mudou a propriedade da família e hoje tem a segunda maior fazenda de leite a pasto do Brasil, com gado mestiço. Com os custos mais baixos, ele se livra do prejuízo. O lucro é ajudado pela venda de bezerros mestiços para fazendas de corte.
Fonte: Valor On Line (por Giuliano Ventura), adaptado por Equipe MilkPoint
Centro-Oeste muda a pecuária leiteira
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