Figura 1 - Vera Fantinato.
“Como docente da disciplina de Microbiologia voltei meus estudos para esse objetivo, pesquisando a bactéria que existe em maior quantidade na cavidade bucal e tem a função de proteger o hospedeiro contra a entrada de micro-organismos causadores de doenças, ou patogênicos. Fui estudar esse assunto na Otago University, na Nova Zelândia, onde ficava o único pesquisador no mundo que estudava a Streptococcus salivarius subsp. salivarius. Fiquei dois anos trabalhando com esse pesquisador e, quando voltei ao Brasil, dando continuidade aos estudos, tive a ideia de desenvolver um iogurte capaz de – com esse novo probiótico - prevenir amigdalite bacteriana, que é tratada normalmente com antibióticos e nem sempre alcança bons resultados”, contou a pesquisadora.
Figura 2 - Placa de Petri com as colônias de bactérias Streptococcus salivarius, usadas para fazer o iogurte.
Em cima disso, Vera procurou alternativas menos agressivas e sem efeitos colaterais. Segundo ela, o uso do probiótico reequilibra as relações ecológicas micro-organismo x hospedeiro, restabelecendo a saúde. “Descobri que o leite poderia ser fermentado por essa bactéria da cavidade bucal, diferindo do iogurte tradicional, que atua sobre o intestino. Essa bactéria foi testada na produção do iogurte, tendo ótimos resultados”, completou ela. Tendo como preocupação central a utilização de um alimento gostoso para levar mais saúde às crianças e a prevenção da dor de garganta, chegou-se ao iogurte, já que o produto tem uma boa aceitação pelas crianças, por seus pais, nutricionistas e pediatras.
Atuação do iogurte
O iogurte tradicional é preparado com cepas de lactobacilos e estreptococos termófilos. Esses micro-organismos são denominados de probióticos: bactérias residentes que vivem no trato bucal, intestinal e vaginal. Estas bactérias "amistosas" como os Lactobacillus acidophilus, Lactobacillus bulgaricus e várias espécies de Streptococcus são as primeiras linhas de defesa do nosso corpo contra micro-organismos potencialmente patogênicos.
Probiótico é uma palavra grega que significa “a favor da vida" e o termo é utilizado para os micro-organismos benéficos que vivem e convivem todos os dias em nossas mucosas, trabalhando em simbiose com o nosso corpo. Os probióticos atuam por meio de uma relação de antagonismo contra outros micro-organismos, impedindo ou dificultando o seu crescimento.
A inovação desse iogurte funcional é que ele não é preparado com lactobacilos e estreptococos termófilos, mas sim o com cepas especiais de Streptococcus salivarius que são capazes de fermentar o leite; além disso essas cepas têm a capacidade de impedir o crescimento da “bactéria inimiga”, o Streptococcus pyogenes.
Os Streptococci salivarius são muito semelhantes aos estreptococos termófilos no que diz respeito à genética e fermentação do leite. Um alimento como esse iogurte poderá ser ingerido quantas vezes se desejar ou forem necessárias, de modo que o micro-organismo benéfico ao hospedeiro esteja sempre presente. Trata-se de um iogurte para a saúde bucal e da garganta.
A professora esclarece que as cepas de S. salivarius não são geneticamente modificadas: são bactérias normais da boca de todas as pessoas saudáveis. Porém, as cepas utilizadas são cepas especiais, selecionadas entre milhares de outras cepas.
Figura 3 - Laboratório de pesquisa do iogurte.
Testes do produto
O estudo que referendou a hipótese aventada pela professora Fantinato foi dividido em três partes:
1ª parte: escolha da melhor cepa. Escolares de São Paulo (EMEF - Luiz Eduardo Matarazzo) utilizaram três iogurtes, preparados com três cepas de S. salivarius diferentes, para verificar qual delas se instalava melhor na boca das crianças.
2ª parte: escolhida a melhor cepa, foram selecionados escolares da Escola Rural Monsenhor Pedro Paulo Farhat, na cidade de Bragança Paulista, estado de São Paulo, Brasil. Esse estudo teve a função de estudar a microbiota (flora) bucal dessas crianças com a introdução do iogurte na merenda escolar, três vezes por semana, em dias alternados. O resultado mostrou que o iogurte colaborou na diminuição de micro-organismos que não são saudáveis e que normalmente podem ser encontrados na boca das crianças, temporariamente: bactérias intestinais, pseudomonas, estafilococos, leveduras e bactérias causadoras da cárie dental. Isso que dizer que o iogurte favorece o equilíbrio da microbiota bucal, impedindo a entrada e colonização de germes causadores de doenças.
3ª parte: foram estudadas mais de 100 crianças de três UBS (Unidade Básica de Saúde) de Bragança Paulista que tinham amigdalite recorrente (amigdalite recorrente é diagnosticada quando a criança ou o adulto tem essa infecção várias vezes ao ano por vários anos seguidos). As crianças recebiam lotes de iogurte em casa e o tomavam diariamente. Após oito meses de estudo, percebeu-se que cerca de 80% das crianças não tinham mais amigdalite, comprovando a eficiência do iogurte preparado com esse novo probiótico na prevenção da amigdalite bacteriana. Esse estudo foi acompanhado mensalmente pelos médicos das UBS.
