No interior rural de Navarra, no norte da Espanha, o som que ecoa em muitos estábulos não é o barulho metálico de máquinas ou o grito de animais estressados. É música. Melodias suaves, clássicas ou até jotas regionais, escolhidas para acompanhar o dia a dia de rebanhos de vacas leiteiras. O objetivo não é entretenimento. É reduzir o estresse, melhorar o conforto e, com isso, elevar a qualidade do leite que chega à mesa.
A prática faz parte de um modelo chamado produção integrada de leite. Além da música, os animais contam com aspersores que aliviam o calor nos dias quentes e rascadores que permitem que se massageiem. O número de cabeças por propriedade é controlado de forma rigorosa para evitar a superlotação.
O especialistas ouvidos são diretos: uma vaca sem estresse produz mais do que a de uma vaca sob pressão constante. A lógica é simples e fisiológica. O estresse eleva o cortisol, interfere na liberação de ocitocina e dificulta a descida do leite. Ambientes calmos favorecem o fluxo natural, reduzem o risco de problemas sanitários e resultam em um produto com melhores características.
Lacturale e a experiência prática com música
Uma das referências mais conhecidas dentro desse universo é a SAT Lacturale, com sede em Etxeberri-Arakil. O grupo, formado por ganaderos navarros, comercializa leite e derivados sob o selo de produção integrada. Em 2016, a empresa inaugurou oficialmente o uso de música nas instalações. Crianças da Escola de Jotas Irabia cantaram para as vacas, que receberam até lenços vermelhos. O presidente Juanma Garro explicou na época que a medida respondia a uma demanda dos próprios consumidores e à convicção de que “para que as vacas nos dêem um bom leite, antes devemos mimá-las”.
A empresa chegou a reportar aumentos de até 5 litros de leite por vaca por dia em testes, com o produto mais rico em proteínas. Embora os dados precisem ser contextualizados como experiência própria e não como estudo científico controlado de grande escala, a prática se encaixa no mesmo espírito documentado pela RTVE anos depois: música como ferramenta de bem-estar.
Hoje a Lacturale continua destacando a música, ventiladores, duchas e arranhadores como parte do padrão de cuidado. A alimentação mínima de 80% de forragem natural (erva e milho) reforça o vínculo com o território. O modelo mostra que é possível conciliar produtividade com qualidade de vida animal e valorização do produto.
O que a ciência diz sobre música e vacas leiteiras
A ideia de que a música afeta o gado leiteiro não é exclusiva de Navarra. Estudos realizados em diferentes países apontam efeitos consistentes. Pesquisas da Universidade de Leicester, no Reino Unido, mostraram que melodias lentas e harmoniosas — como peças de Beethoven ou baladas suaves — podem aumentar a produção em cerca de 3%. O mecanismo principal é a redução do estresse e a facilitação da liberação de ocitocina.
Outros trabalhos, realizados no Equador, Paraguai, República Dominicana e Brasil, observaram melhorias no comportamento durante a ordenha: menos movimentos de cabeça e cauda, menos mugidos, menor frequência de defecação e micção, e redução no número de células somáticas, indicador de saúde do úbere. Em alguns casos a produção de volume aumentou; em outros, o ganho principal foi na qualidade e na tranquilidade dos animais.
A música de ritmo rápido ou volume elevado, por outro lado, tende a gerar o efeito contrário. Por isso as fazendas que adotam a prática escolhem repertórios calmos, volumes moderados e horários consistentes, especialmente durante a ordenha.
Limitações e o que ainda se discute
Nem todos os estudos encontram o mesmo aumento de volume. Alguns registram ganhos claros na qualidade e no comportamento, mas produção estável. A resposta dos animais depende do tipo de música, do volume, da duração da exposição e do manejo geral da fazenda. A música sozinha não resolve problemas estruturais de alimentação, higiene ou genética. Ela funciona como enriquecimento ambiental dentro de um sistema já bem desenhado.
Além disso, a produção integrada exige disciplina e custos de conformidade. Nem todos os produtores conseguem ou desejam seguir o padrão. O modelo de Navarra funciona porque há apoio institucional, mercado disposto a pagar por diferenciação e um grupo de produtores organizados, como a Lacturale, que comercializa diretamente o produto.
Aproximação com a realidade brasileira
No Brasil, o tema do bem-estar animal na pecuária leiteira também ganhou espaço. Fazendas em estados como Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Espírito Santo experimentam música clássica, forró ou rádio durante a ordenha. Produtores relatam maior tranquilidade do rebanho e, em alguns casos, ganhos de produtividade. A lógica é a mesma: reduzir cortisol, facilitar a ocitocina e melhorar o ambiente.
A diferença está na escala e na regulação. Enquanto Navarra tem um selo oficial de produção integrada com regras claras de densidade e alimentação, no Brasil o avanço ainda depende mais da iniciativa individual ou de programas voluntários de certificadoras. Ainda assim, a experiência espanhola oferece um exemplo concreto de como a combinação de música, conforto físico e pastagem local pode ser transformada em diferencial de mercado.
As informações são da Tribuna de Jundiaí, adaptadas pela equipe MilkPoint.
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