O leite é um dos alimentos mais importantes na alimentação dos brasileiros. Os consumidores de leite e seus derivados estão cada vez mais exigentes em relação à qualidade, praticidade, saudabilidade, dentre outras características, apontando tendências de escolha para produtos mais naturais, menos processados, com maior densidade nutricional e que entreguem conveniência e praticidade (ZACARCHENCO, FERNANDES & REGO, 2017).
A indústria de laticínios, por sua vez, enfrenta desafios para atender às demandas atuais de mercado, encontrando-se diante da necessidade de aumento de produtividade, desenvolvimento de novos produtos lácteos, aumentando assim sua vantagem competitiva. Desta forma a inovação torna-se essencial na busca por novos mercados. Portanto, evidencia-se a importância de verificar quão estruturado o setor lácteo está para adaptar-se ao mercado atual por meio da inovação.
Um dos fatores para o alcance de vantagens competitivas está na escolha de um conjunto de atividades fundamentalmente melhor em comparação com o conjunto daquelas exercidas pelos concorrentes: como forma para gerar uma oferta diferenciada.
Vantagem competitiva é função da capacidade de inovação e esta, por sua vez, está atrelada à capacidade de gestão. Quando uma empresa está em busca de inovação, pressupõe-se que ela já possua capacidade de gestão própria suficiente para rapidamente transformar informações em conhecimento e conhecimento em inovação.
A busca pela inovação, como forma de alcançar a vantagem competitiva, ainda é incipiente. Entraves de uma legislação pouco voltada para inovação e ausência de uma gestão adequada dificultam a inclusão de novas condutas nas empresas. Uma gestão que compreenda a inovação e que busque outras fontes de conhecimento ainda não é uma prática comum no Brasil. O resultado pode levar a perda de vantagem competitiva das empresas. Diversas empresas buscam fusões e aquisições, como forma de obterem maior poder de mercado e se apropriarem de inovações ganhando competitividade.
A geografia da inovação busca compreender melhor a dinâmica das relações que norteiam o processo de inovação no espaço territorial. Esta abordagem considera questões que levem a uma melhor compreensão da relação entre a concentração espacial de um setor e o modo como as infraestruturas locais de ciência e tecnologia ou conhecimento científico são integradas ao ciclo produtivo de uma empresa capitalista, no processo de geração e difusão de inovações.
Aracri (2018) aborda vantagens competitivas que um ‘entorno geográfico’ possa gerar, a partir da presença ou da proximidade de empresas e agentes produtivos pertencentes a um mesmo setor. A lógica é de que o fator proximidade torne este entorno geográfico mais produtivo e eficiente, tendo como agentes produtivos: capitais físicos, tradições laborais, instituições, força de trabalho qualificada e especializada benefícios fiscais, acesso à informação, universidades e centros de pesquisa.
De acordo com o Brasil Dairy Trends 2020 observa-se como fatores de influência do mercado de produtos lácteos (ZACARCHENCO, FERNANDES & REGO, 2017):
- Crescimento e distribuição da renda familiar;
- Envelhecimento da população e consumo de produtos lácteos;
- Mudanças no comportamento de compra e consumo de novas gerações;
- Valorização do estilo de vida saudável e sustentável;
- Avanços na ciência e tecnologia de alimentos;
- Meios de comunicação e informação sobre alimentação e nutrição;
- Ativismo contrário aos alimentos e bebidas processados; e
- Políticas públicas, sistema regulatório e legislação.
As macrotendências apontadas deixam clara a necessidade de inovação em produtos e processos do setor de lácteos, de forma a melhor atender à demanda atual do mercado consumidor. Para embasar a importância do presente estudo evidencia-se tendências e oportunidades de inovação, com destaque a: (i) densidade nutricional e conveniência; (ii) digestibilidade e bem-estar; (iii) funcionalidade e prevenção; (iv) controle e adequação; (v) premiumização e sensorialidade; e (vi) sustentabilidade e naturalidade.
O estudo aplicou uma metodologia denominada ‘radar da inovação’, utilizada pelo Sebrae em algumas cadeias produtivas, como forma de identificar a influência de práticas gerenciais em processos da inovação no Brasil.
Segundo Carvalho et al. (2015) o ´radar da inovação´ pode ser utilizado como ferramenta de gestão à medida que identifica as dimensões menos pontuadas na empresa – gargalos no processo inovativo – os quais, diante de uma gestão adequada, podem auxiliar no alcance da inovação como diferencial na vantagem competitiva.
Participaram do estudo 29 laticínios de Minas Gerais os quais somaram uma capacidade de processamento diário de 9,6 milhões de litros de leite, equivalente a 3,5 bilhões de litros ao ano, em 2019.