Segundo Fantinato, a pesquisa está concluída mas o iogurte que evita a amigdalite ainda não está no mercado. “Agora, estamos investindo na divulgação dos resultados para que algum investidor se interesse em produzi-lo. O iogurte é totalmente novo no campo da pesquisa alimentícia e de iogurtes. É preparado da mesma forma que o iogurte tradicional, com os mesmos ingredientes, com exceção do fermento. A S. salivarius nunca foi utilizada antes no setor alimentício, apenas em pastilhas como remédio. Ela frisou que outras bactérias também podem ser adicionadas. Estudos na formulação do iogurte, curvas de crescimento, tempo de prateleira, escolha da melhor cepa para colonização na cavidade bucal, testes de toxicidade da cepa, testes de colonização na cavidade bucal de escolares sadios de 7 a 14 anos e testes em crianças com amigdalite recorrente também foram realizados.
Aceitabilidade e características do produto
Para a pesquisa, o iogurte foi preparado no sabor morango e a aceitabilidade foi muito alta entre as crianças. “É tão gostoso como qualquer iogurte de boa qualidade. É tão nutritivo como qualquer outro iogurte, com a vantagem de melhorar as condições da saúde bucal e prevenir amigdalite bacteriana. Tem as mesmas características nutricionais e também pode-se adicionar sabores, frutas, vitaminas, açúcar, adoçantes, prebióticos e outras bactérias. Enfim, qualquer coisa que se deseje adicionar a um iogurte comum pode também ser adicionada nesse iogurte”, relatou Fantinato.
Figura 4 - Entrega do iogurte nas escolas.
Outras possíveis implicações
Ela ainda adicionou algumas informações para a compreensão da importância da prevenção da amigdalite bacteriana e suas possíveis sequelas.
- A febre reumática (FR) e a cardiopatia reumática crônica (CRC) são complicações não supurativas da amigdalite causada pelo estreptococo beta-hemolítico do grupo A (Streptococcus pyogenes). A FR afeta especialmente crianças e adultos jovens. A mais temível manifestação é a cardite, que responde pelas sequelas crônicas, muitas vezes incapacitantes, em fases precoces da vida, gerando elevado custo social e econômico.
- Os gastos gerados pela assistência aos pacientes com FR e CRC no Brasil são significativos: em 2007, foram gastos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) cerca de R$ 157.578.000,00 em internações decorrentes de FR ou CRC, de origem clínica ou cirúrgica, sendo que, das cirurgias cardíacas realizadas neste período, 31% abordaram pacientes com sequelas de febre reumática.
- A despeito de iniciativas regionais de programas visando à prevenção da FR nas últimas décadas, a inexistência de um programa de âmbito nacional contribuiu para que a FR mantivesse taxas de prevalência ainda bastante elevadas. No Brasil, é muito difícil determinar a incidência de faringoamigdalites bacterianas causadas pelo Streptococcus pyogenes.
- Seguindo a projeção do modelo epidemiológico da Organização Mundial de Saúde (OMS) e de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estima-se que anualmente no Brasil ocorram cerca de 10 milhões de amigdalites estreptocócicas perfazendo o total de 30.000 novos casos de FR, dos quais aproximadamente 15.000 poderiam evoluir com acometimento cardíaco. A FR possui uma distribuição universal, mas com marcada diferença nas taxas de incidência e prevalência entre os diversos países, constituindo a principal causa de cardiopatia adquirida em crianças e adultos jovens nos países em desenvolvimento.
- Estimativas da OMS registraram no ano de 2005 cerca de 15,6 milhões de portadores de CRC; cerca de 300.000 novos casos/ano; e 233.000 mortes diretamente atribuíveis à CRC a cada ano no mundo. O tratamento da faringoamigdalite e a erradicação do estreptococo da orofaringe estão ligados à profilaxia primária que ocorre no reconhecimento e tratamento das infecções estreptocócicas, com a finalidade de prevenir o primeiro surto de FR por meio da redução do contato com o estreptococo e tratamento das faringoamigdalites. O tratamento da faringoamigdalite é relativamente simples, sendo baseado na administração de antibiótico bactericida, com manutenção de nível sérico por 10 dias.
- As crianças que têm amigdalite de repetição não conseguem a cura com os antibióticos, tornando-se alvo das sequelas e todos os traumatismos decorrentes. O tratamento com antibióticos tem tido resultados cada vez menores, pela resistência que os micro-organismos desenvolvem aos antibióticos utilizados. Isso não ocorre apenas no Brasil, mas no mundo todo.
Figura 5 - Uma consumidora do iogurte, Isabelly de 5 anos, de Bragança Paulista/SP.
Apoio à pesquisa
A pesquisa contou com o apoio financeiro da FINEP: n° 1156/08, de 27/10/2008, referência FINEP n° 0854/08. O trabalho de pesquisa teve o apoio fundamental do CIETEC (a maior incubadora de negócios da América Latina) que alavancou o início da pesquisa.
A aprovação do Comitê de Ética e Ministério da Saúde foi realizada pelo Hospital Israelita Albert Einstein e os estudos clínicos foram realizados com autorização da Secretaria de Educação e de Saúde de Bragança Paulista.
Além da publicação de vários projetos em periódicos, alguns deles foram apresentados em Congressos. O Symposium International ''Microbes for Health'' (les microbes pour la santé) organisé par l’Institut Pasteur et Danone Research e o IUFoST - 16º World Congress of Food Science and Technology, em 2012, fazem parte dessa lista.
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