O radar, traduz a inovação nas indústrias de laticínios participantes do estudo, a partir da mensuração das treze dimensões abordadas pela metodologia. Ao pontuar de 1 a 5 as dimensões, o gráfico da Figura 1 é apresentado em 360º, na forma de um “radar” ou teia de aranha, de modo que quanto mais aberto maior a inovação no objeto do presente estudo.
Figura 1. Radar da inovação dos laticínios participantes.
Fonte: CASTRO (2019).
O grau de inovação estimado pelo estudo foi de 3,82 indicando que a inovação nas indústrias de laticínios participantes caracteriza-se como ocasional. A partir dos indicadores de tamanho das empresas, verifica-se maior dificuldade de acesso à inovação por parte das pequenas e médias indústrias. Muitas delas não recorrem a fontes de P&D para desenvolvimento de novos produtos ou processos.
O estudo mostrou que a inovação está ocorrendo sistematicamente nas dimensões ‘marca’, ‘cadeia de fornecimento’ e ‘plataforma’. Ambas as dimensões mostram que as indústrias de laticínios têm focado a gestão, sobretudo em pontos chaves de comercialização como: (i) proteção da marca dos produtos lácteos, (ii) logística adequada para entrega dos produtos e (iii) entrega de maior diversidade de produtos a partir da infraestrutura já existente.
As dimensões “ambiência inovadora” e “agregação de valor” foram apontadas como pontos fracos, indicando dificuldades: (i) no alcance das linhas de financiamento para inovação; (ii) no acesso a fontes externas de conhecimento; e (iii) na ausência de parcerias como forma de agregar valor aos produtos e serviços oferecidos ao mercado.
O baixo escore nas dimensões “ambiência inovadora” e “agregação de valor” é demonstração de que as empresas ainda não veem a inovação em produtos e processos como ferramenta de aumento de lucros ou busca por vantagem competitiva. Sobretudo, é uma indicação de que ainda não há efetivamente uma prática do modelo de inovação aberta no setor.
A interlocução entre as indústrias de laticínios e os ICTs ainda é baixa. São necessários avanços que facilitem parcerias, tanto em relação a questões jurídicas quanto na diminuição do tempo de transferência de tecnologia para a indústria. É preciso criar sinergias entres as demandas por parte das indústrias e expertise das ICTs. Para isso, é fundamental que os laticínios compreendam a cultura da inovação como forma de buscar vantagem competitiva, aproveitando assim as ações existentes em prol da inovação como o Sistema InovaLácteos, um programa do Governo de Minas Gerais voltado para aceleração e incubação de startups que possuam inovações exclusivas para o setor lácteo.
Além do exposto, não pode ser desconsiderado o aumento da presença de capital estrangeiro no setor lácteo, com novas aquisições e fusões, o que certamente já vem trazendo novas demandas e necessidade de adaptação ao mercado. Portanto, o tempo para inovar urge.
O setor lácteo precisa avançar na compreensão da necessidade de parcerias, em formato sobretudo de rede, onde haja maior colaboração entre ICTs e setor privado, na busca por soluções a partir do compartilhamento de expertises. É momento de trabalhar de forma colaborativa. Este é um formato que vem sendo aplicado em outros setores da economia com grandes êxitos.
A partir de avanços na compreensão da cultura da inovação, acredita-se que será instaurada uma ambiência inovadora nas indústrias de laticínios aumentando a vantagem competitiva daquelas indústrias que buscarem e de fato implementarem inovações.
Referência Bibliográficas
ARACRI, L. A. S. Especialização produtiva regional e inovação: relacionamentos entre instituições científico-tecnológicas e empresas do setor sucroenergético no Triângulo Mineiro, Brasil. ESPACIOS (CARACAS), v. 39, p. 14-22, 2018.
CARVALHO, G. D. G.; DA SILVA, W. V.; PÓVOA, Â. C. S.; DE CARVALHO, H. G. Radar da inovação como ferramenta para o alcance de vantagem competitiva para micro e pequenas empresas. RAI – Revista de Administração e Inovação, São Paulo, v. 12, n. 4, p. 162-186, 2015.
CASTRO, T. G. S. DE. INOVAÇÃO NO SETOR LÁCTEO DO ESTADO DE MINAS GERAIS: Análise sobre avanços e dificuldades enfrentadas pelas indústrias de laticínios. 2019. Dissertação (Mestrado Prof. em Ciência e Tecnologia do Leite e) - Universidade Federal de Juiz de Fora.
ZACARCHENCO, P. B. V. D.; FERNANDES, A. G.; REGO, R. A. Brasil Dairy Trends 2020: Tendências do Mercado de Produtos Lácteos. Campinas: ITAL, 2017.